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Escrever artigos e projetos de pesquisa exige habilidades diferentes
Autoras reúnem recomendações, do doutorado à carreira docente sênior, para desenvolver a escrita acadêmica e aumentar a capacidade de buscar financiamento
Desenvolver o hábito da escrita regular é um dos pilares centrais das recomendações do estudo sobre escrita acadêmica e captação de recursos | Imagem: Unsplash
A escrita acadêmica, tanto a elaboração de artigos científicos quanto a redação de propostas para agências de financiamento, tornou-se uma competência essencial para o avanço na carreira acadêmica e científica.
As duas tarefas, no entanto, exigem habilidades distintas: produzir um manuscrito para publicação demanda um conjunto de competências diferente daquele necessário para convencer uma agência de fomento a financiar uma pesquisa.
Esse é o argumento central de um artigo de revisão publicado na revista Trends in Higher Education, assinado por Vicki L. Baker, do Albion College e consultora internacional de liderança e desenvolvimento profissional que atua como coach de carreira para acadêmicos; Staci Starck, administradora de grants na Michigan State University, que orienta docentes e equipes ao longo de todo o ciclo de captação de recursos; e Maria Rising, coach de escrita e edição à frente do The Rising Project, que já atuou em pesquisa e captação de recursos em uma universidade de pesquisa de destaque nos Estados Unidos.
As três autoras reúnem 65 anos de experiência combinada em academia para propor recomendações organizadas por etapa da carreira, do doutorado à titularidade, tanto para a escrita acadêmica quanto para a captação de recursos.
Por que o momento é relevante
O artigo situa o problema em um cenário de pressão crescente: a competição por financiamento externo nos Estados Unidos aumentou nas últimas duas décadas, com queda nas taxas de aprovação de propostas tanto no NIH (Institutos Nacionais de Saúde) quanto na NSF (Fundação Nacional de Ciência) em relação a vinte anos atrás, ainda que o número de propostas submetidas tenha recuado um pouco desde o pico registrado em 2021.
As autoras também recuperam um estudo de referência, que identificou uma incongruência entre os objetivos dos doutorandos, o treinamento recebido e as carreiras que de fato seguem — dentro ou fora da academia.
A formação doutoral continua predominantemente concentrada na preparação de pesquisadores, o que sinaliza a necessidade de maior atenção ao desenvolvimento das diferentes habilidades de escrita exigidas na carreira acadêmica.
Uma habilidade que não é distribuída de forma igual
A revisão de literatura do artigo chama a atenção para desigualdades raciais e de gênero no acesso a financiamento científico.
Segundo estudos citados pelas autoras, pesquisadores negros têm probabilidade menor de receber financiamento do NIH do que pesquisadores de outros grupos raciais, e a raça é um preditor mais forte de sucesso na captação de recursos do que o gênero.
Em relação a gênero, um estudo citado sugere que as diferenças de sucesso entre cientistas homens e mulheres na captação de recursos decorrem de como as pesquisadoras são avaliadas, não da qualidade do trabalho em si.
Uma análise linguística encontrada pelas autoras aponta inclusive um paradoxo: pareceres para propostas de cientistas mulheres usam mais linguagem elogiosa, mas isso não se traduz em taxas de sucesso maiores.
As próprias autoras, no entanto, ressaltam que as evidências sobre a relação entre viés de gênero e sucesso na obtenção de financiamento ainda são limitadas e precisam ser aprofundadas.
Dos primeiros passos ao “elevator pitch”
Para alunos de doutorado, as autoras recomendam a construção gradual de uma agenda de pesquisa própria:
- Identificar temas de interesse;
- Ler a literatura especializada;
- Trocar ideias com orientadores.
Um exercício prático sugerido é desenvolver um tema de pesquisa capaz de ser resumido em uma conversa de elevador, curto o suficiente para explicar a relevância do estudo e por que ele merece atenção.
Também é recomendado desenvolver a capacidade de identificar fontes primárias e secundárias, realizar buscas direcionadas por palavras-chave e localizar tanto estudos fundadores quanto trabalhos recentes relacionados ao tema.
No campo da captação de recursos, a maior parte dos doutorandos desconhece a existência de bolsas e auxílios disponíveis para financiar a própria pesquisa.
Por isso, a recomendação é buscar o escritório de apoio à pesquisa da instituição ou o orientador para identificar oportunidades. Outros caminhos sugeridos:
- Ler projetos já aprovados por agências de fomento para entender seus pontos fortes;
- Buscar parcerias com docentes que já têm um portfólio ativo de financiamento, inclusive fora do próprio departamento.
Aprender a lidar com a rejeição também faz parte do treinamento: revisar os pareceres dos avaliadores, pedir retorno quando ele não vem, e insistir em uma nova submissão.
