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“A saúde é uma ótima interseção quando queremos fazer pesquisa, mas não ficar só na teoria”
Pesquisadora do Einstein Hospital Israelita analisa o SUS, apoia pesquisas clínicas e formula políticas públicas a partir de uma formação em administração
"A saúde é uma ótima interseção quando a gente quer fazer pesquisa, mas não quer ficar só na teoria", diz Marina Martins Siqueira, pesquisadora do Einstein Hospital Israelita | Imagem: Arquivo pessoal
Fazer pesquisa em saúde pública sem ser profissional da área exige equilíbrio. É preciso entender o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), dialogar com médicos, interpretar dados públicos e, ao mesmo tempo, evitar que a análise se torne excessivamente teórica ou desconectada da prática.
Foi nesse espaço entre dois universos que Marina Martins Siqueira, pesquisadora do Einstein Hospital Israelita, construiu sua trajetória. Formada em administração pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), ela não planejava trabalhar com políticas públicas em saúde.
O percurso foi sendo moldado a partir do interesse pela pesquisa acadêmica e da tentativa de compreender sistemas complexos.
“Apesar de me definir hoje mais como especialista e pesquisadora em políticas públicas, sei que a minha história em administração está completamente vinculada com o que eu faço.”
O primeiro contato com a saúde veio ainda no mestrado, na Escola de Negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao se aproximar de docentes que pesquisavam saúde, Siqueira encontrou um campo em que a pesquisa não se limitava à teoria.
“Quando a gente quer fazer pesquisa, mas não quer ficar só na teoria, a saúde é uma ótima interseção”, explica.
O tema escolhido para o mestrado foi doação e transplante de órgãos. À primeira vista, um recorte bastante específico. Na prática, um sistema que depende de coordenação rigorosa e fluxos bem definidos, e que lida com escassez de recursos e decisões regulatórias.
A logística — sua ênfase inicial — estava presente, mas aplicada a um ambiente complexo e com impacto direto na vida das pessoas.
Na academia, ela combinou revisão teórica, análise documental, entrevistas e avaliação quantitativa de eficiência para entender como o sistema de transplantes funciona e onde poderia melhorar.
Foi nesse ponto que surgiu um dos principais desafios de transitar entre as duas áreas. Sem formação médica, ela precisava compreender a prática clínica sem ter vivido a rotina hospitalar.
Para isso, contou com a parceria de colegas da área médica — em especial, um médico intensivista que trabalhava com transplantes.
“Tê-lo próximo me ajudou muito, porque ele não tinha essa bagagem acadêmica e teórica que eu tinha, mas tinha 100% a parte prática assistencial”, explica Siqueira.
Do mestrado ao Banco Mundial: uma trajetória entre academia e política

Do mestrado, Siqueira seguiu diretamente para o doutorado, também no Instituto COPPEAD de Administração da UFRJ, onde obteve o título de doutora em administração (D.Sc.) em 2020, com tese sobre a avaliação de desempenho dos serviços de doação e transplante de órgãos no Brasil.
Durante o período, passou um ano na Duke University, nos Estados Unidos. No último ano do doutorado, atuou como consultora de curto prazo em projetos do Banco Mundial, em ritmo mais acelerado e com foco em responder perguntas específicas sobre diferentes países.
O trabalho exigia levantamento de literatura, análise de dados e de legislação, mas com prazos e objetivos definidos de forma mais pragmática.
Em seguida, teve uma passagem pelo Instituto de Estudos em Políticas de Saúde (IEPS), em São Paulo, onde aprofundou a análise de sistemas e a interlocução com gestores.
A experiência consolidou uma preocupação que ela mantém até hoje: evitar que a pesquisa se torne extremamente abstrata.
“A maior dificuldade é transpor a dimensão empírica para o desenho do estudo, de forma a oferecer informações úteis para quem está na ponta ou para gestores públicos.”
A criação do CEPPS no Einstein
Em 2022, a pesquisadora ingressou no Einstein Hospital Israelita para ajudar a criar um núcleo voltado a políticas públicas.
“A ideia era criar um think tank, um centro de pesquisa focado em políticas públicas dentro do Einstein”, conta Siqueira. “A gente entrou para desenhar esse centro, o que ele seria, quais seriam as nossas atividades. Era tudo muito novo.”
O Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS) do Einstein passou a atuar tanto no apoio à pesquisa clínica quanto na análise de dados públicos.
O trabalho envolve mapear a organização do SUS, avaliar a distribuição de procedimentos e recursos e ajudar médicos interessados em transformar sua experiência prática em pesquisa estruturada.
“Ao apoiar e estimular a pesquisa clínica dentro do Einstein, juntamos a bagagem acadêmica de toda a nossa trajetória com um conhecimento empírico que só o especialista, o médico, o cirurgião — só quem está na ponta — consegue trazer.”
Produções que vão além dos artigos científicos
A atuação do CEPPS não se limita à produção de artigos científicos. O modelo adotado permite produzir diferentes tipos de conteúdo, conforme o público e o objetivo: relatórios institucionais, análises para gestores e publicações revisadas por pares.
Há também um esforço de tradução do conhecimento, com materiais em formatos mais acessíveis.
Entre as produções recentes do grupo, três pesquisas ilustram a amplitude do trabalho:
- Um estudo sobre internações por infecções congênitas no SUS entre 2008 e 2024, publicado na revista Antimicrobial Stewardship & Healthcare Epidemiology, identificou 194 mil hospitalizações de crianças com menos de 12 meses, com aumento expressivo de casos de sífilis congênita, desigualdades regionais persistentes e lacunas na coordenação do cuidado materno-infantil;
- Uma análise da qualidade dos dados cirúrgicos nos sistemas ambulatorial e hospitalar do SUS, publicada nos Cadernos Gestão Pública e Cidadania (FGV), evidenciou que, em 2023, 76,6% dos 20,9 milhões de cirurgias ambulatoriais foram registrados sem código CID-10, com problemas de completude e especificidade que impactam a gestão das redes de atenção;
- Uma pesquisa sobre mortalidade no tratamento cirúrgico do câncer colorretal, publicada em março de 2026 no ANZ Journal of Surgery, analisou internações em hospitais públicos de São Paulo entre 2000 e 2023, revelando que a idade e o tipo de internação (urgência vs. eletiva) são os principais fatores preditivos de óbito.
Paralelamente à pesquisa, Siqueira passou a atuar no ensino. Coordena atividades em cursos de pós-graduação e, desde 2024, é professora assistente na graduação em Administração do Einstein, na disciplina de políticas públicas.
Orienta alunos de iniciação científica e mantém o diálogo entre teoria, dados e prática institucional.
Hoje, Siqueira não atua mais como administradora, mas considera que a formação generalista foi decisiva para lidar com sistemas complexos, múltiplos atores e decisões que atravessam diferentes áreas.
O percurso não foi planejado nos detalhes. “Uma coisa foi puxando a outra e eu fui gostando muito, me envolvendo muito.”
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