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Ensinar professores a usar ChatGPT não basta, alerta estudo
Pesquisa mostra que formação docente precisa ir além de tutoriais e incluir ética, metodologia e novas formas de avaliação com IA
A adoção da IA na educação ainda é um processo em construção: professores e futuros docentes buscam orientação e treinamento para usar a tecnologia em sala de aula | Imagem: Unsplash
A inteligência artificial (IA) generativa avança rapidamente como ferramenta de reconhecido potencial pedagógico, mas sua entrada nas salas de aula esbarra em um obstáculo estrutural: o despreparo de quem ensina.
O cenário atual revela um “apagão” institucional: professores e futuros docentes buscam usar a IA e tentam fazê-lo por conta própria, de forma limitada e sem suporte metodológico das universidades.
O alerta vem de um estudo publicado na revista científica Teaching and Teacher Education. O levantamento foi realizado em janeiro e fevereiro de 2024 em uma universidade do noroeste dos Estados Unidos e ouviu 52 licenciandos, com idade média de 20 anos, e 21 professores universitários responsáveis por sua formação, com idade média de 54 anos e cerca de duas décadas de experiência docente.
Os resultados foram reveladores: dos 52 futuros professores entrevistados, 49 declararam nunca ter recebido nenhum tipo de treinamento formal sobre como aplicar IA no ensino.
O desconforto não é exclusivo dos licenciandos. Entre os 21 formadores, 18 afirmaram não usar IA generativa em suas próprias aulas, 18 também relataram nunca ter recebido treinamento sobre o tema e apenas 9 permitem que os alunos utilizem a ferramenta em atividades, ainda que de forma restrita.
Essa ausência de diretrizes institucionais cria uma contradição: o estudo indica que licenciandos e docentes reconhecem vantagens da IA, como economia de tempo e suporte para planos de aula, mas a falta de orientação restringe o uso a experimentações informais e individuais.
Prova disso é a autoavaliação da própria alfabetização em IA: em uma escala de 0 a 10, a nota média dada pelos licenciandos foi de apenas 4,2, enquanto os formadores se avaliaram com 3,9.
“Nossos alunos e professores querem aprender sobre IA, mas não têm o apoio necessário para isso”, afirma Priya Panday-Shukla, autora da pesquisa
Sem o protagonismo das universidades na reformulação dos currículos de licenciatura, a IA corre o risco de permanecer em uma espécie de “clandestinidade acadêmica”, associada ao medo do plágio e da perda de integridade científica.
O que explica a resistência, apesar do interesse
Para entender por que professores e futuros docentes hesitam em adotar a IA mesmo reconhecendo seu potencial, a pesquisa recorre à teoria da difusão de inovações, formulada pelo sociólogo Everett Rogers em 2003.
O modelo usa cinco atributos para explicar como novas tecnologias se espalham (ou não) dentro de um grupo social, e ajuda a mapear os pontos de atrito na adoção da IA em sala de aula.
Cinco fatores que explicam a adoção (ou rejeição) da IA na formação docente
1. Vantagem relativa: o quanto a IA é percebida como melhor do que os métodos já existentes — licenciandos citam economia de tempo e apoio à geração de ideias como ganhos concretos.
2. Compatibilidade: o quanto a ferramenta se encaixa nos valores e nas práticas já estabelecidas na formação docente, incluindo preocupações éticas sobre plágio e integridade.
3. Complexidade: o grau de dificuldade percebido para aprender a usar a IA de forma pedagogicamente adequada, sem suporte institucional.
4. Testabilidade: a possibilidade de experimentar a ferramenta antes de incorporá-la de forma consistente ao ensino, hoje restrita a iniciativas informais e individuais.
5. Observabilidade: a facilidade de visualizar resultados concretos do uso da IA em sala de aula, ainda rara diante da falta de diretrizes e exemplos institucionais.
Formação continuada como caminho metodológico
Para superar essa barreira, especialistas apontam que o caminho não passa por oferecer meros tutoriais de softwares ou oficinas isoladas de “como usar o ChatGPT”.
O que a educação exige são políticas públicas de formação continuada focadas em letramento digital e metodologia.
A saída passa por debater o uso ético, os limites das respostas automatizadas e o desenho de dinâmicas avaliativas que incorporem ferramentas de IA de forma transparente.
Se as licenciaturas não assumirem a liderança desse processo agora, professores continuarão tateando no escuro, e alunos se formarão em desvantagem em um mundo já moldado pela tecnologia.
Para os dados detalhados da pesquisa e a análise teórica sobre a difusão da IA na educação, veja a matéria publicada anteriormente no Science Arena.
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O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).
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