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por Samuel Fernandes
Chef e apresentadora fala sobre parceria com cientistas e criação de estratégias contra má alimentação no Brasil
Via de mão dupla: Ao estreitar laços com cientistas, a chef e apresentadora Rita Lobo cria pratos mais equilibrados e saudáveis para a mesa dos brasileiros e compartilha informações “do mundo real” em congressos médicos | Imagem: Editora Panelinha
A chef e apresentadora de TV Rita Lobo é um dos nomes mais reconhecidos da culinária brasileira, mas sua atuação há muito transcendeu o preparo de receitas saborosas. Criadora do Panelinha, iniciativa multiplataforma dedicada a melhorar a alimentação das pessoas, Rita se tornou uma voz importante na comunicação de saúde pública no Brasil, atuando como interlocutora entre o rigor acadêmico e a mesa da população.
Embora não seja cientista de formação, a chef colabora há mais de uma década com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), coordenado por Carlos Monteiro.
A parceria, formalizada em 2014, ajudou a transformar evidências científicas — como a classificação de alimentos por grau de processamento — em ferramentas práticas para enfrentar o avanço dos ultraprocessados (formulações industriais com aditivos químicos e excesso de sal, açúcar e gordura).
Essa colaboração é um exemplo do que os filósofos da ciência Silvio Funtowicz e Jerome Ravetz chamam de “comunidade ampliada de pares”, na qual cientistas e outros atores sociais trabalham juntos para lidar com problemas complexos, tais como insegurança alimentar e o aumento da obesidade no mundo.
Da união entre a pesquisa epidemiológica e a experiência em falar de culinária para um grande público surgiram projetos de grande impacto, como os livros Cozinha a quatro mãos e Comida de Bebê, além de séries de TV que promovem a dieta brasileira.
Filha de uma antropóloga e de um engenheiro, ambos professores universitários, Rita não apenas “traduz” o conhecimento técnico, mas o tensiona com questões do mundo real, como a divisão do trabalho doméstico e a organização da alimentação.
Esse trabalho a levou a espaços tradicionalmente reservados à academia, como congressos internacionais e o lançamento da série sobre ultraprocessados da revista The Lancet. Nesses fóruns, a profissional defende a “comida de verdade” e sustenta que cozinhar é um aprendizado libertador e um instrumento de transformação social.
Na entrevista a seguir, Rita Lobo fala sobre suas parcerias com pesquisadores, os desafios de transitar no meio acadêmico e explica por que a cozinha é, em última instância, um elo direto com a saúde pública.
Rita Lobo: O Nupens tem um convênio formal com o Panelinha para criar conteúdo baseadoemevidências científicas. Tudo começou em 2014, com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, que indicava meu livro Panelinha como referência para uma alimentação saudável.
O professor Carlos Monteiro, da USP, e eu entendemos que poderíamos unir o conceito científico com a prática da cozinha.
Enquanto a ciência traz o conceito, o Panelinha mostra como executar no dia a dia. Nosso objetivo é criar conteúdos baseados em evidências e que levem as pessoas de volta para a cozinha, tirando os ultraprocessados da mesa.
Olho para os dados que a ciência aponta e busco soluções práticas. Por exemplo, ao notar que o consumo de hortaliças estava caindo no Brasil, criei o projeto “O que tem na geladeira?”, com 200 receitas baseadas nos 30 legumes e verduras mais populares do país.
Outro exemplo é o livro “Comida de Bebê“: percebemos que a introdução alimentar é uma janela de oportunidade para melhorar a dieta da casa toda. Mostramos que comida de bebê não é papinha, é “pê-efinho”.
Os pais aprendem que o que o bebê come é o que os adultos também deveriam comer: cereais, leguminosas, hortaliças e carnes e ovos.
Você menciona o “pê-efe” (prato feito) quase como uma fórmula. Como a ciência ajudou a refinar esse conceito?
Aprendo muito com meus livros: cada projeto é como um mestrado para mim! O “prato feito” é uma fórmula, já que é possível propor combinações nutricionalmente equivalentes, mantendo os quatro grupos alimentares.
Ele combina de forma balanceada quatro grupos que deveríamos consumir todos os dias: hortaliças (legumes e verduras), cereais, raízes e tubérculos (como arroz, batata, farinha de mandioca etc.), leguminosas (todos os tipos de feijão) e carnes e ovos, para quem consome, claro.
De um lado do prato, hortaliças, do outro, arroz e feijão e carne. Um prato de homus, tabule e berinjela recheada, em termos nutricionais, equivale a um pê-efe.

Porque ultraprocessados também são uma questão de gênero. Nesse sentido, trago o olhar da cozinha, da prática, e ajudo a pautar discussões que vão além dos nutrientes.
No Brasil, a responsabilidade pela alimentação ainda recai majoritariamente sobre as mulheres. Se essa mulher trabalha, estuda e ainda tem que dar conta da cozinha sozinha, ela vai acabar recorrendo ao “macarrão com nuggets” por pura sobrecarga.
Defendo que a alimentação não é assunto de “dona de casa”, é assunto da casa. Sem divisão de tarefas (planejar, cozinhar, comprar, limpar), não há comida de verdade na mesa.
Eu reforço, nos congressos científicos e médicos dos quais participo, que a cozinha é o elo direto com a saúde pública.
Eu tento dar uma “chacoalhada” nesses eventos. E é necessário. Recentemente, em um congresso com auditório cheio de médicos, apenas uma pessoa soube definir conceitualmente o que era um alimento ultraprocessado.
Meu papel é mostrar que cozinhar é uma ferramenta de saúde, não é dom nem arte; é um aprendizado libertador que dá autonomia para uma vida mais saudável.

Sim, porque ela incomoda narrativas estabelecidas. Há profissionais da saúde que focam apenas em macronutrientes, dizendo para comer mais proteína e tirar carboidrato, ignorando se essa proteína vem de um iogurte ultraprocessado cheio de adoçante e conservante.
A ciência mostra que o corpo às vezes nem entende aquilo como alimento. É um conflito de visões entre olhar para o alimento ou apenas para o nutriente. A classificação dos alimentos por grau de processamento está conseguindo quebrar paradigmas na nutrição mundial.
Invistam na forma de explicar a sua pesquisa. Hoje existem ferramentas que ajudam a comunicar melhor e a tirar o “tom acadêmico” para alcançar mais pessoas.
Minha parceria com o Nupens-USP deu certo porque houve um alinhamento ético: eles têm a evidência e eu tenho habilidades de comunicação e a convicção de nunca fazer publicidade para ultraprocessados.
Se a orientação é comer comida de verdade, alguém precisa ensinar como ela chega à mesa; a ciência e a cozinha precisam caminhar juntas para mudar a saúde pública.
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