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14.12.2023 COP-28

“Saúde será cada vez mais desafiada pela crise climática”

Para o climatologista Carlos Nobre, é preciso aperfeiçoar a obtenção de informações sobre o impacto das ondas de calor na saúde

Carlos Nobre: "Fatores que agravam as mudanças climáticas, como a poluição, já agravam doenças crônicas e causam mortes – não estamos mais falando de uma projeção futura | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Não são poucos os riscos das altas temperaturas para a saúde humana. Alterações hormonais e metabólicas, desregulação da pressão arterial e comprometimento das funções renais e cardiovasculares são alguns dos principais efeitos das ondas de calor, quando as temperaturas médias de determinada localidade registram 5 graus Celsius (°C) acima da média por mais de cinco dias. Tempo quente ou frio fora do normal, episódios de chuvas intensas e volumosas e estiagens prolongadas são o que os especialistas chamam de extremos climáticos, termo cada vez mais presente no vocabulário quotidiano.

Esses fenômenos são expressão direta das alterações do clima associadas à ação humana, incluindo a emissão de gases de efeito estufa por meio da queima de combustíveis fósseis – o que, por sua vez, impulsiona o aquecimento global e a perda de biodiversidade, impactando severamente a saúde do planeta.

Em 2023 – provavelmente o ano mais quente da história, de acordo com relatório da Organização Meteorológica Mundial (WMO) – a 28ª edição da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-28), realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, deu um passo importante ao colocar o tema da saúde no centro da crise climática.

O evento da Organização das Nações Unidas (ONU), concluído nesta terça-feira (12/12), resultou na elaboração de uma Declaração sobre Clima e Saúde, com mais de 140 países signatários, incluindo o Brasil. O documento reconhece que os sistemas de saúde precisam passar por transformações para que se tornem mais resilientes às alterações do clima, promovam maior acesso equitativo aos serviços de assistência e evitem o agravamento dos impactos das mudanças climáticas na vida das pessoas.  

Do ponto de vista da pesquisa científica, ainda há lacunas que precisam ser preenchidas. Embora seja possível associar um maior risco de mortalidade a ondas de calor, especialmente em idosos – como indicou estudo publicado recentemente no International Journal of Hygiene and Environmental Health –, levantar dados concretos sobre os efeitos do calor extremo na saúde representa um desafio e tanto. Isso porque há uma ampla gradação de doenças e sintomas que podem ser intensificados em decorrência do aumento brusco da temperatura.

A articulação e o cruzamento de dados meteorológicos e de mortalidade precisam ser aperfeiçoados, “especialmente em países como o Brasil, cujo sistema de saúde ainda não consegue identificar a correlação direta entre altas temperaturas e mortes decorrentes, por exemplo, de infarto ou acidente vascular cerebral [AVC]”, afirma o climatologista Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).

Em entrevista ao Science Arena, poucos dias após retornar da COP-28, Nobre falou sobre desafios de pesquisa em temas como clima e saúde e deixou suas impressões sobre como essa questão deve ganhar força nos próximos anos.

Science Arena – Entre os extremos climáticos, qual que mais impacta a saúde humana?

Carlos Nobre – Os eventos climáticos extremos que mais levam à morte e impactam diretamente na saúde das pessoas são as ondas de calor. Há vários outros efeitos dos extremos climáticos relacionados a casos de morte, como inundações e secas severas, mas o maior número de óbitos e de episódios associados a enfermidades cardiovasculares e pulmonares são as altas temperaturas, como as que temos registrado no Brasil nos últimos meses e que trazem complicações especiais para bebês, idosos e pacientes com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Há estudos recentes indicando que a grande onda de calor que atingiu a Europa em 2022 resultou na morte de 61 mil pessoas, principalmente idosas acima dos 80 anos.

O que fazer diante desse cenário?

Recordes de temperaturas máxima estão se tornando cada vez mais frequentes devido ao aquecimento global, acentuado pelas emissões de gases de efeito estufa. Compostos como o metano (CH4) e o dióxido de carbono (CO2) aquecem a atmosfera terrestre e atuam como “motor” das ondas de calor. Como não há mais jeito de diminuir o aquecimento global, ao menos não neste século, é preciso tornar a sociedade mais resiliente à situação atual, sobretudo as populações mais vulneráveis às variações de temperatura e a desastres climáticos.

Pessoas de países tropicais, entre eles o Brasil, são habituadas com temperaturas elevadas, diferentemente daquelas que vivem em latitudes médias ou altas, como os europeus. Ocorre que mesmo os povos de latitudes tropicais estão enfrentando recordes de calor extremo nunca sentidos, o que desafia diversos segmentos da sociedade e sistemas de saúde de países até então “acostumados” com altas temperaturas.

