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Condição socioeconômica e estigma afetam reinserção de transplantados no mercado de trabalho
Estudo explica como fatores sociais e de saúde influenciam retorno de pessoas transplantadas às atividades profissionais
Estudo indica que, a depender da situação socioeconômica, uma pessoa transplantada pode encarar barreiras invisíveis impostas pelo estigma ao tentar voltar a trabalhar | Imagem gerada por IA
O transplante de órgãos possibilita a sobrevivência de muitas pessoas, mas o retorno ao trabalho não acompanha esse ganho: apenas 53,7% dos pacientes retomam alguma atividade profissional, com influência direta de renda, raça e histórico laboral.
O dado vem de um estudo transversal conduzido por pesquisadores da Escola Paulista de Enfermagem e da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado em outubro na revista Einstein.
De acordo com os autores, a probabilidade de um paciente retornar ao trabalho (RTW, na sigla em inglês) varia ao longo do tempo:
- Chega a 67,4% no primeiro ano após o transplante;
- Cai para 33,5% após dez anos do transplante.
As chances de reinserção são maiores entre pessoas com histórico de emprego anterior ao transplante, pertencentes às classes econômicas A e B, e receptores de rim.
Indivíduos transplantados com mais de 51 anos, negros, desempregados antes da cirurgia ou pertencentes às classes D e E apresentaram menores taxas de reintegração ao mercado de trabalho.
Foram avaliados 352 transplantados com idade média de 42 anos, todos cadastrados na Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTx), que reúne dados nacionais sobre transplantes. A coleta ocorreu entre julho e agosto de 2021, com exigência mínima de seis meses desde o procedimento.
“Esses achados sublinham a necessidade urgente de estratégias direcionadas para a redução do estigma, como campanhas de conscientização pública e acomodações no local de trabalho, que podem ser adaptadas a diversos contextos culturais e econômicos”, escreveram os autores.
Fatores que influenciam o retorno ao trabalho
O estudo incluiu indivíduos de todas as regiões do país, com predominância do Sudeste (64,1%). A maioria era mulher (56,1%), branca (56,5%) e casada ou em união estável (58,2%).
Quanto ao tipo de transplante, 62,2% receberam um rim, seguidos por fígado (19,6%), coração (4,5%), medula óssea (4,3%) e outros órgãos. Em termos de classe econômica, 46,6% estavam na classe C, 33,2% na B, 7,7% na A e 12,5% nas classes D e E.
A análise identificou cinco fatores fortemente associados ao retorno ao trabalho:
- Idade;
- Raça;
- Classe econômica;
- Tipo de transplante;
- Situação ocupacional anterior.
Pessoas com 51 anos ou mais foram 47% menos propensas a voltar ao trabalho do que aquelas com entre 31 e 40 anos.
Participantes negros apresentaram probabilidade 64% menor de retorno em comparação aos brancos. Indivíduos das classes A e B tiveram 2,5 e 2,4 vezes mais chances de retomar suas atividades profissionais em relação à classe C, respectivamente; já os das classes D e E tiveram 62% menos chance.
Receptores de medula óssea também enfrentaram maior dificuldade: 61% menos chance de retorno em relação aos receptores renais.
O histórico ocupacional se mostrou determinante: pessoas desempregadas antes da cirurgia foram 45% menos propensas a retornar ao trabalho, e aquelas que nunca haviam tido emprego formal apresentaram 87% menos chance de reinserção.
“Em consonância com a literatura, esses resultados destacam o papel crucial dos fatores socioeconômicos, incluindo o nível de escolaridade e o tipo de ocupação, na determinação do retorno ao trabalho”, escreveram os autores.

Estigma percebido e qualidade de vida
A pesquisa também avaliou o impacto do estigma e da qualidade de vida nos desfechos ocupacionais. Os autores definem estigma como a desvalorização de indivíduos com base em doenças, deficiências ou raça, com potencial de afetar perspectivas de emprego.
Na prática, o estigma pode se manifestar em situações como a dificuldade de ser contratado após mencionar o transplante ou receio de expor a condição de saúde no ambiente de trabalho.
A mensuração foi feita por meio de uma escala de cinco itens que avalia sensação de diferença, desconforto alheio, evitação, impacto nas relações sociais e medo associado à condição. Cada item foi avaliado em escala de sete pontos entre “concordo totalmente” e “discordo totalmente”, com reescalonamento final de 0 a 100.

Pessoas que voltaram ao trabalho relataram percepção de estigma mais baixa do que aquelas que permaneceram desempregadas — diferença média de 9,8 pontos.
Separados ou viúvos apresentaram níveis mais elevados que casados ou em união estável, e pacientes das classes D e E relataram mais estigma que aqueles das classes A e B.
A qualidade de vida foi medida pelo SF-36 (instrumento validado para avaliar qualidade de vida em populações clínicas), que cobre capacidade funcional, limitações físicas, dor, saúde geral, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental. Em todos os domínios, transplantados apresentaram índices inferiores aos da população geral brasileira.
“O estigma pode levar à vergonha, à autolimitação e à discriminação, o que prejudica diretamente tanto a qualidade de vida quanto o retorno ao trabalho”, apontaram os pesquisadores.
O estudo também identificou correlação estatisticamente significativa entre estigma e piora da qualidade de vida. O aumento de um ponto na percepção de estigma foi associado à redução em capacidade funcional (0,24), saúde geral (0,20), vitalidade (0,25), função social (0,37), saúde mental (0,33), limitação por aspectos físicos (0,40) e maior percepção de dor (0,23).
“Os efeitos negativos do estigma na qualidade de vida e no retorno ao trabalho são consistentes com estudos internacionais, mostrando que o estigma relacionado a doenças crônicas reduz a confiança, a autoestima e a integração social”, escreveram os pesquisadores.
Limitações e conclusões
Os autores apontaram limitações: o desenho transversal, baseado em observações em um único momento, sem acompanhar os participantes ao longo do tempo, não permite estabelecer relações de causa e efeito; a concentração de participantes no Sudeste reduz a generalização; e a falta de dados sobre comorbidades — como doenças cardiovasculares e transtornos mentais — pode influenciar os desfechos analisados.
A escala de estigma usada, embora com boas propriedades psicométricas, ainda não foi validada especificamente para a população transplantada.
Mesmo assim, os resultados reforçam a necessidade de estratégias públicas voltadas à reabilitação profissional, redução do estigma e enfrentamento das desigualdades estruturais que dificultam a plena reintegração de pacientes transplantados à vida social e econômica.
“Superar essas barreiras estruturais é essencial para otimizar os resultados a longo prazo e garantir que os receptores de transplantes se reintegrem plenamente às suas vidas profissionais”, dizem os autores
Políticas públicas voltadas à inclusão no trabalho e combate ao estigma podem transformar essa realidade, garantindo que o sucesso clínico do transplante também se traduza em qualidade de vida social e econômica.
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