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	<title>#psiquiatria | Artigos, Pesquisas e Estudos - Science Arena</title>
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	<description>Science Arena - Ciências da saúde &#124; Para quem vê o mundo através da ciência</description>
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	<title>#psiquiatria | Artigos, Pesquisas e Estudos - Science Arena</title>
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		<title>&#8220;Trabalho em equipe é primordial para ser cientista”, diz brasileiro premiado por estudo sobre TOC</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jan 2026 16:20:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Panorama]]></category>
		<category><![CDATA[#carreira acadêmica]]></category>
		<category><![CDATA[#colaboração]]></category>
		<category><![CDATA[#premiação]]></category>
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		<category><![CDATA[#TOC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Médico, Leonardo Saraiva defende integração entre pesquisa e prática clínica e celebra o espírito colaborativo da ciência</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando <strong>Leonardo Cardoso Saraiva</strong>, de 30 anos, estava no sexto ano da faculdade de medicina, em 2019, seus colegas se preparavam para prestar a prova de residência e escolher suas especialidades, mas ele pensava em <strong>trilhar um caminho diferente</strong>.</p>



<p>Desde o ano anterior, entre o internato e os plantões, ele mantinha contato com o psiquiatra <strong>Euripedes Constantino Miguel</strong>, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), e com a geneticista Carolina Cappi, professora da Rutgers University, para participar de pesquisas sobre <strong>transtorno obsessivo-compulsivo</strong>, o <strong>TOC</strong>.</p>



<p>Em 2025, o médico recebeu o prêmio <a href="https://iocdf.org/blog/2025/07/24/international-ocd-foundation-announces-2025-research-grant-recipients-to-advance-breakthroughs-in-ocd-and-related-disorders/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Michael A. Jenike Young Investigator</a>, concedido pela <a href="https://iocdf.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">International OCD Foundations</a> (IOCDF), uma das maiores organizações do mundo dedicada ao TOC.</p>



<p>Saraiva foi agraciado por seu estudo em busca das <strong>bases biológicas do transtorno</strong>. Em sua investigação, o brasileiro usa exames de neuroimagem, como a <strong>ressonância magnética</strong>, para encontrar formas mais eficazes de diagnosticar o TOC e, quem sabe, outras doenças psiquiátricas.</p>



<p>A pesquisa laureada, <a href="https://iocdf.org/recipients/comprehensive-structural-neuroimaging-in-ocd-a-cross-disorder-comparison/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Comprehensive structural neuroimaging in OCD: A cross-disorder comparison</a>, busca ir além das análises convencionais de neuroimagem.</p>



<p>Enquanto estudos anteriores focaram em alterações de volume e espessura em regiões cerebrais de pacientes com TOC, Saraiva investiga aspectos ainda pouco conhecidos, como os padrões de dobramento do córtex cerebral, além do formato de estruturas subcorticais. Também explora as bases genéticas associadas a essas possíveis alterações cerebrais.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>A pesquisa faz parte de seu trabalho na <strong>Universidade Yale</strong>, nos Estados Unidos, instituição onde ele é pesquisador de pós-doutorado.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Bases biológicas do TOC e uso de neuroimagem</strong></h2>



<p>“Em outras áreas da medicina, há biomarcadores importantes para ajudar a fechar um diagnóstico, mas na psiquiatria você identifica um transtorno por meio de <strong>sintomas</strong> determinados em consenso por um grupo de especialistas”, explica Saraiva.</p>



<p>“Ninguém sabe quais seriam as <strong>bases biológicas </strong>dos transtornos, é tudo feito por convenções. Acredito que isso seja uma limitação”, afirma o pesquisador.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Diagnóstico, tecnologia e tratamentos</strong></h2>



<p>Em suas pesquisas, Saraiva usa exames de ressonância magnética, pois é o que a maioria dos centros de saúde tem disponível. Dessa forma, o pesquisador consegue ter uma <strong>amostra grande para investigar</strong>.</p>



<p>No dia a dia, boa parte de sua rotina consiste em trabalhar na frente do computador desvendando os “mistérios” do cérebro de pacientes.</p>



<p>Existem vários métodos que podem ser usados para estudar o cérebro e os transtornos psiquiátricos, diz Saraiva. Seu foco e interesse estão nos métodos que envolve o uso de supercomputadores.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="800" height="420" src="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2026/01/leonardo-saraiva-pesquisador.jpeg" alt="Retrato de Leonardo Saraiva, um jovem homem com barba curta, cabelos curtos e camisa social azul, posando para a câmera com fundo neutro" class="wp-image-7657" srcset="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2026/01/leonardo-saraiva-pesquisador.jpeg 800w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2026/01/leonardo-saraiva-pesquisador-400x210.jpeg 400w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2026/01/leonardo-saraiva-pesquisador-768x403.jpeg 768w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2026/01/leonardo-saraiva-pesquisador-150x79.jpeg 150w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption class="wp-element-caption">Leonardo Saraiva, médico e pesquisador em estágio de pós-doutorado na Universidade Yale, nos EUA, foi premiado pela International OCD Foundation por seu estudo sobre as bases genéticas do transtorno obsessivo-compulsivo | Imagem: Arquivo Pessoal</figcaption></figure>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“Meu trabalho consiste em ‘rodar’ análises e códigos em um tipo de cluster, onde ficam vários computadores potentes. Participo de reuniões para mostrar resultados e discutir projetos. É uma rotina muito diferente da imagem que se tem de um médico.”</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Aproximação com o público e responsabilidade científica</strong></h2>



<p>Desde sua premiação, Saraiva tem se importado cada vez mais com a divulgação de seu trabalho como cientista.</p>



<p>“Me veio à tona que isso deveria ser uma preocupação mais forte entre os pesquisadores e que eu preciso buscar isso constantemente.”</p>



<p>Para ele, a falta de compreensão sobre alguns temas de pesquisa contribui para afastar investimentos em projetos de pesquisa.</p>



<p>“Nós, pesquisadores, podemos ficar muito isolados da população, então nem todos entendem o benefício da ciência e os motivos de a pesquisa necessitar de investimento público e privado”, avalia Saraiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Pesquisa como prática médica ampliada</strong></h2>



<p>A decisão de seguir carreira como pesquisador foi inicialmente encarada com estranhamento entre seus colegas médicos, observa Saraiva. “No Brasil ainda se tem uma ideia da medicina como uma profissão assistencialista”, analisa.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“A prática assistencial, porém, é só uma das facetas da medicina. Existem várias formas de ajudar pacientes – e fazer pesquisa é uma delas. Por isso, a carreira científica deveria ser mais estimulada no país”, afirma Saraiva.</p></blockquote></figure>



<p>De acordo com ele, a área científica, no fundo, dialoga muito com o campo assistencial, “afinal são duas esferas de atuação que precisam estar integradas.” Isso porque, ressalta Saraiva, os avanços da ciência devem embasar decisões em consultórios, clínicas e hospitais.</p>



<p>Na faculdade, seu primeiro contato com a pesquisa foi tão marcante que Saraiva decidiu não pleitear uma vaga na residência médica. O intuito, ele recorda, era abrir caminho no mundo acadêmico logo no início da carreira.</p>



<p>Ainda assim, Saraiva fez estágios clínicos, deu plantões e participou de atividades ambulatoriais no Instituto de Psiquiatria. “Foi uma ótima experiência, aprendi muito na parte clínica e levei muito disso para a pesquisa.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Admiração como ponto de partida</strong></h2>



<p>Mesmo não sendo formalmente um psiquiatra, por não ter feito a residência médica na área, o interesse pela pesquisa sobre o TOC começou por conta da admiração de Saraiva pelo psiquiatra Eurípedes Miguel.</p>



