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23.07.2026 Publicações

IA impulsiona submissões de artigos e sobrecarrega revisão por pares

Análise de quase 7 mil manuscritos identifica aumento de 42% nas submissões e associa uso intensivo de inteligência artificial à piora da escrita científica

Tela de notebook em ambiente escuro exibe interface de chatbot de inteligência artificial com a pergunta "What can I help with?" e opções de busca, raciocínio e criação de imagem. Teclado retroiluminado em primeiro plano, sobre mesa de madeira com reflexos de luz azulada Ferramentas de inteligência artificial têm ampliado o volume de manuscritos submetidos a periódicos, mas também aumentado a pressão sobre editores e revisores | Imagem: Unsplash

Modelos de linguagem baseados em inteligência artificial (IA), combinados às fortes pressões do produtivismo acadêmico, estão fazendo com que pesquisadores produzam mais artigos científicos, mas não necessariamente pesquisas de melhor qualidade

Como consequência, as operações editoriais de periódicos científicos estão cada vez mais sobrecarregadas pelo crescimento de submissões de baixa qualidade produzidas com auxílio de ferramentas de IA, afetando tanto editores quanto revisores, em geral voluntários.

A conclusão é de um estudo publicado em abril na revista científica Organization Science, no qual pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa dos Estados Unidos analisaram como as atividades de submissão e revisão por pares da própria publicação mudaram a partir de 2022, com o lançamento do ChatGPT, primeiro chatbot comercial baseado em LLM (modelo de linguagem de grande escala) a alcançar ampla popularidade.

Os autores examinaram 6.957 submissões de manuscritos e 10.389 pareceres inseridos diretamente no sistema editorial da revista entre janeiro de 2021 e fevereiro de 2026, abrangendo, assim, os períodos anterior e posterior ao lançamento do ChatGPT. 

Os dois primeiros anos da série histórica foram utilizados como uma espécie de “período de controle”, permitindo-lhes comparar os padrões de escrita antes da disseminação das ferramentas de IA generativa.

No caso dos manuscritos, a análise concentrou-se principalmente nos resumos dos artigos, embora os pesquisadores também tenham recorrido ao texto integral de parte das submissões para verificar se o uso de inteligência artificial identificado nos resumos refletia adequadamente sua presença no restante dos textos.

Índice de assistência por IA

Para essa análise, utilizaram o Pangram, ferramenta amplamente empregada e validada para detectar conteúdos gerados por IA. 

O sistema adota um mecanismo estatístico que reduz significativamente o risco de falsos positivos, isto é, de textos escritos por humanos serem classificados equivocadamente como produzidos por inteligência artificial. 

O modelo gera ainda um “índice de assistência por IA”, em escala contínua de 0 a 1, que estima o grau de presença de inteligência artificial no texto analisado

Valores próximos de 0 indicam conteúdos predominantemente escritos por humanos, enquanto pontuações próximas de 1 sugerem textos amplamente produzidos com auxílio de IA.

Resultados são preocupantes

Segundo os pesquisadores, o volume de submissões na Organization Science aumentou 42% desde novembro de 2022, quando o ChatGPT foi lançado. Ao mesmo tempo, a qualidade da escrita dos manuscritos caiu. 

Utilizando o índice Flesch Reading Ease, empregado para avaliar legibilidade dos textos, os autores identificaram redução de 1,28 desvio-padrão na qualidade dos textos submetidos em janeiro de 2026 em comparação com aqueles enviados em janeiro de 2021.

A qualidade dos pareceres também se deteriorou de forma acentuada após o lançamento do ChatGPT, impulsionada pelo aumento de revisões produzidas majoritariamente com auxílio de ferramentas de IA generativa. 

Além de apresentarem pior qualidade textual, esses pareceres tendem a ser mais restritos em escopo, concentrando-se mais em discussões teóricas e menos na análise de dados e evidências empíricas.

Em síntese, mais pesquisas estão sendo submetidas ao periódico, mas acompanhadas por um aumento da produção textual automatizada de baixa qualidade

“Muitos defendem que as ferramentas de IA aprimoram a escrita acadêmica, mas nossos resultados indicam o contrário: o uso dessa tecnologia estaria associado à deterioração da qualidade textual tanto dos manuscritos quanto dos pareceres de revisão”, escreveram os autores da pesquisa.

Sistema editorial sobrecarregado

Eles acrescentam que os padrões observados na Organization Science provavelmente estão disseminados por outros campos científicos. 

“A IA entrou com força na academia”, afirmam os autores. “Essa tendência impõe pressão adicional a um sistema editorial que já operava sob forte sobrecarga antes mesmo do lançamento do ChatGPT.”

Segundo os autores, o aumento contínuo do número de submissões já vinha sendo impulsionado por mecanismos de incentivo altamente competitivos no meio acadêmico, como critérios de progressão na carreira baseados no volume de publicações e bônus financeiros vinculados à produtividade científica.

“Quando os incentivos institucionais priorizam a quantidade de publicações em vez de pesquisa rigorosa, a IA tende a ser usada para ampliar o volume de produção, e não para cumprir seu potencial como ferramenta de apoio à pesquisa”, escreveram os autores.

“Como editores que atuam na linha de frente para evitar que revisores sejam inundados por submissões de baixa qualidade produzidas com auxílio de IA, consideramos o sistema atual insustentável.”

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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