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06.12.2023 meio ambiente

Ecos psicológicos da crise climática

Incêndios florestais e outros eventos extremos podem impactar cada vez mais a saúde mental das pessoas

Tragédias causadas pelas mudanças climáticas podem ter impactos importantes na saúde mental de pessoas afetadas por esses eventos, sugere pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia em San Diego | Foto: Shutterstock

Em novembro de 2018, um incêndio florestal inédito e devastador tirou a vida de 86 pessoas na cidade de Paradise, na Califórnia, Estados Unidos. Milhares de moradores foram afetados em níveis diferentes pela tragédia atribuída ao clima – o estado americano estava há cinco anos registrando períodos secos, o que derrubou a umidade das árvores, que queimaram em uma velocidade assustadora. Mais de 18 mil edificações acabaram destruídas. Apenas 5% dos imóveis da região ficaram intactos.

Além dos danos ambientais e materiais, a tragédia teve também impactos psicológicos, segundo estudo publicado neste ano por uma equipe da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD). Os resultados atestam como é importante que a ciência investigue também os traumas causados pela crise climática.

Vários modelos mostram que, em diferentes partes do mundo, eventos extremos, como chuvas intensas e longas estiagens, além de seus desdobramentos – caso dos recorrentes incêndios na Califórnia – estarão mais presentes no dia a dia das pessoas. E isso pode ter consequências sérias para a saúde mental dos cidadãos.

“O trauma psicológico de eventos climáticos em geral, mas principalmente os extremos, como incêndios florestais em larga escala, pode ter impactos de longo prazo no cérebro dos sobreviventes”, afirma a bioquímica Jyoti Mishra. Nascida em Nova Delhi, a cientista é diretora do Neural Engineering and Translation Labs (NEATLabs) em San Diego e uma das autoras do estudo que se debruçou sobre a saúde mental dos moradores de Paradise.

A maneira como os humanos experimentam e lidam mentalmente com as catástrofes climáticas prepara o cenário para nossas vidas futuras” – Jyoti Mishra, bioquímica, diretora do Neural Engineering and Translation Labs em San Diego.

Alterações cerebrais

Os resultados publicados na revista PLOS Climate mostram que o estresse climático gera alterações no funcionamento cognitivo do cérebro. Mediante eventos traumáticos, as pessoas perdem facilmente a concentração. Os eletroencefalogramas de 75 moradores de Paradise foram analisados.

A metodologia separou os participantes em três grupos de indivíduos:

Os segmentos foram bem pareados por idade e sexo, como mostra o artigo. O gênero e os anos de vida da amostragem não interferiram nas análises.      

Para avaliar os vários aspectos da cognição – além das gravações sincronizadas dos eletroencefalogramas para medir a função cerebral – os cientistas usaram uma plataforma específica voltada para o tema, chamada BrainE.

Uma série de medidas padrão foram obtidas a partir de testes de atenção seletiva, inibição de resposta impulsiva, memória de trabalho (capacidade de reter informações por um curto período de tempo) e de como o cérebro lida com interferências e distrações de ordem emocional ou não.

Os pesquisadores justificam essas escolhas com base na literatura científica. Várias pesquisas anteriores já demonstraram, de acordo com o artigo, que as medidas escolhidas são essenciais para avaliar as habilidades cognitivas humanas, além de ter significância no contexto de problemas de saúde mental relacionados a trauma, ansiedade e depressão.

“Observamos que ambos os grupos de pessoas expostas aos incêndios florestais, direta ou indiretamente, estavam lidando com as distrações [estímulos para desviar a concentração aferidos pela plataforma eletrônica] com menos precisão do que o grupo controle”, explica Mishra. As análises também mostraram diferenças cerebrais subjacentes ao processo cognitivo classificado como alterado.

As pessoas expostas aos incêndios na Califórnia tiveram maior atividade do lobo frontal enquanto eram afetadas pelas distrações. Como essa região é considerada o centro das funções mais complexas do cérebro, os cientistas suspeitam que a atividade cerebral frontal poderá servir como uma espécie de marcador de esforço cognitivo.

O que os dados sugerem, segundo Mishra, é que as pessoas expostas aos incêndios podem ter mais dificuldade em controlar as distrações e, então, acabam compensando essa alteração fazendo mais esforço cerebral. A hipótese de que pessoas afetadas por estresse climático tendem a ter mais dificuldade de concentração e, por isso, cansam mais o cérebro ainda precisa ser bem mais investigada, afirmam os pesquisadores.

Essa é a segunda pesquisa feita pelo grupo de San Diego. No primeiro estudo, sobre os incêndios florestais ocorridos no outono de 2018 nos Estados Unidos, sintomas crônicos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade e depressão foram altamente prevalentes nas comunidades afetadas, após mais de seis meses dos eventos.

A amostra total analisada na época era formada por 725 participantes. Desse total, 75 entraram na segunda rodada de avaliações, feitas todas naquela época, entre seis meses e um ano dos incêndios.

O nível de estresse detectado na primeira análise, segundo os cientistas, foi gradual. Pessoas que tiveram suas casas ou famílias afetadas diretamente pelo incêndio apresentaram maiores danos à saúde mental do que aquelas afetadas indiretamente, ou seja, pessoas que testemunharam o evento em sua comunidade, mas não sofreram perdas pessoais.      

Saúde mental e mudanças climáticas

Segundo Mishra, a “avenida” científica que se abre agora é gigantesca. Como as mudanças climáticas vão ocasionar cada vez mais desastres, avalia a pesquisadora indiana radicada nos Estados Unidos, passa a ser “incrivelmente importante” entender os impactos de todo esse processo na saúde humana, incluindo a questão mental.

Enquanto as pesquisas avançam, existem pistas confiáveis que mostram como as pessoas podem criar estratégias eficientes contra o impacto negativo das tragédias climáticas na saúde mental. Dormir bem e ter uma vida saudável que inclua a prática de exercícios físicos é um dos portos seguros em que todos deveriam atracar, dizem os cientistas.

Outros dois caminhos também são igualmente importantes. O estreitamento de laços sociais com amigos e parentes, além da prática de treinamentos específicos voltados para atenção ao momento presente e abstração de julgamentos.

Por exemplo, fazer yoga de forma regular e duradoura (uma atividade corpo-mente que requer atenção) se enquadra nesta definição. Isso é demonstrado por diversos outros estudos feitos no exterior e no Brasil, como os conduzidos por Elisa Harumi Kozasa, pesquisadora do Hospital Israelita Albert Einstein.

Leia também:

Harnessing the mental imprints of climate change for collective climate action, por Jyoti Mishra e Veerabhadran Ramanathan.

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