<p>“Acho que trabalharia com qualquer transtorno que ele trabalhasse, para ser muito franco”, confessa o médico, que também é membro do projeto Gen_TOC, sediado na USP e liderado por Miguel e pela geneticista Carolina Cappi. O projeto é focado em estudos sobre a genética do TOC e de transtornos relacionados.</p>



<p>“Com o tempo, passei a achar o assunto muito interessante e fascinante”, diz Saraiva, que cursou o doutorado na área e é entusiasta de formações como o MD-PhD, programa de dupla formação voltado para médicos-cientistas, no qual o estudante obtém simultaneamente o título de Médico (MD, Doctor of Medicine) e de Doutor (PhD, Doctor of Philosophy), disponível nos EUA, mas ainda incipiente no Brasil. Esse título permite uma dupla formação para médicos na parte clínica e de pesquisa.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ciência não é solitária</strong></h2>



<p>Sem planos de atuar em consultório, o pesquisador se diz atraído pelo espírito colaborativo proporcionado pelo trabalho em equipe no meio científico. “Atuar em grupos de pesquisa é parte importante da minha trajetória.Sou mais produtivo em equipe do que sozinho”, declara.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“Saber interagir é crucial”, diz Saraiva. “Na ciência, se a pessoa não tem disposição para dialogar e trocar ideias, as chances de ‘sobreviver’ diminuem. É preciso saber trabalhar em grupo.”</p></blockquote></figure>



<p>Sobre sua premiação recente, ele lista uma série de pessoas de quem recebeu ajuda, como os professores Eurípides Miguel e Carolina Capi, que foram seus orientadores no doutorado, e o professor Christopher Pittenger, que o orienta em Yale.</p>



<p>“Tive sorte de trabalhar com pessoas muito conscientes dessa importância da troca e da união de esforços na ciência”, observa.</p>
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		<title>Genética psiquiátrica: estudos ignoram América Latina e ampliam desigualdades </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Sep 2025 15:17:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[#América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[#diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[#genética]]></category>
		<category><![CDATA[#psiquiatria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Falta de diversidade étnica em pesquisas pode privar populações miscigenadas de diagnósticos e tratamentos mais precisos </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um<a href="https://mcas-proxyweb.mcas.ms/certificate-checker?login=false&amp;originalUrl=https%3A%2F%2Fwww.nature.com.mcas.ms%2Farticles%2Fs41588-025-02127-z%3FMcasTsid%3D15600%23author-information&amp;McasCSRF=370c7c957e795d41776015cec4c543b9f6410b7879a965751dac9d1f0769c888" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> estudo publicado na revista <em>Nature Genetics</em></a> revelou que 85% dos participantes de pesquisas em <strong>genética psiquiátrica</strong> têm <strong>ancestralidade europeia</strong>. A <strong>baixa representatividade de populações miscigenadas</strong>, como as latino-americanas, pode impedir o acesso a novas ferramentas de diagnóstico e tratamento no campo da <strong>psiquiatria de precisão</strong>.&nbsp;</p>



<p>“Esse desequilíbrio na diversidade ancestral das amostras incluídas nesses estudos pode limitar nosso entendimento da genética psiquiátrica humana e criar novas desigualdades na saúde”, alerta Diego Rovaris, geneticista da Universidade de São Paulo (USP) e primeiro autor do estudo.</p>



<p>Ao <strong>Science Arena</strong>, Rovaris explica que a complexidade genética das populações da América Latina e a falta de financiamento para pesquisas na região são fatores que dificultam sua inclusão. O genoma latino-americano é resultado da mistura entre diferentes origens populacionais, o que exige abordagens específicas, muitas delas ainda em desenvolvimento, e maior investimento científico.</p>



<p>“É fundamental aumentar a diversidade das amostras em estudos psiquiátricos”, afirma a geneticista Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que não participou do estudo. “Esse trabalho deve chamar atenção de autoridades e órgãos financiadores.”&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading">A base genética dos transtornos psiquiátricos&nbsp;</h2>



<p>Para entender a base genética dos transtornos psiquiátricos, os cientistas utilizam a metodologia<a href="https://mcas-proxyweb.mcas.ms/certificate-checker?login=false&amp;originalUrl=https%3A%2F%2Fwww.genome.gov.mcas.ms%2Fgenetics-glossary%2FGenome-Wide-Association-Studies-GWAS%3FMcasTsid%3D15600&amp;McasCSRF=370c7c957e795d41776015cec4c543b9f6410b7879a965751dac9d1f0769c888" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> GWAS</a> (Estudo de Associação Genômica Ampla).&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O método compara o genoma de pessoas com e sem determinados transtornos, buscando variantes associadas ao risco de desenvolvimento da doença.&nbsp;</p>



<p>Um estudo recente sobre depressão analisou 5 milhões de participantes, incluindo miscigenados, e identificou dezenas de variantes genéticas relevantes. As variantes de risco são mutações que, isoladamente, têm efeito pequeno, mas, em conjunto, podem influenciar o surgimento de transtornos.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“Os genes afetados interagem entre si, e seu impacto depende da composição genética do indivíduo”, explica Bortolini, da UFRGS. “Uma variante pode representar risco numa população europeia, mas não entre latino-americanos.”&nbsp;</p></blockquote></figure>



<p>Com base nas variantes identificadas, os pesquisadores investigam as vias biológicas associadas, como a produção de dopamina, neurotransmissor relacionado à atenção e ao controle de impulsos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Em um GWAS de TDAH, identificamos 76 genes de risco, que atuam, principalmente, em neurônios que se comunicam por meio de dopamina em regiões do cérebro importantes para a atenção,” destaca Rovaris.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Terapias mais eficazes e diversificação de amostras&nbsp;</h2>



<p>Uma das ferramentas que está sendo aperfeiçoada é o Escore de Risco Poligênico (PRS, na sigla em inglês), que mede a <strong>predisposição genética a um transtorno a partir da análise das variantes no DNA</strong>. “Quem já nasce com muitas variantes associadas a um transtorno tende a ter um risco aumentado para desenvolver esse transtorno ao longo da vida, assim como um pior prognóstico”, observa Rovaris.</p>



<p>A aplicação do ERP em aconselhamento genético pode ajudar na prevenção e escolha de terapias mais eficazes. No entanto, é fundamental que o escore seja calibrado com dados da população local.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Não adianta usar um ERP feito na Europa ou nos EUA para a população brasileira”, ressalta Rovaris.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Para ampliar a diversidade nos estudos, foi criado o <strong>Consórcio de Genômica Latino-Americano</strong>, reunindo mais de cem geneticistas de diversos países da região. A iniciativa busca facilitar a formação de equipes, captar recursos e capacitar pesquisadores.&nbsp;</p></blockquote></figure>



<p>“Esse artigo serve como um guia para a diversificação das amostras”, observa Bortolini.&nbsp;</p>



