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“Não era meu plano”: como uma pesquisadora migrou da academia para o mundo empresarial
A física Amanda Bernardes conta como a formação acadêmica abriu caminho para atuar com soluções biotecnológicas no setor privado
Amanda Bernardes Muniz, da Cellco: “Todo o conhecimento adquirido na academia me ajudou muito a manter os rigorosos critérios dos métodos científicos no desenvolvimento de produtos | Imagem: Arquivo Pessoal
Doutora em biotecnologia molecular pela Universidade de São Paulo (USP), a física Amanda Bernardes Muniz atua profissionalmente como gerente de laboratório e coordenadora de engenharia de proteínas na Cellco Biotec, empresa fundada por jovens pesquisadores do Instituto de Física da USP de São Carlos (SP), com foco no desenvolvimento e comercialização de soluções biotecnológicas.
A companhia desenvolveu DNA polimerases de alta qualidade, enzimas essenciais para aplicações como diagnósticos médicos. Até 2016, o Brasil dependia da importação desses insumos, o que gerava custos elevados e prazos longos — um cenário que abriu espaço para novos negócios.
Durante o doutorado, Amanda Bernardes planejava seguir a carreira acadêmica, mas encontrou um ambiente favorável para trabalhar com inovação.
Com apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a empresa passou a produzir enzimas com desempenho comparável às importadas, oferecendo vantagens competitivas ao mercado nacional.
Desde 2018, a Cellco atende o mercado brasileiro e exporta seus produtos por meio de uma parceria com a alemã Jena Bioscience, um das principais fabricantes de reagentes para laboratórios de pesquisa científica.
De acordo com Bernardes, o mercado global de DNA polimerases movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano, enquanto o segmento de enzimas modificadas já alcança US$ 16 bilhões.
Em entrevista ao Science Arena, a cientista e empresária relata sua transição da academia para o mundo empresarial.
Science Arena – Estar em uma empresa sempre foi seu objetivo?
Amanda Bernardes – Não, muito pelo contrário. Durante meu estágio de pós-doutorado no Instituto de Física da USP de São Carlos, não tinha dúvidas de que almejava uma carreira acadêmica em universidade. Mas a vida é sempre cheia de surpresas.
Uma amiga, contemporânea do doutorado, havia acabado de abrir uma empresa de produtos biotecnológicos, e me chamou para desenvolver um projeto de inovação com o auxílio da FAPESP. Era o início da Cellco.
Embarquei nessa empreitada da inovação, motivada pela oportunidade fascinante de entender como se faz pesquisa com viés mais empresarial.
A vida empreendedora, então, não estava em seus planos iniciais?
Nem a de pesquisadora, na verdade. Eu ingressei na graduação em física almejando me tornar professora do ensino médio, motivo pelo qual fiz licenciatura em ciências exatas. Mas, ainda no final do primeiro ano da faculdade, decidi me dedicar a um estágio de iniciação científica.
Nesse projeto, eu me envolvi com pesquisa e desenvolvimento (P&D) voltados para o estudo de técnicas de biologia molecular e biofísica de proteínas. Foram quase quatro anos que me renderam um encantamento com a pesquisa, me fizeram embarcar na vida acadêmica e pleitear um doutorado direto na área de física biomolecular.
Como se desenrolou sua vida acadêmica, a partir de então?
O escopo da minha pesquisa de doutorado envolvia a aplicação de uma variedade de técnicas e métodos científicos modernos de biologia molecular, celular e estrutural, principalmente de proteínas.
Para ampliar meu conhecimento e a construção de uma rede de contatos, realizei um estágio em um centro de excelência para ensaios funcionais com proteínas, no Diabetes and Endocrinology Research Center do Houston Methodist Research Institute, nos Estados Unidos.
A necessidade de contínuo aprimoramento científico e profissional, aliada à excelente infraestrutura, agradável ambiente de trabalho e projetos desafiadores e estimulantes, me levaram a realizar um pós-doutorado.
Conduzi um projeto com ênfase em produção e caracterização de alvos proteicos com interesses biotecnológicos, incluindo etanol de segunda geração – produzido a partir do bagaço e da palha de cana-de-açúcar e de outros resíduos agrícolas.
