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por Samuel Fernandes
Vice-presidenta da Guatemala, Karin Herrera relata como a formação científica orienta decisões públicas em contextos de alta desigualdade
A microbiologista Karin Herrera, vice-presidenta da Guatemala: “Dados e números precisam se traduzir em melhorias reais na qualidade de vida” | Imagem: Vicepresidencia de Guatemala
A ciência não pode ficar restrita ao laboratório quando as pessoas precisam de respostas concretas para melhorar sua qualidade de vida. A afirmação de Karin Larissa Herrera Aguilar sintetiza o eixo central da conversa que a microbiologista e atual vice-presidenta da Guatemala teve com a reportagem de Science Arena em outubro passado.
De passagem pelo Brasil*, onde participou da 17ª Conferência Geral da The World Academy of Sciences (TWAS), no Rio de Janeiro, Herrera defendeu o papel do conhecimento científico na formulação de políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades sociais, crises ambientais e desafios estruturais como a desnutrição crônica.
Cientista de carreira, Herrera é formada em química biológica pela Universidade de San Carlos da Guatemala (USAC), com mestrado em estudos ambientais e doutorado em sociologia, este último defendido na Universidad Pontificia de Salamanca, na Espanha.
Antes de assumir a vice-presidência do país centro-americano, cujo mandato se enerra em 2028, Herrera construiu uma trajetória de mais de três décadas na universidade pública.
Atuou como professora, pesquisadora e gestora acadêmica na Faculdade de Ciências Químicas e Farmácia – a única instituição pública de ensino superior da Guatemala. Suas pesquisas se concentraram em temas como microbiologia, qualidade da água, saúde ambiental e educação científica.
Na entrevista a seguir, Herrera reflete sobre sua transição da academia para a política, e argumenta que temas como segurança alimentar, acesso à educação, riscos climáticos e cooperação internacional exigem articulação entre ciência, Estado e sociedade.
Karin Herrera – Minha formação começou na universidade pública da Guatemala, onde fiz a graduação, e depois segui para a pós-graduação e o doutorado em instituições privadas. Trabalhei por mais de 30 anos na universidade pública, o que também me levou a participar, de forma voluntária, de diferentes instâncias governamentais ligadas à academia.
Um ponto decisivo foi minha atuação, em 2017, no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Ali ficou muito evidente para mim a distância entre o que se pesquisa nas universidades e centros científicos e o que efetivamente acontece nas instituições do Estado.
Percebi que, se houvesse maior articulação, a pesquisa poderia orientar de forma muito mais direta a formulação de políticas públicas e normas baseadas em evidências.
Ao mesmo tempo, vivíamos crises importantes na educação superior pública. Eu me sentia limitada, sem conseguir promover as mudanças estruturais necessárias a partir daquele espaço. Foi nesse contexto que surgiu o convite para integrar a chapa presidencial liderada por Bernardo Arévalo.
Não entrei com a certeza da vitória, mas com a convicção de que, se vencêssemos, eu estaria ali por compromisso com temas que sempre me moveram — especialmente ciência, educação e desenvolvimento.
Essa transição foi fundamental. Durante meu mestrado, trabalhei com análises de qualidade da água em regiões como a bacia do rio Polochic e o Petén. Ao apresentar os resultados, percebíamos o interesse de prefeitos, pescadores e representantes da sociedade civil.
Mas nós falávamos em termos muito técnicos — bactérias, nitratos, fosfatos — sem responder às perguntas práticas que eles tinham.
Nunca me esqueço de um prefeito que me disse: “Só tenho recursos para uma estação de tratamento. Onde devo colocá-la? Quem polui mais?”. Aquilo foi um alerta.
Eu estava excessivamente focada no diagnóstico técnico e pouco atenta às necessidades concretas das pessoas.
Foi esse incômodo que me levou ao doutorado em sociologia. Continuei trabalhando com água, mas passei a olhar para os problemas a partir das pessoas, dos riscos sociais, da tomada de decisão com poucos recursos.
A interdisciplinaridade me ensinou a priorizar, a entender que dados e números precisam se traduzir em melhorias reais na qualidade de vida.
Hoje, como vice-presidenta da Guatemala, essa visão é ainda mais essencial. Lidamos com temas que eu não tinha no radar, como migração irregular ou tráfico de pessoas, mas a lógica é a mesma: políticas precisam ter metas, indicadores, monitoramento e avaliação para que possam ser corrigidas e aprimoradas ao longo do tempo.