<p>O consórcio também atua na ampliação dos bancos de dados regionais, para engajar mais participantes e fortalecer a representatividade das populações latino-americanas na ciência psiquiátrica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Nosso objetivo é promover a colaboração científica na América Latina e expandir os bancos de dados com amostras representativas da região e tornar a psiquiatria de precisão uma realidade para todos, independentemente de grupo étnico e nível socioeconômico”, conclui Rovaris.</p>
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		<title>Psiquiatria e imunologia para decifrar psicoses</title>
		<link>https://www.sciencearena.org/carreiras/imunologia-psiquiatria-fabiana-corsi-zuelli-premio-usern/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jan 2025 16:35:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Panorama]]></category>
		<category><![CDATA[#enfermagem]]></category>
		<category><![CDATA[#esquizofrenia]]></category>
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		<category><![CDATA[#Transtornos Mentais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Prestes a iniciar um pós-doc no Reino Unido, Fabiana Corsi Zuelli recebeu<br />
prêmio global para jovens cientistas por seus estudos sobre mecanismos imunológicos<br />
em transtornos mentais</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde criança, a pesquisadora <a href="https://bv.fapesp.br/pt/pesquisador/670668/fabiana-maria-das-gracas-corsi-zuelli/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Fabiana Corsi Zuelli</strong></a>, 34, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), acompanhava o pai biomédico, Edison Zuelli, nos laboratórios.&nbsp; A curiosidade que a guiou para o mundo da ciência contribuiu para que, agora, ela se tornasse a <strong>primeira brasileira a receber o </strong><a href="https://usern.org/prize" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>USERN Prize</strong></a>, prêmio internacional concedido pela Rede Universal de Educação Científica e Pesquisa (<a href="https://usern.org" target="_blank" rel="noreferrer noopener">USERN</a>, da sigla em inglês).</p>



<p>O reconhecimento é decidido por um conselho composto por mais de <strong>600 cientistas de todo o mundo</strong>, incluindo ganhadores dos prêmios Nobel e Abel.</p>



<p>A honraria, concedida a <strong>cientistas em início de carreira</strong>, foi atribuída a Fabiana Corsi Zuelli pelos seus estudos sobre a relação entre <strong>alterações inflamatórias</strong> e <strong>fatores ambientais</strong> no desenvolvimento do primeiro <strong>episódio psicótico</strong>.</p>



<p>Zuelli construiu sua <strong>trajetória acadêmica</strong> inteiramente na rede pública. “Enfrentei as barreiras da escassez de recursos físicos e pessoais, mas com a vontade de ter um ensino superior público de qualidade.”</p>



<p>Em 2009, foi aprovada no vestibular para cursar a graduação na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. Logo no primeiro ano, conseguiu uma bolsa de iniciação científica financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).</p>



<p>Zuelli também participou do Ciência sem Fronteiras – programa do governo brasileiro, que vigorou entre 2011 e 2017, a fim de apoiar o <strong>intercâmbio de universitários brasileiros </strong>no exterior. Zuelli passou uma temporada no Reino Unido, onde participou de pesquisas sobre o impacto do estresse no desenvolvimento de transtornos mentais.</p>



<p>A passagem pelo Reino Unido, ainda na graduação, ajudou a <strong>ampliar os horizontes de Zuelli na pesquisa</strong>. Também sedimentou o caminho da brasileira no exterior ao longo da pós-graduação stricto sensu na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.</p>



<p>No mestrado em neurociências, concluído em 2019, a enfermeira passou um <strong>período “sanduíche”</strong> no King&#8217;s College London. Em seguida, engatou um doutorado (também em neurociências) com bolsa sanduíche na Universidade de Birmingham, no Reino Unido. A tese foi defendida em 2024 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).</p>



<p>Em suas pesquisas, Zuelli busca <strong>integrar duas áreas das ciências da saúde</strong>: a psiquiatria e a imunologia. A motivação, diz ela, veio de uma experiência pessoal.</p>



<p>“Minha tia, já falecida, havia sido diagnosticada com esquizofrenia. Convivi diariamente com o sofrimento gerado por este transtorno debilitante, que também impacta a vida de quem cuida dos pacientes. No caso da minha tia, a ajuda era dada pela minha mãe”, conta Zuelli.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“Eu queria ajudar, de alguma forma, a melhorar a qualidade de vida de pessoas com transtornos mentais, como a esquizofrenia. Minha contribuição se dá por meio da pesquisa científica.”</p></blockquote></figure>



<p>Durante quase dez anos, Zuelli se dedicou a uma pesquisa que investigava alterações imunológicas e fatores ambientais no desenvolvimento das psicoses. </p>



<p>A iniciativa fez parte de um projeto temático (com apoio de FAPESP, CNPq e Center for Research in Inflammatory Diseases) e integrava um consórcio internacional conhecido como <em>European Network of National Networks studying Gene-Environment Interactions in Schizophrenia</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-black-color">Inflamação e comportamento</mark></strong></h2>



<p>Em suas investigações em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Zuelli e a equipe da pesquisa identificaram 588 casos de psicose entre 2012 e 2015. Cerca de 166 participantes concordaram em ceder amostras de sangue para serem analisadas.</p>



<p>“Observamos que pacientes&nbsp;no primeiro episódio psicótico&nbsp;apresentaram maiores concentrações de proteínas inflamatórias, como citocinas, no sangue, quando comparados aos demais indivíduos da comunidade”, explica Zuelli. </p>



<p>A pesquisa ainda sugere que pessoas que sofreram maus-tratos na infância podem ser mais suscetíveis a essas alterações inflamatórias. “Indivíduos que passaram por traumas na infância eram mais propensos a desenvolver enfermidades com causas inflamatórias.”</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img decoding="async" width="1200" height="800" src="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-1200x800.jpg" alt="No doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, com período sanduíche no Reino Unido, a enfermeira Fabiana Corsi Zuelli investigou mediadores inflamatórios em fases que antecedem a psicose: “A identificação de marcadores inflamatórios pode abrir caminhos para tratamentos personalizados” | Imagem: Joel Silva" class="wp-image-5417" style="width:767px;height:auto" srcset="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-1200x800.jpg 1200w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-800x533.jpg 800w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-400x267.jpg 400w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-768x512.jpg 768w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-1536x1024.jpg 1536w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-2048x1365.jpg 2048w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2025/01/Fabiana-Corsi-Tese-150x100.jpg 150w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /><figcaption class="wp-element-caption">No doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, com período sanduíche no Reino Unido, a enfermeira Fabiana Corsi Zuelli investigou mediadores inflamatórios em fases que antecedem a psicose: “A identificação de marcadores inflamatórios pode abrir caminhos para tratamentos personalizados” | Imagem: Joel Silva</figcaption></figure>



<p>De acordo com Zuelli, indivíduos com alterações inflamatórias também demonstraram maior vulnerabilidade aos efeitos negativos do consumo diário da planta <em>Cannabis sativa</em>, a maconha.</p>



<p>“O estado inflamatório detectado em alguns desses indivíduos estava associado com a exacerbação dos sintomas da doença, e com redução de estruturas do cérebro que estão envolvidas nos processos sociais e cognitivos&#8221;,&nbsp;esclarece Zuelli.</p>



<p>Um dos méritos da pesquisa, ressalta Zuelli, é seu caráter interdisciplinar. “Por muito tempo, os transtornos mentais foram considerados ‘problemas’ exclusivos do cérebro”, diz. </p>



<p>“Hoje, porém, sabemos que há uma interligação importante entre o cérebro e o restante do corpo, e os nossos resultados fundamentam essa perspectiva ao mostrar que alterações orgânicas – a inflamação detectada no sangue – podem influenciar o comportamento.”</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Zuelli enfatiza que aproximadamente 30% dos pacientes diagnosticados com psicose não respondem às terapias convencionais com antipsicóticos.</p></blockquote></figure>



<p>A identificação de possíveis marcadores inflamatórios, diz Zuelli, pode abrir caminhos para tratamentos mais personalizados.</p>



<p>No doutorado-sanduíche na Inglaterra, ela participou do primeiro ensaio clínico que está testando a terapia adjuvante de antipsicóticos com um fármaco que modula a atividade do sistema imunológico, especificamente em pacientes com psicose que apresentem alterações inflamatórias no sangue. </p>



<p>“Esse é um excelente exemplo de medicina de precisão, em que a terapia é direcionada de acordo com as características biológicas do indivíduo.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-black-color">Reconhecimento internacional</mark></strong></h2>



