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25.06.2026 Formação

Jovens pesquisadores enfrentam mais pressão para permanecer na ciência

Levantamento do Nature Index mostra menor autonomia, maior risco de deixar a pesquisa e diferenças geracionais sobre impacto e acesso aberto

Mulher jovem de perfil em ambiente escuro aponta para tela grande e iluminada exibindo imagem detalhada da superfície da Lua; veste camiseta escura com estampas de fórmulas matemáticas A relação dos pesquisadores com a ciência é moldada não só pela curiosidade, mas por pressões de financiamento, métricas de impacto e incertezas de carreira, aponta o levantamento | Imagem: Unsplash

A Nature Research Intelligence, unidade da editora Springer Nature responsável pela gestão da base de dados Nature Index, divulgou em abril de 2026 os resultados de um levantamento com mais de 6 mil autores que publicaram, desde 2020, artigos em periódicos rastreados pelo Nature Index, base que monitora produções científicas em revistas de alto impacto nas ciências naturais e da saúde. 

Denominado Research Leaders Survey, o estudo mapeou como cientistas bem-sucedidos avaliam o panorama atual da pesquisa, das métricas de impacto às condições de carreira.

Os dados mostram que pesquisadores em início de carreira enfrentam condições bem distintas das de seus colegas mais seniores. Em relação à autonomia, 27% dos que publicaram de um a cinco artigos relataram que a instituição determina completamente ou fortemente o rumo de suas pesquisas – proporção que cai para 15% entre os com mais de cem publicações. 

A influência dos financiadores segue padrão semelhante: 37% dos menos experientes relataram forte controle de agências de fomento, ante 30% dos mais seniores.

Esse cenário tem consequências visíveis nas intenções de carreira. Entre os respondentes com até cinco publicações, 22% disseram ser provável ou muito provável que deixem a pesquisa nos próximos anos – proporção que cai progressivamente a 17%, 16%, 12% e 9% conforme aumenta a experiência. 

As diferenças são também regionais: na Europa e na América do Norte, 18% dos respondentes disseram que provavelmente deixarão a pesquisa, ante apenas 7% na África e América do Sul e 10% na Ásia e Oceania. 

Para analistas do setor, o dado reflete tanto a maior disponibilidade de alternativas fora da academia nos países mais ricos quanto a ausência delas nos demais.

Quando perguntados sobre os três fatores que mais contribuem para o impacto acadêmico de um artigo, a resposta mais frequente dos participantes foi “achados novos, originais e inovadores” (84%), seguida por pesquisa “metodologicamente robusta e rigorosa” (70%). 

A confirmação ou reprodução de resultados anteriores foi o fator menos citado (15%), apesar de seu papel central na validação do conhecimento científico. 

Para muitos pesquisadores, a publicação de novidades ainda está mais associada ao reconhecimento acadêmico do que a verificação de achados já divulgados.

Aqui, novamente, a experiência faz diferença. Entre os mais seniores, quase metade apontou a publicação em revistas de alto impacto como fator central; entre os menos experientes, esse número ficou abaixo de um terço.

Em compensação, pesquisadores em início de carreira tendem a valorizar mais o acesso aberto. O psicólogo Marcus Munafò, vice-reitor da Universidade de Bath, no Reino Unido, e participante do levantamento, interpreta o padrão como sinal de uma mudança geracional.

Segundo Munafò, se os pesquisadores mais jovens mantiverem essas preferências ao longo da carreira, isso “poderia levar a uma real mudança cultural” na forma como a qualidade científica é avaliada. 

Diferenças geográficas acompanham a mesma lógica: na Ásia, na África e na América do Sul, os respondentes tendem a dar mais peso a periódicos de alto impacto do que os da América do Norte e da Europa, onde o acesso aberto é mais valorizado.

Financiamento em queda, com desigualdades disciplinares

O tema do financiamento emerge como a principal preocupação transversal do levantamento do Nature Index. A percepção dominante é que os recursos para pesquisa de ponta estão em declínio, e o pessimismo é mais agudo na América do Norte, onde 69% dos respondentes relataram queda no financiamento para sua área nos últimos anos. 

O levantamento foi realizado em meados de 2025, quando as ameaças de cortes federais nos Estados Unidos, sob a administração do presidente Donald Trump, estavam em seu auge. O Congresso dos EUA buscou posteriormente conter as reduções, rejeitando parte dos cortes solicitados para 2026. 

Na Europa, África e América do Sul, cerca de metade dos respondentes também relatou declínio. Na Ásia e Oceania, a percepção é mais heterogênea: 40% relataram queda, mas cerca de um terço viu aumentos.

Por área disciplinar, os contrastes são marcantes. Nas ciências da saúde, 58% apontaram queda no financiamento, ante apenas 19% que relataram aumento. Nas humanidades e ciências sociais, 56% viram declínio e apenas 13%, crescimento. 

Nas ciências aplicadas, o quadro é ligeiramente mais favorável: 32% relataram crescimento, ainda que 42% tenham apontado declínio, o que pode refletir o interesse crescente do investimento privado em áreas como energia limpa, tecnologias climáticas e semicondutores. 

Para pesquisadores como Evelyn Gitau, diretora científica da Science for Africa Foundation (Nairóbi, Quênia), o impacto é especialmente severo nos países de baixa e média renda: em 2024, pela primeira vez em quase 30 anos, França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos cortaram simultaneamente seus orçamentos de assistência ao desenvolvimento, reduzindo recursos destinados a pesquisas sobre tuberculose, HIV e outras doenças de alta carga na região.

No conjunto, os dados sobre impacto, autonomia, intenção de carreira e financiamento apontam para problemas que frequentemente são tratados como experiências individuais de jovens cientistas, mas que aparecem, na percepção dos próprios pesquisadores, como estruturais ao sistema científico contemporâneo e que colocam em questão como equilibrar as demandas imediatas com o tipo de investigação de longo prazo que tende a produzir os avanços mais transformadores.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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