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Guia espanhol orienta comunicação sobre integridade científica
Fundação espanhola defende transparência sobre erros e processos de autocorreção para construir visão realista da ciência
Guia da Fundação Espanhola para a Ciência e Tecnologia (FECYT) defende comunicação transparente sobre processos científicos, incluindo erros e mecanismos de autocorreção, para construir visão mais realista da ciência e reduzir interpretações simplistas | Imagem gerada por IA
A comunicação sobre integridade em pesquisa deve ir além da apresentação de resultados científicos e incluir também os processos que os tornam possíveis. É essencial mostrar que a ciência produz conhecimento provisório e revisável, e que a incerteza não é uma fraqueza, mas uma etapa natural no avanço do conhecimento.
Essas e outras recomendações estão reunidas em um guia publicado em dezembro passado pela Unidade para o Avanço da Comunicação Científica da Fundação Espanhola para a Ciência e Tecnologia (FECYT).
O documento traz orientações para jornalistas, pesquisadores, comunicadores e instituições sobre como comunicar integridade científica de forma clara, responsável e eficaz.
Desenvolvido no âmbito do projeto “Ciência da Comunicação Científica”, o guia destaca que as principais fortalezas da ciência, como a autocrítica e a autocorreção, são raramente comunicadas ao público.
O foco da divulgação científica costuma recair nos resultados de pesquisas, enquanto os processos que lhes conferem legitimidade ficam em segundo plano.
Ao mesmo tempo, segundo a FECYT, a comunicação sobre ética quase sempre ocorre em contextos negativos — ligados a crises e casos de má conduta —, frequentemente instrumentalizados por movimentos anticientíficos para desacreditar a ciência.
Nesse sentido, uma das recomendações é evitar narrativas que apresentem a pesquisa como um caminho linear, de resultados previsíveis e inevitáveis.
A fundação espanhola também enfatiza a importância de explicar por que algumas pesquisas não alcançam os resultados esperados e como isso, longe de ser um fracasso, contribui para o aprendizado coletivo e refinamento de hipóteses.
Outras recomendações do guia da FECYT incluem:
- Contextualizar retratações e suas diferentes motivações;
- Diferenciar claramente fraudes deliberadas e erros honestos;
- Apresentar incertezas como etapas naturais do conhecimento.
“Ao mostrar que erros, revisões e ajustes fazem parte do processo científico, a comunicação ajuda a construir uma visão mais realista da ciência, reduzindo o risco de interpretações simplistas que possam ser usadas para desacreditá-la”, escrevem os autores do guia publicado pela Fundação Espanhola para a Ciência e Tecnologia.
A transparência é outro elemento central: não apenas sobre eventuais problemas, mas também sobre as medidas adotadas para enfrentá-los, tanto em nível individual quanto institucional e sistêmico.
Explicar e contextualizar práticas de controle e autocorreção — como revisão por pares, retratações e testes de reprodutibilidade — ajuda a demonstrar como esses mecanismos protegem a confiabilidade do conhecimento científico.
O termo ‘retratação‘, por exemplo, costuma ser usado tanto para a retirada voluntária de um artigo pelos autores após a descoberta de um erro não intencional, quanto para a despublicação de um artigo quando uma investigação identifica má conduta científica.
Esclarecer e contextualizar essas diferenças ao comunicar uma retratação é fundamental, pois o uso indistinto do mesmo termo pode gerar confusão e desencorajar autores honestos a corrigirem erros não intencionais
Outros termos recorrentemente usados de forma indistinta, ou até mesmo de maneira contraditória entre diferentes disciplinas e instituições científicas, são “reprodutibilidade” e “replicabilidade”.
O primeiro se refere à capacidade de obter resultados consistentes com um estudo anterior utilizando os mesmos dados e métodos; o segundo – replicabilidade – consiste em obter resultados idênticos ou compatíveis empregando dados, ou métodos novos.
Essas distinções são importantes, pois as expectativas em torno da replicabilidade são mais complexas e, em alguns casos, a falta de replicabilidade pode inclusive favorecer o processo de descoberta científica.
Fraude versus erro honesto
O guia da FECYT destaca ainda a importância de diferenciar fraude de erro honesto, esclarecendo como cada situação é tratada de maneira distinta e por que essa distinção é fundamental para preservar a integridade e a credibilidade da ciência.
Enquadrar erros ou falhas científicas — como retratações, enganos ou casos de irreprodutibilidade — como parte do processo de autocorreção ajuda a fortalecer a confiança e a compreensão pública, ressalta a FECYT.
Apresentá-los como ‘crise’ da ciência ou de todo um campo do conhecimento amplia a desconfiança, o sensacionalismo e a politização.
Os autores do documento reconhecem que a comunicação honesta sobre aspectos problemáticos da prática científica pode gerar desconfiança no curto prazo.
No entanto, defendem que a transparência é fundamental para prevenir desinformação, estimular melhorias no sistema científico e promover uma compreensão mais precisa de como o conhecimento avança — não como um processo infalível, mas fortalecido por crítica, revisão e correção.
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