<p>A trajetória de Zuelli é marcada por diversas premiações internacionais, entre elas o reconhecimento de entidades como a <a href="https://schizophreniaresearchsociety.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Schizophrenia International Research Society</a> e a <a href="https://wfsbp.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">World Federation of Societies of Biological Psychiatry</a>.</p>



<p>No final de janeiro, a enfermeira embarca para a Universidade de Oxford, no Reino Unido, onde iniciará uma pesquisa de pós-doutorado.</p>



<p>“Darei continuidade à investigação sobre mecanismos relacionados às alterações inflamatórias e metabólicas causadas por transtornos mentais, para o delineamento de novos ensaios clínicos estratificados”, conta Zuelli.</p>



<p>&#8220;Acredito que, nos próximos anos, a chamada ‘imunopsiquiatria’ deve avançar para intervenções cada vez mais personalizadas, ajustadas às características individuais, promovendo tratamentos mais eficazes e alinhados às necessidades específicas de cada paciente.&#8221;<span style="font-size: medium; white-space-collapse: collapse;"></span></p>
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		<item>
		<title>Transtorno de personalidade borderline: detecção precoce e tratamentos adequados são fundamentais para abordagem eficaz </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Caio Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Oct 2024 13:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[#psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[#psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[#TPB]]></category>
		<category><![CDATA[#transtorno de personalidade borderline]]></category>
		<category><![CDATA[#Transtornos Mentais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conhecimento apurado sobre o quadro clínico e os critérios diagnósticos ajuda profissionais de saúde mental a detectar e tratar o transtorno</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cerca de 0,7% a 2,7% da população, além de seus familiares, lidam diariamente com a profunda dor emocional e as consequências sociais, escolares e laborais negativas do <strong>transtorno de personalidade borderline (TPB)</strong>, o mais estudado e um dos mais graves desta categoria de <strong>transtornos mentais</strong>.&nbsp;</p>



<p>Entre os pacientes que frequentam postos de saúde, ambulatórios de <strong>saúde mental</strong> e internações psiquiátricas, a prevalência é ainda maior, atingindo 6%, 12% e 22%, respectivamente.&nbsp;</p>



<p>Apesar desses números, o TPB tradicionalmente permaneceu à margem das grades curriculares dos cursos de medicina e psicologia, o que dificulta a aquisição das habilidades necessárias para o <strong>diagnóstico precoce e tratamento adequado</strong> por parte dos profissionais de saúde.&nbsp;</p>



<p>Esse panorama vem mudando nos últimos anos graças a <strong>novas pesquisas</strong>.&nbsp;</p>



<p>Para navegar pelos diversos ambientes sociais, enfrentar os desafios do trabalho e tomar boas decisões, é necessária uma estabilidade do psiquismo que não ocorre no TPB, caraterizado por <strong>turbulências intensas das emoções, do pensamento e do comportamento</strong>.&nbsp;</p>



<p>Em sua apresentação clássica, são observadas, desde os primeiros anos de vida, dificuldades importantes em regular as próprias emoções, que podem ser agravadas por adversidades na infância, como <strong>conflitos familiares</strong> e <strong><em>bullying</em></strong>.&nbsp;</p>



<p>Na adolescência e na idade adulta, há marcada hipersensibilidade à rejeição, irritabilidade e uma dificuldade em desenvolver um senso de identidade estável, uma autoestima resiliente, um controle adequado dos impulsos e uma boa capacidade de reflexão sobre os próprios estados mentais e os dos outros.&nbsp;</p>



<p>Os pacientes relatam que estressores relativamente corriqueiros, como um olhar de reprovação, a possibilidade do término de um relacionamento ou uma nota baixa em uma prova, são capazes de desencadear <strong>emoções negativas intensas</strong>, como angústia e raiva; tentativas de suicídio; episódios de autolesão e até dissociação, paranoia e alucinações.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Além dessa avalanche de sintomas, essas pessoas, que já se sentem extremamente mal consigo mesmas, enfrentam estigma e preconceito — inclusive, infelizmente, de muitos profissionais da saúde.&nbsp;</p></blockquote></figure>
</blockquote>



<p>Mesmo no século XXI, pacientes ainda ouvem impropérios como “quem tenta suicídio não quer morrer de fato”, “ela está só querendo chamar a atenção”, e “isso é tudo manipulação”.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-1a48d619eff74b50b0ba9ad438de826d"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-black-color">Critérios diagnósticos</mark></strong></h2>



<p>Outros transtornos psiquiátricos que ocorrem em taxas semelhantes ao borderline na população são mais estudados e ensinados aos alunos da área de saúde, o que pode ser explicado por alguns fatores.&nbsp;</p>



<p>Um exemplo clássico é o <strong>transtorno bipolar</strong>, cujo quadro clínico foi estabelecido de forma mais concordante com as definições atuais desde meados do século XIX, sobre o qual existem pelo menos cinco vezes mais estudos publicados e para o qual os médicos recebem muito mais treinamento.&nbsp;</p>



<p>O TPB só foi introduzido nas classificações psiquiátricas internacionais a partir de 1980, quando estudos empíricos pioneiros de <a href="https://www.mcleanhospital.org/news/memoriam-john-g-gunderson-md" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>John Gunderson</strong></a> e os conceitos teóricos de <a href="https://vivo.weill.cornell.edu/display/cwid-okernber" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Otto Kernberg</strong></a> possibilitaram um melhor esclarecimento dos seus critérios diagnósticos.&nbsp;</p>



<p>Além de ter ingressado mais tarde na arena científica, o TPB foi historicamente interpretado de forma negativa e pessoal por profissionais, que tendem a ver sintomas como o descontrole da raiva e as oscilações entre idealização e desvalorização dos outros através de <strong>lentes pejorativas</strong>, em vez de diagnósticas.&nbsp;</p>



<p>Em casos extremos, observamos até profissionais bem-intencionados reduzindo o TPB a um conjunto restrito de características vistas como socialmente desagradáveis, devido à <strong>desinformação</strong>.&nbsp;</p>



<p>Não é incomum ouvir em discussões de caso entre colegas sobre certos pacientes que preenchem todos os critérios para TPB: “eu gosto desse paciente, ele não pode ser borderline”.&nbsp;</p>



<p>Sobre o meio médico, também paira um grande niilismo terapêutico que contamina os pacientes.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Diferentemente de outros transtornos mentais, como a depressão e a esquizofrenia, as terapias biológicas, como medicamentos e técnicas de neuromodulação, têm ainda eficácia limitada para o transtorno de personalidade borderline.&nbsp;</p></blockquote></figure>



<p>Além disso, é prevalente a crença de que a personalidade na idade adulta é imutável. Então, muitos psiquiatras, por receio de gerar desesperança, frequentemente cometem dois equívocos:&nbsp;</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Não diagnosticar o TPB na adolescência na expectativa de que ele melhore sozinho na vida adulta, retardando assim o tratamento;</li>



<li>Não diagnosticar o TPB em indivíduos adultos, acreditando que a personalidade já está consolidada e, portanto, não há mais o que fazer.&nbsp;</li>
</ul>



<p>Diagnósticos alternativos, como <strong>depressão</strong>, <strong>ansiedade</strong> ou <strong>transtorno bipolar</strong>, que para esses casos podem ser inadequados ou explicar apenas parte do problema, são muitas vezes os únicos oferecidos aos pacientes – que são <strong>frequentemente polimedicados de forma excessiva</strong> e encaminhados a psicoterapias ineficazes para esse problema.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8256e10703507ee64b31696a0f715b4a"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-black-color">Pesquisa e classificação</mark></strong></h2>