O chamou a sua atenção sobre esse debate enquanto esteve em Dubai, na COP-28?

Tive a oportunidade de conversar com médicos que participaram da Conferência do Clima, entre eles alguns brasileiros, e o que muitos destacaram é a dificuldade do sistema de saúde do Brasil de conseguir identificar se a origem de uma morte está ou não correlacionada com onda de calor. Evidentemente que outros países encaram esse desafio, não apenas o Brasil. Aqui, os certificados de óbito normalmente informam a causa da morte – por exemplo, um infarto – mas não especificam se o infarto foi motivado por um aumento brusco da temperatura.

Na Europa, esse tipo de avaliação já é uma realidade. Sabe-se que lá, no ano passado, 61 mil pessoas morreram em decorrência de ondas de calor. Isso é um dado importante para que tomadores de decisão e a sociedade em geral entendam a dimensão do problema e busquem soluções. Por isso, é necessário que o sistema de saúde brasileiro encontre meios de reunir esse tipo de informação.

Para o climatologista Carlos Nobre, da USP, ciência precisa expandir ainda mais sua capacidade de fornecer dados e informações capazes de subsidiar sistemas de saúde | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Os recordes históricos de temperaturas também estão associados às grandes queimadas e incêndios florestais. Em uma correspondência publicada em outubro na revista Nature Ecology and Evolution, pesquisadores de vários países, entre eles o Brasil, alertam que o fogo se tornou a principal causa de degradação e perda florestal na Amazônia. Como isso impacta na saúde?

O fogo das queimadas causa poluição atmosférica, especialmente na Amazônia e no Cerrado. A queima da vegetação gera particulados menores do que 2,5 nanômetros e isso entra no pulmão, causando doenças respiratórias e podendo levar à morte. Um levantamento publicado neste ano apresentou números de focos de incêndio associados às internações hospitalares por doenças respiratórias na Amazônia e no Pantanal. Outro estudo, conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz [Fiocruz], sugere que as queimadas na Amazônia foram responsáveis pelo aumento dos percentuais de internações hospitalares por problemas respiratórios nos últimos 10 anos [de 2010 a 2020]. Doenças respiratórias associadas às altas concentrações de partículas de poluentes emitidas pelas queimadas respondem por 70% das internações hospitalares registradas no Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.

As alterações do clima contribuem para o aumento das secas e do calor extremo, e isso faz com que as florestas queimem com mais frequência. Vale lembrar que quase toda queimada – mais de 90% dos casos – é provocada por ação humana, intencional ou por acidente. O desmatamento e a expansão da agricultura, especialmente na Amazônia, prejudicam a integridade da floresta e reduz sua capacidade de resistir ao calor extremos e à estiagem.  

Quais são os desafios para articular conhecimentos climáticos, meteorológicos e de saúde?

Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climáticas [IPCC] da ONU há muitas décadas, desde sua criação em 1988, têm capítulos dedicados ao impacto das mudanças climáticas na saúde humana e do planeta. Essa ciência vem avançando muito no mundo todo, desde os primeiros estudos sobre mudanças climáticas associadas à atividade humana. Ocorre que essas pesquisas sempre abordaram os riscos no contexto da previsão climática, isto é, projetando riscos futuros, buscando prever o que aconteceria com a saúde se as ondas de calor se intensificassem. A questão central é que, agora, isso já está acontecendo. E há pesquisadores atentos há isso, como o professor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo [FM-USP], que é uma referência nos estudos que investigam os efeitos da queima de combustíveis fósseis e das ondas de calor na saúde humana em grandes cidades como São Paulo.

As pesquisas coordenadas por Saldiva mostram, por exemplo, que habitantes da capital paulista chegam a perder dois anos da expectativa de vida devido à poluição gerada pela queima de combustíveis fósseis, notadamente o diesel usado para abastecer caminhões e ônibus. Na periferia de São Paulo, a redução da expectativa de vida pode chegar a quatro anos. Nesse sentido, observou-se nos últimos anos que fatores que agravam as mudanças climáticas, como a poluição, já agravam doenças crônicas e causam mortes – não estamos mais falando de uma projeção futura. Os gases de efeito estufa são responsáveis diretos pela morte de 8 mil pessoas por ano na cidade de São Paulo.

O grande desafio agora é que, com o aumento dos eventos climáticos extremos, como vimos em 2023, a ciência precisa expandir ainda mais sua capacidade de fornecer dados e informações capazes de subsidiar sistemas de saúde e, assim, aperfeiçoar o monitoramento das ondas de calor e o impacto delas na saúde. É preciso entender melhor as causas de mortes naturais e identificar possíveis relações com as mudanças climáticas. Há estudos sobre isso, mas não sistemas robustos preparados para fazer esse tipo de identificação sistematicamente.

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