Encontrou um ambiente propício para a inovação e o empreendedorismo na universidade?
Na academia, tive a sorte de estar inserida em um grupo de pesquisa de excelência, tanto em infraestrutura quanto em apoio profissional e financeiro. Sempre estive respaldada por bolsas de auxílio à pesquisa, além de estar inserida em projetos maiores financiados pelas principais agências de fomento à pesquisa do Brasil.
Estar em um grupo de profissionais super dedicados e capacitados, aliado ao apoio financeiro dessas agências, garantiam que o ambiente fosse de inovação e de empreendedorismo. E o resultado disso é que a Cellco foi criada e ancorada por ex-estudantes egressos desse ambiente acadêmico.
Cabe dizer também que, recentemente, concluí uma especialização em gestão hospitalar. Esse movimento surgiu da percepção de que a empresa vem expandindo sua atuação em ensaios diagnósticos e soluções voltadas ao setor da saúde.
Busquei compreender mais profundamente o funcionamento do ambiente hospitalar, suas demandas assistenciais, regulatórias e de gestão, para que o desenvolvimento de produtos biotecnológicos esteja cada vez mais alinhado às necessidades reais desse ecossistema.
Acredito que integrar conhecimento técnico-científico com visão estratégica do setor hospitalar amplia nossa capacidade de inovar com propósito e impacto.
Quais foram as maiores diferenças que percebeu entre esse mundo acadêmico e o do empreendedorismo?
No início, já me deparei com algumas diferenças de abordagem. Na academia, meus esforços eram focados em desenvolver ciência básica, que auxiliasse no avanço do conhecimento de uma determinada área, tendo como resultado publicações científicas.
Na empresa, os objetivos são ditados pela demanda prática, buscando o desenvolvimento de processos e produtos que beneficiem os clientes e, consequentemente, a empresa.
Como um ajuda o outro?
Apesar dessa diferença de objetivos, todo o conhecimento adquirido na academia me ajudou muito a manter os rigorosos critérios dos métodos científicos no desenvolvimento de produtos, mesmo buscando os resultados mais rápidos e aplicáveis da empresa.
Por sua característica inovadora, a empresa mantém a essência da academia na pesquisa, mesmo em um contexto mais competitivo, como o empresarial. Por esse motivo a minha transição da academia para o meio empresarial foi suave e muito gratificante.
Alguma saudade da época de pesquisa básica?
A empresa tem um forte comprometimento com a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos, o que mantêm meu ímpeto de pesquisadora, assim como era na academia. Mas é claro que as diferenças nas prioridades nos impõem diferentes motivações e habilidades.
Por exemplo?
A maior diferença é lidar com o desenvolvimento de produtos que não possuem literatura como retaguarda, por serem, quase sempre, produtos com produção sigilosa para garantir a vantagem competitiva das empresas.
Mas todo o rigor dos métodos científicos e conhecimentos adquiridos na academia, que nos incentiva a ter criatividade e resiliência, nos garantem a possibilidade de enfrentar essa ausência de revisões literárias, entre outros aspectos, para o desenvolvimento de novos processos e produtos.
A empresa, por sua vez, pode auxiliar a academia a desenvolver abordagens mais práticas e adaptáveis, buscando contribuir de forma mais significativa, nas soluções aos problemas da sociedade.
Ambas as visões são essenciais e, quando cooperadas, podem contribuir de forma efetiva para o progresso científico e tecnológico.
Alguma dica para quem está pensando nessa transição entre academia e vida empresarial?
Essa transição pode ser cheia de desafios, pois, como citei, os interesses são, na maioria, distintos. Entretanto, é uma grande chance de adquirir novas habilidades.
Aconselharia a buscar o máximo possível de experiências práticas, como estágios ou projetos acadêmicos em colaboração com empresas, como foi o meu caso, e a participação em palestras e workshops.
Isso poderá ajudar a identificar lacunas em sua formação acadêmica e as exigências da demanda empresarial, além de já dar uma ideia de como esse cenário empresarial funciona e se é esse o seu real objetivo.
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