<p>Já no campo da pesquisa, devido ao elevado risco de suicídio e autolesão, e à maior eficácia das psicoterapias em comparação com o tratamento farmacológico, há <strong>menos financiamento para o estudo do TPB</strong>.&nbsp;</p>



<p>Há também críticas quanto à especificidade dos diagnósticos de transtornos de personalidade, que atualmente estão passando por modificações e incluem dois sistemas paralelos de classificação.&nbsp;</p>



<p>No entanto, sabemos que <strong>limitações da acurácia diagnóstica</strong> em psiquiatria não são exclusivas desses transtornos e que os sistemas classificatórios, como é próprio da ciência, estão em constante evolução.&nbsp;</p>



<p>Dado o quão comum é o TPB e o seu grave prejuízo funcional, é fundamental <strong>combater o desconhecimento</strong> sobre essa condição, que ainda permeia o sistema de saúde, e <strong>preparar melhor os profissionais</strong> para diagnosticá-la e tratá-la.&nbsp;</p>



<p>Felizmente, há uma série de novas estratégias baseadas em <strong>evidências científicas</strong> desenvolvidas para esse fim.</p>



<p>Com o estabelecimento oficial do diagnóstico nos anos 1980, as duas décadas seguintes foram marcadas por uma série de avanços.&nbsp;</p>



<p><a href="https://depts.washington.edu/uwbrtc/our-team/marsha-linehan/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Marsha Linehan</a> desenvolveu a <strong>Terapia Comportamental Dialética</strong>, cujos ensaios clínicos demonstraram que o TPB, antes tido como intratável, melhorava consideravelmente com esta psicoterapia especializada.&nbsp;</p>



<p>Em seguida, uma série de outras abordagens também tiveram a sua eficácia comprovada por <strong>ensaios clínicos</strong>, como é o caso do Tratamento Baseado na Mentalização, da Psicoterapia Focada na Transferência e da Terapia Focada em Esquemas.&nbsp;</p>



<p>Paralelamente, <a href="https://www.mcleanhospital.org/profile/mary-zanarini" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mary Zanarini</a>, entre outros pesquisadores, por meio de dois importantes <strong>estudos longitudinais</strong>, demonstrou empiricamente que, ao longo dos anos, os sintomas da maioria dos pacientes diminuíam gradativamente, a ponto de não atingirem mais o limiar para o diagnóstico.&nbsp;</p>



<p>Estudos sobre <strong>genética</strong>, <strong>neuroimagem cerebral</strong> e <strong>alterações endocrinológicas</strong> apontam para a existência também de <strong>componentes biológicos e inatos do transtorno</strong>, não sendo apenas um produto do meio, como se pensava anteriormente.&nbsp;</p>



<p>Os achados dessas pesquisas, em conjunto, revelam que os pacientes com TPB apresentam uma grande sensibilidade ao estresse, com emoções intensas que não são adequadamente contrabalanceadas por <strong>mecanismos hormonais</strong>, por um controle eficaz dos impulsos, ou por satisfatórias capacidades de reflexão e tomada de decisão.&nbsp;</p>



<p>No século XXI, com um melhor prognóstico e psicoterapias eficazes estabelecidas, outras pesquisas demonstraram que fornecer o diagnóstico de TPB e explicá-lo abertamente é, geralmente, bem recebido por pacientes e familiares, contrariamente ao que se supunha.&nbsp;</p>



<p>E esse processo, chamado de <strong>psicoeducação</strong>, por si só auxilia na redução de sintomas, demonstrando como o autoconhecimento é impactante.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-3df8b0a989ed1288a4522a9363f6cd72"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-black-color">Acesso ao tratamento</mark></strong></h2>



<p>Apesar da importância desses avanços, outra barreira ainda precisa ser transposta: garantir que a maioria dos pacientes tenha <strong>acesso a um tratamento de qualidade</strong>.&nbsp;</p>



<p>Gunderson e <a href="https://experts.mcmaster.ca/display/linksp" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Paul Links</a>, com o <strong>Bom Manejo Clínico</strong> (<em>Good Psychiatric Management</em>, GPM, na sigla em inglês) para o TPB, mostraram que um tratamento generalista, bem estruturado e manualizado, pode ser tão eficaz quanto terapias especializadas – que demandam bastante investimento de tempo e recursos financeiros para formação de profissionais e para o acesso dos pacientes.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Outros tratamentos generalistas desenvolvidos em centros acadêmicos ao redor do mundo, também conseguiram atingir eficácias semelhantes aos tratamentos especializados intensivos.</p></blockquote></figure>



<p>Ademais, pesquisas demonstraram que os clínicos, após esses treinamentos, relatavam menor estigma e maior confiança ao tratar pacientes com TPB.&nbsp;</p>



<p>O <strong>Brasil</strong> também tem participação relevante em inciativas de <strong>criação de treinamentos</strong> compactos sobre TPB para profissionais de saúde.&nbsp;</p>



<p>O <a href="https://ipqhc.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo</a> contribuiu com um projeto internacional, liderado por <a href="https://cmecatalog.hms.harvard.edu/faculty-staff/lois-choi-kain" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lois Choi-Kain</a>, da Universidade de Harvard, e <a href="https://uh.edu/class/psychology/about/people/carla-sharp/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Carla Sharp</a>, da Universidade de Houston, ambas nos Estados Unidos, que adaptou o Bom Manejo Clínico para adolescentes.&nbsp;</p>



<p>No Brasil, o projeto vem alavancando a capacitação de profissionais que atuam tanto no <strong>Sistema Único de Saúde</strong> (SUS) quanto na <strong>saúde suplementar</strong> para detecção e intervenção precoces do TPB, o que pode mudar a trajetória das pessoas com o transtorno.&nbsp;</p>



<p>Na última década, esses esforços renderam algo antes impensável: os profissionais de saúde mental têm disputado vagas em centros de treinamento para transtorno de personalidade borderline, um diagnóstico que, antes, muitos clínicos não gostariam que passasse perto de seus consultórios.&nbsp;</p>



<p>A evolução do conhecimento sobre o TPB é um dos exemplos de como pesquisa, ensino e assistência podem ser orquestrados de forma a catalisar ganhos para o paciente, diminuir o estigma e aumentar o acesso ao tratamento.&nbsp;</p>



<p><strong>Marcelo Brañas</strong> <em>é médico psiquiatra,&nbsp;cocoordenador&nbsp;e cofundador do&nbsp;Ambulatório para o Desenvolvimento dos Relacionamentos e das Emoções (ADRE) do Instituto de Psiquiatria do Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPqHCFMUSP)&nbsp;e instrutor oficial de&nbsp;Bom Manejo Clínico&nbsp;para TPB pelo Gunderson Personality Disorders Institute do McLean Hospital da Harvard Medical School (EUA).</em></p>



<p><strong>Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Hospital Israelita Albert Einstein</strong></p>
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		<title>Sidarta Ribeiro: “Psicodélicos podem revolucionar clínica médica”</title>
		<link>https://www.sciencearena.org/entrevistas/sidarta-ribeiro-psicodelicos-podem-revolucionar-clinica-medica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Aug 2024 13:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[#conhecimento tradicional]]></category>
		<category><![CDATA[#medicina psicodélica]]></category>
		<category><![CDATA[#neurociência]]></category>
		<category><![CDATA[#psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[#saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neurocientista explica por que este campo de pesquisa abre oportunidades na saúde mental, na neurologia e na troca de saberes com povos originários</p>
<p>O post <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/sidarta-ribeiro-psicodelicos-podem-revolucionar-clinica-medica/">Sidarta Ribeiro: “Psicodélicos podem revolucionar clínica médica”</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sciencearena.org">Science Arena</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“A ideia de que a saúde mental é algo que pode ser gerado por substâncias independentemente do contexto é um equívoco.” A afirmação é do neurocientista Sidarta Ribeiro, professor titular e cofundador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).</p>



