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26.01.2024 Câncer

Abordagens integrativas podem ser aliadas da oncologia

Recomendações baseadas em evidências mostram, com ressalvas, benefícios de práticas como acupuntura, reflexologia e massagem em pacientes em tratamento de câncer

Ilustração: Estúdio Voador

No começo de 2024, pesquisadores do MD Anderson Cancer Center, no Texas, Estados Unidos, publicaram na revista Current Oncology Reports um estudo de revisão a respeito da eficácia de abordagens integrativas no tratamento do câncer. A pesquisa analisou a promoção de hábitos alimentares saudáveis, atividade física, gerenciamento do estresse e suporte social, qualidade do sono, assim como produtos naturais e suplementos.

Os autores observam que, para além da suplementação com vitamina D, especialmente para aqueles com deficiência, e da possível adição de melatonina adjuvante de alta qualidade, nenhum produto natural ou suplemento é recomendado para reduzir a recorrência do câncer e prolongar a sobrevida.

O trabalho conclui afirmando que apoia “uma abordagem integrativa aos cuidados de saúde”, para “oferecer aos pacientes um plano de tratamento abrangente que leve a saúde ideal, qualidade de vida e maior sobrevivência ao câncer”.

Os autores também fazem ressalvas importantes, como a de que a medicina integrativa não deve substituir o tratamento convencional.

Reconhecem, ainda, que são necessários mais estudos sobre abordagens integrativas.

A revisão cita um conjunto de recomendações publicadas em 2022 e 2023, formulado com participação da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que estabelece diretrizes baseadas em evidências para o uso de práticas de medicina integrativa em pacientes com câncer.

Um desses guias, publicado em setembro de 2022 em parceria com a Sociedade de Oncologia Integrativa (SIO), sugere que práticas como acupuntura, reflexologia, hipnose e massagens podem ser empregadas para aliviar as dores de pacientes oncológicos, levando em conta a literatura científica já disponível sobre esses procedimentos.

Outras abordagens, como a musicoterapia, não causam danos aos pacientes, mas têm menos apoio empírico por enquanto, de acordo com a publicação.

As diretrizes do grupo de trabalho conjunto da ASCO e da SIO, coordenado por Jun J. Mao, do Centro Oncológico Memorial Sloan Kettering, em Nova York, foram publicadas no Journal of Clinical Oncology.

No levantamento, Mao e seus colegas revisaram 227 estudos anteriores, tentando estimar a qualidade das evidências presentes neles.

Além dos especialistas, o painel incorporou um representante dos pacientes oncológicos que adotam esse tipo de terapia. A equipe fez levantamentos, nas bases de dados PubMed e Cochrane Library, sobre estudos publicados entre 1990 e 2021, incluindo tanto testes clínicos randomizados e controlados quanto revisões sistemáticas e meta-análises sobre o tema.

Os estudos deveriam incluir pacientes adultos ou pediátricos que sofriam com dores durante qualquer estágio do tratamento oncológico e recebiam intervenções integrativas para minimizar o problema (técnicas de prevenção da dor não foram incluídas). O desfecho primário deveria ser a redução da frequência ou intensidade da dor, e o número mínimo de participantes para cada estudo seria de 20 pacientes.

Com base nesses critérios, o total inicial de 1.346 artigos científicos analisados caiu para 227. Mesmo no caso dos estudos que satisfizeram os critérios de inclusão, a equipe destaca a considerável variabilidade metodológica e de desfechos primários.

“Essa diversidade impediu uma análise quantitativa, de modo que realizamos apenas uma revisão descritiva”, escrevem os autores.

No trabalho, Mao e seus colegas destacam que, além da dor causada pelo próprio tumor ou pelos efeitos dele em ossos, tecidos nervosos e músculos, os pacientes frequentemente precisam enfrentar dores desencadeadas pelos tratamentos oncológicos convencionais, como as que afetam as articulações, causadas por inibidores de aromatase, comumente usados contra tumores de mama, e as associadas à neuropatia periférica induzida por quimioterápicos.

Diante desses e outros quadros, eles concluíram que algumas práticas integrativas alcançaram uma qualidade de evidências considerada intermediária, sendo moderadamente recomendadas para pacientes oncológicos.

É o caso da acupuntura, indicada para tratar as dores nas articulações e nos músculos geradas por inibidores de aromatase em pacientes de câncer de mama.

Acupuntura

Nesse caso, um teste clínico de fase 3 (que avalia a eficácia) com 226 pacientes demonstrou, por exemplo, que a acupuntura é mais eficaz na redução da dor do que o uso de agulhas em pontos “falsos” (não estimulados tradicionalmente pelos acupunturistas) ou pelo tratamento padrão (apenas farmacológico).

Conclusões muito semelhantes foram obtidas no caso da reflexologia e da hipnose para quem passa por tratamento oncológico sistêmico, ou das massagens para pacientes oncológicos que passam por cuidados paliativos.

Quanto a abordagens como musicoterapia, a revisão da literatura médica indica que essas práticas tendem a trazer mais benefícios do que malefícios para os pacientes. No entanto, a qualidade das evidências é considerada baixa e, portanto, as diretrizes recomendam apenas “fracamente” o uso.

As evidências mais sólidas, por enquanto, vêm de estudos realizados com pacientes adultos. De acordo com o levantamento, os dados sobre o uso de práticas integrativas para minimizar a dor de pacientes oncológicos pediátricos ainda não alcançaram massa crítica suficiente para que seja possível fazer recomendações.

A bióloga Elisa Harumi Kozasa, pesquisadora do Hospital Israelita Albert Einstein, chama a atenção para a necessidade de mais estudos. “Por enquanto, muito poucas terapias integrativas têm embasamento científico”, diz Kozasa, que trabalha com estudos em práticas mente-corpo, como a meditação e o yoga, que, de acordo com ela, têm uma extensa literatura científica dando embasamento. 

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