Recomendações por etapa da carreira
As recomendações são organizadas segundo etapas típicas da carreira acadêmica nos Estados Unidos, do doutorado aos postos docentes mais seniores, embora parte das orientações possa ser aplicada a outros contextos.
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1. Doutorado
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Elevator pitch para o tema de pesquisa; carta-resposta ponto a ponto a revisores; mapeamento de bolsas com o escritório de apoio à pesquisa; leitura de projetos já financiados.
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2. Professor(a) assistente
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Lista de questões em aberto na área; períodos reservados à escrita; conhecimento das prioridades dos financiadores; alinhamento do orçamento à proposta; projetos menores antes de editais de grande porte.
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3. Professor(a) associado(a)
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Atuação como revisor informal; diversificação de formatos (jornais, blogs); diálogo direto com gestores de agências; textos voltados a públicos além da academia.
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4. Professor(a) titular
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Participação em conselhos editoriais; propostas multi-institucionais de maior porte; candidatura a novos financiadores; mentoria estruturada de pesquisadores juniores.
Consolidando a agenda de pesquisa
Para pesquisadores no início da carreira docente, a recomendação é refinar continuamente a agenda de pesquisa, elaborando listas de questões científicas ainda não respondidas e planos de ação para investigá-las.
As autoras destacam a importância de conhecer bem os principais nomes e correntes de pensamento da área (inclusive posições divergentes) e de identificar com clareza os públicos aos quais a pesquisa se destina, direcionando os trabalhos a periódicos, congressos e redes em que esses temas são discutidos.
O texto também recomenda aprender tanto a liderar uma colaboração quanto a ser um bom colaborador, e adotar práticas mais estruturadas de escrita, horários fixos na agenda, metas de produção por sessão e revisões informais combinadas previamente com colegas.
Em relação ao financiamento, a orientação é compreender as prioridades temáticas das agências de fomento e mapear quem já recebe financiamento na própria área, para avaliar possíveis colaborações.
As autoras alertam ainda para a importância de garantir que o projeto seja exequível: o orçamento deve ser coerente com o que está previsto na proposta e todos os custos associados ao trabalho precisam ser considerados.
Também recomendam começar com propostas menores antes de disputar editais de grande porte, geralmente mais competitivos e direcionados a pesquisadores mais experientes.
Ampliando a rede e o alcance
Nesta fase, a recomendação é dar continuidade às práticas de escrita, participando de grupos e oficinas voltados a esse fim, e passar a atuar como revisor informal de trabalhos de colegas, além de aceitar convites para avaliar artigos e propostas submetidas a congressos e periódicos.
As autoras sugerem também diversificar os formatos e públicos da produção escrita, incluindo textos para jornais e blogs, não apenas artigos acadêmicos.
Outra frente é aumentar a presença no campo de atuação: assumir a função de mediador(a) ou debatedor(a) em sessões de congressos, ocupar cargos de liderança em associações profissionais e participar das reuniões de negócios da própria divisão ou área de interesse dentro dessas associações.
No financiamento, a orientação é ampliar a escala das pesquisas, expandindo estudos já bem-sucedidos, e estabelecer diálogo direto com gestores de agências de fomento para apresentar projetos e compreender melhor suas prioridades.
As autoras recomendam ainda buscar colaborações com outros pesquisadores principais em estudos de maior porte e escrever para públicos amplos.
As agências dão peso crescente ao impacto social da pesquisa, o que exige textos legíveis também fora do ambiente acadêmico.
Liderança e mentoria
Para acadêmicos em estágio mais avançado da carreira, a recomendação central é refinar as habilidades de escrita e revisão por meio de participação em conselhos editoriais e ampliar o alcance da própria produção científica, cultivando uma rede diversa de pares e veículos de divulgação.
No campo da captação de recursos, o caminho sugerido é desenvolver propostas para financiamentos de maior porte, muitas vezes em parceria com múltiplas instituições, e se candidatar a agências ainda não exploradas.
As autoras reforçam também o papel da mentoria: orientar estudantes de pós-graduação, pesquisadores de pós-doutorado e docentes em início de carreira, integrando essa mentoria de forma intencional ao próprio plano de pesquisa.
Esse ponto ganhou peso regulatório recente nos Estados Unidos: desde 20 de maio de 2024, todas as propostas submetidas à National Science Foundation (NSF) precisam incluir planos de mentoria, treinamento de mentores e planos de desenvolvimento individual para os estudantes de pós-graduação financiados pelo projeto, uma exigência que, segundo as autoras, tende a reforçar a importância da mentoria estruturada também para pesquisadores em fase de titularidade.
As autoras ressaltam que as recomendações não constituem uma lista exaustiva e precisam ser adaptadas às diferenças entre disciplinas e contextos institucionais.
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