<p>Considerado um dos principais expoentes do chamado “renascimento psicodélico” (a retomada de estudos científicos para uso medicinal de substâncias psicodélicas), Sidarta Ribeiro defende que a nova onda de pesquisas nessa linha configura “uma revolução científica com potencial de se tornar também uma revolução clínica.”</p>



<p>Doutor pela Universidade Rockefeller com estágio de pós-doutorado na Universidade Duke, ambas nos Estados Unidos, Ribeiro publicou artigos em importantes periódicos científicos como <a href="https://neuro.ufrn.br/blog/index.php/2023/11/06/ciencia-psicodelica-e-xamanismo-indigena-necessitam-dialogar-propoe-neurocientista-sidarta-ribeiro-em-artigo-publicado-na-revista-nature-mental-health/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nature Mental Health</a> e <a href="https://journals.plos.org/mentalhealth/article?id=10.1371/journal.pmen.0000028" target="_blank" rel="noreferrer noopener">PLoS Mental Health</a>, além da revista digital <a href="https://sumauma.com/coisas-da-nossa-gente-em-nossa-mente/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sumaúma.</a> Esses trabalhos focam na ciência psicodélica e no uso terapêutico de substâncias tradicionalmente utilizadas por culturas originárias.</p>



<p>Sua pesquisa abrange diversas áreas, incluindo sono, sonhos, memória, aprendizado, comportamento animal, plasticidade neuronal, psiquiatria computacional, cannabis e psicodélicos.</p>



<p>Além de sua carreira científica, Ribeiro ganhou reconhecimento como escritor após a publicação de <em>O oráculo da noite</em> (2019), que explora a história e a ciência dos sonhos. Seu livro mais recente, <em>As flores do bem</em> (2023), aborda a história e a ciência da cannabis, combinando seu papel de cientista com o de divulgador e pensador da evolução científica.</p>



<p>Em entrevista ao <strong>Science Arena</strong>, o pesquisador discute a evolução da ciência psicodélica e suas aplicações terapêuticas. Aborda questões cruciais que surgem com o avanço desses conhecimentos e práticas, considerando os impactos para pesquisadores, profissionais de saúde, órgãos regulatórios e a sociedade em geral.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Science Arena – Qual é o atual panorama da ciência psicodélica e de suas aplicações na área da saúde mental?</strong></h2>



<p><strong>Sidarta Ribeiro –</strong> É importante lembrar que o chamado “renascimento psicodélico”, que começou há aproximadamente duas décadas, é, na verdade, a terceira onda. A primeira está em curso há milhares de anos e envolve todas as descobertas, invenções e construções culturais em torno de substâncias psicodélicas feitas por povos originários – incluindo, por exemplo, o peiote no México, a ayahuasca na América do Sul e outras substâncias na África e na Ásia.</p>



<p>A segunda onda aconteceu entre as décadas de 1950 e 1970, em ambientes urbanos, em contato com ciência, e mapeou muitas coisas interessantes, até que foi interrompida com o acirramento da &#8220;guerra às drogas&#8221;.</p>



<p>A terceira onda começou a ganhar corpo na primeira década deste século, quando os caminhos de pesquisa abertos pela segunda onda foram retomados, com o auxílio de metodologias mais poderosas, tecnologia mais avançada e estatísticas mais robustas. Hoje, a terceira onda já configura uma revolução científica com potencial de se tornar também uma revolução clínica.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Qual é a situação do Brasil no cenário dessa terceira onda?</strong></h2>



<p>O campo da pesquisa biomédica de psicodélicos está crescendo rapidamente, mas ainda é relativamente pequeno. O Brasil foi um dos poucos países que entraram na terceira onda quando ela estava começando. Hoje, temos pelo menos dez grupos independentes fazendo pesquisas relevantes na área e estamos na vanguarda da produção de conhecimento sobre algumas substâncias, como a ayahuasca, que, além de ser usada por vários povos indígenas brasileiros, tem seu uso religioso liberado no país – o que incentiva e facilita a pesquisa.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quais substâncias e suas aplicações clínicas se destacam nos resultados de pesquisa?</strong></h2>



<p>As substâncias complexas utilizadas por povos ameríndios na forma de produtos naturais, como peiote, ayahuasca e cogumelos &#8220;mágicos&#8221; (que contêm, respectivamente, os psicodélicos mescalina, DMT e psilocibina), foram validadas pela pesquisa acadêmica por suas propriedades medicinais.</p>



<p>Substâncias sintéticas descobertas em laboratório no século XX, como o LSD, também estão validadas. Esses são os chamados “psicodélicos clássicos”, triptaminas e feniletilaminas.</p>



<p>Outras substâncias psicodélicas, como a ibogaína, descoberta e usada por povos originários africanos, e o MDMA e a ketamina, sintetizadas em laboratório, também têm propriedades valiosas para a área da saúde mental.</p>



<p>As psicoterapias com auxílio de psicodélicos são muito promissoras em relação a diversos quadros clínicos, incluindo casos extremos de trauma, desespero e suicídio iminente, depressão, tratamento de adições, melhoria da qualidade de vida de pacientes sob cuidados paliativos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Há uma propriedade fundamental dos psicodélicos que se destaca pelo potencial terapêutico?</strong></h2>



<p>Sim, os psicodélicos produzem plasticidade neural, e de um tipo especial, chamada de metaplasticidade, que tende a ser mais equilibrada, mais homeostática que a plasticidade produzida por outras substâncias indutoras desse tipo de processo neurofisiológico.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Isso pode ajudar muito em quadros marcados pela ruminação de memórias e comportamentos viciosos, como nos traumas persistentes, nos transtornos do humor e nas adições.</p></blockquote></figure>



<p>Em termos de aplicações para a medicina, essa produção de metaplasticidade é promissora também para tratamentos neurológicos, para reparo, regeneração e manutenção da saúde do tecido neural.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Por que as experiências psicodélicas são importantes?</strong></h2>



<p>Há duas questões principais. A primeira, mais básica, é a compreensão da importância do <em>setting</em>, que é o contexto ambiental e relacional no qual acontecem as experiências e o processo terapêutico. Essa compreensão, que o conhecimento sobre psicodélicos traz com muita força, aliás, vale também para outras substâncias.</p>



<p>Resultados experimentais mostram, por exemplo, que o medicamento antidepressivo fluoxetina tende a ter efeito contrário, de agravamento de depressão, quando o <em>setting </em>é hostil ou adverso. E podemos supor que ele seja para parte considerável da população brasileira e mundial.</p>



<p>Então, a ideia de que saúde mental é algo que pode ser gerado por substâncias independentemente do contexto é um equívoco. E os povos e culturas que descobriram psicodélicos e souberam usá-los como poderoso recurso de cura ensinam que a interação dessas substâncias com o <em>setting</em> é uma dimensão fundamental da sua ação.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>E quanto à experiência psicodélica em si?</strong></h2>



<p>O que tanto os saberes originários quanto uma grande quantidade de pessoas e comunidades não-indígenas que usam psicodélicos de diversas maneiras – como medicina, sacramento religioso ou instrumento de exploração de diferentes dimensões da consciência – nos dizem é que eles propiciam aventuras, epopeias interiores, subjetivas que são fundamentais nesses processos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="1000" height="667" src="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca.jpg" alt="" class="wp-image-4474" style="width:685px;height:auto" srcset="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca.jpg 1000w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-800x534.jpg 800w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-400x267.jpg 400w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-768x512.jpg 768w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-150x100.jpg 150w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /><figcaption class="wp-element-caption">Chá de ayahuasca, produzido a partir do cozimento de folhas do arbusto Psychotria viridis e da casca do cipó Banisteriopsis caapi | Imagem: Shutterstock</figcaption></figure>



