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08.05.2026 Comunicação

Policy brief: como transformar pesquisa científica em decisão pública

Documento curto ajuda pesquisadores a traduzir evidências em recomendações para gestores, parlamentares e autoridades públicas

Quatro profissionais em traje social reúnem-se ao redor de uma mesa de escritório. Um homem de terno cinza e gravata preta está de pé, inclinado sobre a mesa, segurando uma caneta e falando. Uma mulher de blazer azul-marinho e óculos o observa atentamente. Outros dois profissionais — uma mulher de costas com cabelo claro e um homem de blazer azul claro — completam o grupo. O ambiente é um escritório moderno e iluminado, com janelas amplas ao fundo. O policy brief traduz evidências científicas em recomendações acessíveis para tomadores de decisão | Imagem: Unsplash

Os achados de uma pesquisa científica podem chegar às mãos de tomadores de decisão e influenciar a formulação de políticas públicas. Essa, no entanto, é uma descrição simplificada de um ciclo que raramente se fecha sem atritos.

No tempo entre a concepção do estudo e sua publicação, o problema que motivou a pesquisa pode ter saído da agenda, o orçamento foi redirecionado ou o gestor é outro. Se por acaso nada disso aconteceu e o paper chegou à mesa de quem decide, ainda há a competição pela atenção dessa pessoa e a articulação política capaz de implementar políticas baseadas em evidências.

Os tempos da ciência e da política são distintos, mas os chamados policy briefs tentam encontrar um ponto de encontro entre ambos. São documentos curtos que apresentam recomendações claras sobre temas de interesse público

O destinatário não é a comunidade científica, mas tomadores de decisão: gestores, parlamentares, reguladores e dirigentes de organismos internacionais.

Mais do que informar, o objetivo é persuadir e orientar a ação. Enquanto o artigo científico foi construído para resistir ao crivo dos pares, o policy brief foi construído para ser lido em pouco tempo e influenciar uma decisão.

O erro mais comum de pesquisadores que tentam fazer essa transição é tratar o formato como um resumo do paper — isto é, condensar o estudo em poucas páginas, com a mesma linguagem acadêmica, sem prepará-lo para o leitor desejado.

Jakov Bojovic e Imogen Bayley, fundadores do Centre for Policy Writing (CEPOW), em Madri (Espanha), mapeiam três obstáculos no livro Policy communications: how to write an effective policy brief. Primeiro: tomadores de decisão sobrecarregados de informação; segundo, uma disputa em que a pesquisa concorre com opinião pública, clima econômico e interesses de grupos; por último, o gap entre produzir ciência rigorosa e saber comunicá-la.

A partir desse diagnóstico, eles e outros especialistas, incluindo orientações do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no Brasil, e da literatura internacional sobre o tema, oferecem um conjunto de orientações práticas para quem quer influenciar políticas com evidências.

Como escrever um policy brief eficaz

1. Escreva para persuadir, não para informar.

O policy brief não é um resumo de pesquisa — é um argumento com recomendações. Os dados sustentam a história, mas não são a história.

2. Defina o público antes de escrever qualquer coisa.

Quem vai ler determina tom, linguagem e o que recomendar. Um gestor municipal tem demandas diferentes das de um ministério federal ou de uma agência internacional.

3. Entre cedo no processo político.

O desafio do pesquisador é fazer sua posição ser considerada o mais cedo possível no ciclo de formulação de políticas. O timing importa tanto quanto o conteúdo.

4. Use linguagem simples e voz ativa.

Frases curtas, sem jargão, sem tom acadêmico. Evite termos técnicos e palavras estrangeiras desnecessárias.

5. O documento precisa ser lido no tempo de um café.

Pesquisas sobre atenção de tomadores de decisão indicam que 5 a 10 minutos já é considerado um sucesso de engajamento com uma publicação de política pública. Adapte o documento a esse ritmo de leitura.

6. Seja específico e realista nas recomendações.

Uma recomendação principal é o ideal. Se houver mais de uma, cite no máximo três. Propostas vagas ou politicamente inviáveis não geram resultado.

O caso da pandemia de Covid-19

Um exemplo de como o formato pode funcionar na prática vem da pandemia de Covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma série de policy briefs sobre uso de máscaras, transmissão do vírus em ambientes fechados e estratégias de vacinação — documentos de quatro a oito páginas, direcionados a governos nacionais e autoridades de saúde, com recomendações específicas baseadas nas evidências disponíveis naquele momento.

Em um contexto de decisões urgentes e informação fragmentada, o formato mostrou sua utilidade: síntese rápida, recomendação clara e fonte identificável.

Os policy briefs da OMS serviram de referência para inúmeras decisões nacionais sobre isolamento, reabertura de escolas e protocolos hospitalares — um exemplo raro de ciência chegando à política em tempo real.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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