A entrada de Herrera na política nasce da percepção de uma desconexão persistente entre a produção científica nas universidades e as decisões do Estado. Sua experiência em conselhos governamentais revelou que políticas públicas carecem de maior articulação com evidências científicas e com as necessidades reais da população.
A trajetória que combina microbiologia, estudos ambientais e sociologia foi decisiva para ampliar o olhar de Herrera além do laboratório. A interdisciplinaridade permitiu priorizar recursos escassos, traduzir dados técnicos em decisões práticas e considerar dimensões sociais, econômicas e humanas nos processos de formulação de políticas.
Herrera defende metas claras, indicadores e avaliação contínua como pilares da gestão pública. O principal obstáculo, segundo ela, não é técnico, mas cultural: nem todos os setores do governo estão habituados a trabalhar com monitoramento, evidências e ajustes sistemáticos das políticas implementadas.
A entrevista enfatiza que dados científicos só fazem sentido quando se traduzem em melhorias concretas na qualidade de vida. Segurança alimentar, educação, acesso à água, migração e desnutrição crônica aparecem como problemas complexos que exigem escuta ativa, diálogo horizontal e soluções construídas com as comunidades.
Herrera destaca esforços para ampliar parcerias internacionais, mobilidade de pesquisadores e intercâmbio de conhecimento, ao mesmo tempo em que reconhece a fragilidade da infraestrutura científica nacional. Seu objetivo é articular universidades, centros de pesquisa e governo em uma visão integrada de desenvolvimento baseada na ciência.
O principal desafio é cultural. Nem todos estão acostumados a trabalhar com metas claras, indicadores e avaliação contínua. Mas é um caminho sem volta. Quando políticas são formuladas com base em evidências, podemos demonstrar o que funciona e o que precisa ser ajustado.
A Guatemala enfrenta grandes desigualdades no acesso à educação. Temos uma cobertura muito limitada no ensino médio e superior, o que impacta diretamente nossa capacidade de desenvolvimento.
Para falar em desenvolvimento sustentável e integral, precisamos fortalecer a educação e enfrentar temas estruturais como segurança alimentar e desnutrição crônica.
Aprendi que é preciso escutar mais. Quando comecei a dialogar diretamente com comunidades, percebi muita desconfiança, fruto de questões históricas. Isso não se resolve rapidamente.
É essencial demonstrar interesse genuíno, agir com respeito e não impor soluções. O diálogo precisa ser horizontal. As pessoas têm os mesmos direitos e precisam sentir que fazem parte do processo. Só assim é possível construir confiança e avançar em políticas que realmente atendam às suas necessidades.

A partir da vice-presidência, tenho buscado aproveitar encontros bilaterais para colocar a ciência no centro do diálogo internacional. Defendo fortemente a mobilidade de pesquisadores, bolsas de estudo e o intercâmbio de conhecimento — com a lógica de que nossos profissionais possam sair, mas também retornar ao país.
Temos dialogado com instituições como o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD), da França, e com representantes da Agência Espacial Europeia (ESA), discutindo inclusive a possibilidade de centros de monitoramento no país para riscos climáticos, segurança alimentar e vulnerabilidade social.
Ao mesmo tempo, sabemos que precisamos investir mais em infraestrutura científica. Esse é um grande desafio.
Meu sonho é que a Guatemala tenha uma visão integrada de país, com universidades e centros de pesquisa articulados, mesmo diante de recursos limitados.
A desnutrição não é apenas uma questão de alimento, mas de pobreza, acesso, qualidade e políticas integradas. Estou convencida de que a ciência pode e deve oferecer respostas a esses problemas.
Se for necessário, iremos às universidades buscar nutricionistas, médicos, agrônomos, engenheiros, pedindo que ajudem a construir projetos voltados a essas questões.
Integrar o setor acadêmico às necessidades reais da população é essencial para promover um desenvolvimento mais justo.
Diria que não tenham medo da interdisciplinaridade. A ciência não termina no laboratório nem na publicação de artigos. Quando conectada às necessidades da sociedade, ela se torna uma ferramenta poderosa de transformação. Precisamos de cientistas dispostos a dialogar, ouvir e construir soluções junto com as pessoas.
*A equipe do Science Arena viajou ao Rio de Janeiro a convite da TWAS.
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