<p>As experiências psicodélicas se relacionam com sistemas de crenças e com processos conscientes das pessoas durante e depois dos efeitos das substâncias. Os resultados de pesquisa confirmam isso.</p>



<p>Uma experiência psicodélica bem conduzida é capaz de gerar efeitos benéficos de longo prazo. Por isso, os protocolos terapêuticos que incluem experiências psicodélicas preveem não o uso contínuo da substância, mas somente algumas sessões combinadas à psicoterapia.</p>



<p>Creio que a evolução das pesquisas vai demonstrar, com crescente clareza, que a tentativa de reduzir os psicodélicos a mais um tipo de comprimido que não produz experiência significativa de introspecção e alteridade leva à redução do potencial dessas substâncias.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Isso tem relação com a dificuldade de aprovação de alguns desses protocolos terapêuticos por órgãos regulatórios como a Food and Drug Administration (FDA), que regula alimentos e remédios nos Estados Unidos?</strong></h2>



<p>Sim. Primeiro, devemos lembrar que o atual renascimento psicodélico começou há pouco tempo, depois de décadas de inviabilização das pesquisas no contexto da chamada “guerra às drogas”. Preconceitos em relação a substâncias que, lamentavelmente, foram associadas ao crime e a riscos exagerados ou inventados ainda estão muito presentes.</p>



<p>Como qualquer substância, os psicodélicos têm seus grupos de risco, contraindicações, e requerem conhecimento e cuidado para serem bem utilizados em pacientes, mas podem ser usados com segurança por muita gente.</p>



<p>Além de superar preconceitos, os desafios para órgãos como a FDA e a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] têm a ver com o fato de que a aprovação de terapias com auxílio de psicodélicos não requer somente a análise da segurança e da eficácia do uso médico de um princípio ativo.</p>



<p>Trata-se de avaliar, além da própria substância, cada modelo terapêutico que se submete ao processo de avaliação dessas agências. Mas o que hoje pode parecer uma complexidade excessiva poderá se mostrar, futuramente, uma etapa necessária para um conhecimento mais completo e aprofundado da saúde mental e dos meios de promovê-la.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Há também a questão do “desmascaramento” do placebo nos ensaios clínicos, não é?</strong></h2>



<p>No caso dos psicodélicos, é fácil para os participantes de testes clínicos saberem quando tomaram a substância ou um placebo. Isso também requer uma perspectiva um pouco diferente na avaliação de resultados. Esse tipo de novidade pode suscitar resistências em estruturas de regulação conservadoras.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Você defende a valorização dos saberes e o reconhecimento dos direitos dos povos originários nas várias frentes do renascimento psicodélico. Explique o que isso significa.</strong></h2>



<p>Precisamos fazer valer o <a href="https://www.cbd.int/abs/default.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Protocolo de Nagoia</a> para garantir que haja uma justa <a href="https://www.cbd.int/abs/default.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">repartição de benefícios</a>. Além disso, é hora de reconhecer que a gente está em apuros, precisando da ajuda de homens e mulheres portadores de conhecimentos e sabedorias diferentes dos nossos.</p>



<p>Devemos olhar para os lados e perceber que temos muito a aprender com outros povos, culturas e experiências humanas. Especialmente quando estamos lidando com medicinas que eles apresentaram para nós, junto dos saberes construídos e apurados ao longo de milhares de anos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>O desenvolvimento do campo de estudos sobre psicodélicos requer um processo paritário, de troca de saberes, em que a gente possa coletivizar essa experiência de cura.</p></blockquote></figure>



<p>Não entender isso, além de apropriação predatória, seria grossa ignorância e desperdício de oportunidades que precisamos perceber e aproveitar com inteligência e justiça. Estamos em boa posição para fazer isso. Mas precisamos fazer mesmo, e mais.</p>



<p>Para dar um exemplo, como aponta o psiquiatra e professor Ricardo Moebus [da Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais], entre as <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pics" target="_blank" rel="noreferrer noopener">terapias integrativas</a> acolhidas pelo SUS [Sistema Único de Saúde] há uma grande diversidade de práticas vindas de outros países e continentes, como acupuntura, reiki e homeopatia, mas ainda não há medicina quilombola nem indígena.</p>
<p>O post <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/sidarta-ribeiro-psicodelicos-podem-revolucionar-clinica-medica/">Sidarta Ribeiro: “Psicodélicos podem revolucionar clínica médica”</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sciencearena.org">Science Arena</a>.</p>
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		<title>A origem da epidemia de opioides nos Estados Unidos</title>
		<link>https://www.sciencearena.org/leitura-indicada/a-origem-da-epidemia-de-opioides-nos-estados-unidos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Clóvis Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Mar 2024 15:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Leitura Indicada]]></category>
		<category><![CDATA[#analgésico]]></category>
		<category><![CDATA[#epidemia]]></category>
		<category><![CDATA[#opioides]]></category>
		<category><![CDATA[#psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[#saúde coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Biomédico e divulgador científico recomenda obra que conta a história de medicamento apontado como um dos responsáveis por crise sanitária no país</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading"><strong>O QUE RECOMENDO:</strong></h2>



<p>O livro <a href="https://intrinseca.com.br/livro/imperio-da-dor/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Império da dor</em></a>: <em>A ascensão e queda de uma das mais poderosas famílias americanas e seu criminoso império farmacêutico </em>(Intrínseca, 2023), do jornalista norte-americano <a href="https://www.patrickraddenkeefe.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Patrick Radden Keefe</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>POR QUE VALE A LEITURA?</strong></h2>



<p>Desde o seu lançamento em 2021 (a versão em português é do ano passado), o livro <em>Império da Dor</em> tem se destacado cada vez mais nas prateleiras de livrarias e bibliotecas ao redor do mundo, recebendo uma avalanche de críticas positivas.&nbsp;</p>



<p>Escrito pelo aclamado autor Patrick Radden Keefe, esta obra meticulosamente pesquisada e envolvente é uma leitura obrigatória para aqueles que buscam desvendar a história secreta da família Sackler – muitas vezes referida como “a família mais maléfica da América” – e entender como eles podem ser responsáveis por desencadear uma das piores crises de saúde pública já enfrentadas nos Estados Unidos. &nbsp;</p>



<p>A família Sackler, renomada por seu amor às artes e suas ações filantrópicas nas décadas de 1930 e 1940, tem um lado sombrio que poucos conheciam, mas que é muito bem abordado no livro. Durante seus anos na faculdade de medicina, os irmãos Sackler se tornaram adeptos da terapia de choque e começaram a usá-la para tratar seus pacientes psiquiátricos ou até mesmo pacientes sem sintomas.</p>



<p>Infelizmente, esses tratamentos muitas vezes resultavam em pacientes submetidos a condições desumanas, o que levou muitos deles à morte. Em um momento crucial da história da medicina, nos anos 1960, os irmãos Sackler compraram uma pequena empresa farmacêutica que, mais tarde, se tornaria a <em>Purdue Pharma</em>.&nbsp;</p>



<p>Naquela época, eles já estavam acumulando fortunas vendendo ansiolíticos altamente viciantes. Quando a patente desses medicamentos expirou, os irmãos Sackler precisavam de um substituto.&nbsp;</p>



<p>Keefe mergulha no tema central de sua obra, que aborda a forma como a farmacêutica <em>Purdue Pharma</em> produziu um medicamento analgésico altamente viciante chamado Oxycontin. Cada detalhe é minuciosamente explorado pelo autor, inclusive a aplicação irregular de documentos para a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, para regulamentar a venda do medicamento.</p>



