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Câncer de pâncreas: remédio oral quase dobra sobrevida em ensaio clínico
Dados apresentados na ASCO 2026 indicam que o daraxonrasib reduziu em 60% o risco de morte em pacientes com câncer de pâncreas metastático
Medicamento oral em teste contra o câncer de pâncreas mira mutações do gene KRAS, uma das principais responsáveis pelo crescimento desse tipo de tumor | Imagem: Unsplash
Apresentado nesta semana na sessão plenária da ASCO, o principal congresso internacional de oncologia clínica, o daraxonrasib foi apontado como um dos resultados mais relevantes recentes no tratamento do câncer de pâncreas metastático.
Os dados finais do estudo RASolute 302, um ensaio clínico randomizado de fase 3 com aproximadamente 500 pacientes, indicaram que o medicamento oral, tomado uma vez ao dia, quase dobrou a sobrevida mediana em comparação com a quimioterapia convencional em pacientes previamente tratados: 13,2 meses com daraxonrasib contra 6,6 a 6,7 meses com quimioterapia.
O estudo também registrou redução de 60% no risco de morte e maior tempo até a progressão da doença.
Esses resultados se somam a dados anteriores publicados no início de maio de 2026 no New England Journal of Medicine (NEJM), que já sugeriam que o daraxonrasib poderia frear o avanço do câncer de pâncreas, um dos tumores mais letais.
Em pacientes que já haviam recebido outros tratamentos, o tumor reduziu de tamanho em cerca de 1 a cada 3 casos, e a sobrevida mediana ultrapassou 13 meses — resultados acima do observado hoje nessa etapa da doença.
O medicamento atua contra mutações do gene KRAS, presentes em mais de 90% dos tumores pancreáticos e consideradas um dos principais motores biológicos da doença.
Essas mutações mantêm o sinal de crescimento celular permanentemente ativado, favorecendo a proliferação do câncer. Os inibidores desenvolvidos anteriormente cobriam apenas uma variante específica, a KRAS G12C, rara no câncer de pâncreas.
O daraxonrasib surge como resposta a essa limitação.
Em vez de esperar a proteína RAS entrar em estado inativo para bloqueá-la, ele usa uma segunda proteína, a ciclofilina A, para interceptar o sinal enquanto o RAS ainda está ativo.
Além disso, o composto cobre múltiplas variantes da mutação, incluindo KRAS G12D, G12V e G12R, que juntas respondem pela maior parte dos casos de câncer pancreático.
Para testar seu potencial, os pesquisadores conduziram um ensaio clínico com 168 pessoas com câncer de pâncreas e mutação RAS que já haviam recebido ao menos uma terapia anterior.
O estudo combinou fases 1 e 2, usadas para avaliar segurança, dose ideal e sinais iniciais de eficácia. Entre as doses testadas, 300 mg apresentou os melhores resultados: cerca de 1 em cada 3 pacientes teve redução do tumor, e a sobrevida mediana passou de 13 meses após o início do tratamento.
Hoje, menos de 10% dos pacientes respondem ao segundo tratamento disponível para câncer de pâncreas avançado, e a sobrevida costuma ficar entre cinco e sete meses após seu início. O novo resultado, portanto, representa um avanço relevante num cenário em que as opções terapêuticas permanecem limitadas.
O câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado tardiamente, muitas vezes quando a doença já se espalhou para outros órgãos.
No Brasil, o INCA (Instituto Nacional de Câncer) estima 13.240 casos novos por ano no triênio 2026–2028. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de pâncreas ocupa a nona posição entre os mais frequentes no país, com as maiores taxas de incidência na região Sul.
Contudo, 1 em cada 3 pacientes apresentou efeitos adversos graves, principalmente rash cutâneo e diarreia, embora nenhum tenha abandonado o tratamento por causa disso.
Além disso, o estudo foi relativamente pequeno, não teve grupo controle para comparação direta e recebeu financiamento da Revolution Medicines, fabricante do composto.
Mesmo preliminares, os resultados ajudam a consolidar uma nova geração de terapias voltadas ao KRAS, alvo considerado “indrogável” por décadas e hoje visto como uma das principais fronteiras no tratamento do câncer de pâncreas.
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