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O que dificulta a vida de pesquisadores interdisciplinares nas universidades
Estudo australiano associa trajetórias interdisciplinares a contratos temporários, progressão lenta e remuneração inferior
Pesquisadores que transitam entre disciplinas enfrentam contratos instáveis e pouco reconhecimento institucional, mesmo quando as universidades dizem valorizar a interdisciplinaridade | Imagem: gerada por IA
A carreira acadêmica costuma seguir um percurso previsível, com variações conforme a área de atuação: fazer o doutorado, publicar em revistas de impacto, ser citado por pares e, no melhor dos cenários, conquistar uma vaga permanente.
Quem opta pela pesquisa interdisciplinar, porém, encontra um caminho mais instável, já que boa parte das publicações ainda se organiza por disciplina e as instituições nem sempre apoiam quem tenta cruzar fronteiras.
Um estudo conduzido na Austrália investigou como pesquisadores em início e meio de carreira (early and mid-career researchers, na sigla EMCRs), constroem trajetórias interdisciplinares e como as universidades favorecem ou dificultam esse processo.
Um estudo de seis anos em dois institutos australianos
Os autores definem os EMCRs como um grupo amplo, que vai de candidatos ao doutorado a pesquisadores com até dez anos de experiência no pós-doutorado.
Os dados foram coletados em dois institutos australianos ao longo de seis anos, por meio de entrevistas com 27 EMCRs, dezenas de acadêmicos seniores, gestores e líderes universitários, além da observação de reuniões e workshops.
Os achados se organizam em dez temas, distribuídos em três dimensões (cognitiva, organizacional e comunitária), que vão da busca por propósito intelectual à dificuldade de pertencer a uma nova área.
As três dimensões da trajetória interdisciplinar
1. Cognitiva: as motivações intelectuais que sustentam a escolha — senso de propósito, curiosidade e desejo de gerar impacto real.
2. Organizacional: as condições institucionais e materiais da carreira, como contratos, progressão e remuneração.
3. Comunitária: o pertencimento — a dificuldade de ser reconhecido e de encontrar lugar em uma área nova.
Entre as três dimensões, o obstáculo mais apontado é o desequilíbrio entre o risco assumido pelo pesquisador e aquele que a instituição banca.
Ele se manifesta sobretudo nas condições materiais: contratos temporários, progressão mais lenta e situações atípicas que o sistema de pesquisa não sabe avaliar nem remunerar de forma justa.
Um caso citado no artigo ilustra o problema: à frente de um projeto que captou financiamento expressivo, uma pesquisadora não contestou as condições oferecidas porque não sabia que podia. Só depois percebeu o quanto sua remuneração ficava abaixo da de colegas com menos responsabilidade.
Para as mulheres, há uma camada adicional. Elas relataram ser confundidas com estudantes e ter a autoridade questionada de forma sistemática.
Motivações intelectuais sustentam a escolha
Apesar dos custos, as razões mais fortes para seguir na pesquisa interdisciplinar são intelectuais: o senso de propósito, a curiosidade e a vontade de causar impacto real. Mentores, colegas e equipe também foram decisivos, sobretudo para quem ainda tentava entender as regras do jogo.
O problema, segundo o estudo, é que essas regras mudam pouco. Em todas as dimensões analisadas, os autores identificaram um desalinhamento entre a aspiração institucional de promover a interdisciplinaridade e as ações concretas para sustentá-la.
Para corrigir esse desalinhamento, o artigo defende redistribuir o risco entre pesquisadores e instituições, com medidas como financiamento inicial (seed funding) para projetos interdisciplinares, iniciativas transinstitucionais e processos mais colaborativos de candidatura a editais.
A oposição entre carreira disciplinar e interdisciplinar, sugerem os autores, pode ser uma falsa dicotomia: a maioria dos pesquisadores não abandonou a disciplina de origem, apenas acrescentou outra a ela.
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