<p>Após sua aprovação, o Oxycontin chegou a ser o medicamento mais vendido dos Estados Unidos, ultrapassando o Viagra. As práticas comerciais adotadas pela <em>Purdue Pharma</em> são altamente controversas e incluem prescrições excessivas e inadequadas do medicamento, bem como a manipulação de documentos e protocolos que amenizavam o impacto do Oxycontin na saúde dos pacientes.&nbsp;</p>



<p>Além disso, a empresa utilizava táticas agressivas de marketing para impulsionar as vendas do medicamento, como propagadas em consultórios médicos, que incluíam imagens de pessoas com a frase “<em>I got my life back</em>” (&#8220;recuperei minha vida&#8221;), e até incentivos financeiros para médicos que prescreviam o Oxycontin com frequência.&nbsp;</p>



<p>A farmacêutica chegou a pagar outros médicos para convencer colegas sobre os supostos benefícios do Oxycontin, apesar de o medicamento ser mais potente que a morfina e altamente viciante.</p>



<p>Infelizmente, o Oxycontin desempenhou um papel crucial na epidemia de opioides que atingiu vários países, especialmente os Estados Unidos, levando a um número alarmante de mortes por overdose – cerca de 500 mil pessoas nos últimos 20 anos.&nbsp;</p>



<p>Embora a crise tenha sido oficialmente reconhecida nos anos 1990, podemos claramente ver como as práticas comerciais questionáveis da família Sackler foram responsáveis por essa calamidade.</p>



<p>Em 2007, a <em>Purdue Pharma</em> e alguns de seus executivos se declararam culpados de acusações criminais relacionadas à promoção do Oxycontin. Foram multados em US$ 634 milhões e sentenciados a prestar serviços comunitários.&nbsp;</p>



<p>No entanto, a família Sackler não enfrentou acusações criminais graves por suas ações e manteve a posse da empresa. Em 2019, a companhia entrou com pedido de falência após enfrentar milhares de ações judiciais movidas por governos locais e estaduais dos Estados Unidos e vítimas da crise de opioides.&nbsp;</p>



<p>A família Sackler concordou em pagar US$225 milhões em um acordo com a Justiça para resolver as acusações civis relacionadas ao Oxycontin.&nbsp;</p>



<p>Com escrita envolvente e abordagem imparcial, o livro é uma fonte valiosa para qualquer pessoa interessada em compreender as causas e as consequências da epidemia de opioides que afeta tantas pessoas e comunidades em todo os Estados Unidos. De fato, a obra tem se tornado um ponto de referência para estudiosos, profissionais da saúde, pesquisadores e o público em geral que busca compreender melhor essa complexa questão.&nbsp;</p>



<p>No geral, <em>Império da dor</em> é um livro extremamente importante e provocativo, que lança luz sobre a epidemia de opioides, a indústria farmacêutica e a maneira como a riqueza e o poder podem ser usados para proteger indivíduos e empresas de suas responsabilidades.&nbsp;</p>



<div  class="custom-block perfil-autor " aria-label="Informações do autor">
    
    </div>


<p><strong>Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.</strong></p>



<p></p>
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		<title>A depressão pode empobrecer relações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Clóvis Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Feb 2024 19:37:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[#depressão]]></category>
		<category><![CDATA[#emoções]]></category>
		<category><![CDATA[#interação social]]></category>
		<category><![CDATA[#músculo zigomático]]></category>
		<category><![CDATA[#psiquiatria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Estudo mostra que pessoas deprimidas respondem de maneira mais apática a estímulos de interação social</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) indica que pessoas com depressão podem ter uma baixa capacidade de resposta ao contexto social.&nbsp;</p>



<p>A conclusão é baseada em testes que mostraram apatia nas expressões faciais de pessoas com sintomas depressivos diante de imagens que, em voluntários sem depressão, estimularam o músculo da face responsável pelo sorriso.&nbsp;</p>



<p>O <a href="https://www.nature.com/articles/s41598-024-51813-1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estudo</a><strong> </strong>publicado na revista <em>Scientific Reports</em> sugere que esse fator pode ser determinante para interações sociais menos ricas e, ainda, para que essas pessoas evitem contato com outras.</p>



<p>Para chegar aos resultados, os pesquisadores submeteram 85 voluntários a um questionário usado por psicólogos para detectar sintomas depressivos, o Inventário de Depressão de Beck (BDI). Essa parte do experimento permitiu separar os participantes entre deprimidos e não deprimidos.</p>



<p>Em seguida, foram fixados dois eletrodos no lado esquerdo do rosto, sobre o músculo zigomático, cujo movimento permite expressões faciais como o sorriso. Três blocos de 28 imagens foram então apresentados aos voluntários em uma tela.&nbsp;</p>



<p>O primeiro bloco apresentava fotos de objetos, consideradas neutras nesse tipo de teste; o segundo e o terceiro blocos eram de pares de pessoas, compostos de um adulto e uma criança ou de duas crianças. A diferença é que, no segundo, as pessoas interagiam, olhando uma para a outra, enquanto no último, usado como controle, as mesmas duplas não interagiam entre si.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Os sinais musculares captados pelos sensores eram transmitidos para um amplificador, indicando o estímulo do músculo zigomático, usado em estudos do tipo como uma medida das reações emocionais.</p></blockquote></figure>



<p>Depois da exibição de cada um dos dois últimos blocos, os participantes respondiam a dois questionários com uma série de adjetivos. Um dos testes mede a expectativa de aproximação da pessoa com os outros e o medo de rejeição. Outro avalia o nível de altruísmo de cada um diante das imagens.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Músculo do sorriso</strong></h2>



<p>O grupo sem sintomas de depressão teve uma ativação maior do músculo zigomático durante a visualização das imagens com interação do que nos blocos neutros e controle. Neste grupo de pessoas, a ativação do músculo foi maior do que naqueles cujos participantes tiveram sintomas depressivos detectados.&nbsp;</p>



<p>A ativação do músculo aumentava à medida que o tempo passava. Isso ocorreu sobretudo durante a exibição das fotos de pessoas interagindo.</p>



<p>As respostas aos questionários que se seguiram à visualização das imagens mostraram que o medo de rejeição foi levemente reduzido nas pessoas sem depressão depois do bloco de interação, quando comparado ao bloco de imagens de objetos.&nbsp;</p>



<p>Entre os deprimidos, o medo de rejeição foi significativamente maior do que nos não deprimidos após visualizarem as imagens de interação e do bloco controle.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Os não deprimidos tiveram mais expectativa de aproximação, independentemente do bloco de fotos. Da mesma forma, tiveram comportamento mais altruísta do que os deprimidos.</p></blockquote></figure>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Sugerimos que os indivíduos com depressão têm menor responsividade ao contexto social, como refletido pela apatia nas suas expressões faciais”, escrevem os autores. “Portanto, esse fator pode ser um determinante para que tenham interações sociais menos ricas e evitem contato com outras pessoas.”</p>
</blockquote>



<p>Os pesquisadores lembram que estudos sobre interações sociais relatam tristeza e angústia na expressão facial de pessoas deprimidas, incluindo baixa atividade do músculo zigomático para evitar exprimir simpatia, disposição em ajudar ou proximidade pelos que estão em seu entorno.</p>



<p>Outros estudos enfatizam ainda que comportamentos interpessoais de pessoas com esse perfil levam à rejeição por pessoas com quem convivem. Os comportamentos reforçariam o ciclo de solidão e acabariam acentuando a depressão.&nbsp;</p>



<p>A partir dos resultados do estudo, os autores supõem que a interação social não é um estímulo agradável o suficiente para pessoas com depressão, resultando na falta de mudança na expressão de sorriso.</p>
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