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Hierarquias travam o avanço da ciência em ambientes hospitalares
Quando o prestígio vale mais do que evidências, práticas desatualizadas persistem — e profissionais inovadores se afastam do sistema
“Ainda tratamos o médico-pesquisador como exceção, não como parte essencial do sistema de saúde”, diz Beatriz Barreto-Duarte, médica e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia | Imagem: Pexels
Em muitos ambientes hospitalares, a ciência ainda não é o principal critério para o desenvolvimento de projetos na área. No lugar da evidência, quem costuma ditar as decisões é o prestígio, e essa dinâmica tem custos concretos para a saúde pública.
A médica e pesquisadora Beatriz Barreto-Duarte, do Laboratório de Pesquisa Clínica e Translacional da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia, identificou esse padrão ao longo de sua trajetória. Em entrevista ao Science Arena, ela contextualizou o problema: “Ainda tratamos o médico-pesquisador como exceção, não como parte essencial do sistema de saúde.”
Quando o prestígio substitui a evidência
Segundo Barreto-Duarte, a medicina guiada por hierarquias ocorre quando decisões clínicas ou políticas de saúde são tomadas com base no renome de quem fala, não na robustez do que foi estudado. O resultado: práticas sem sustentação científica continuam em vigor, ancoradas pela tradição.
“Essa cultura faz com que práticas desatualizadas persistam simplesmente porque ‘sempre foi assim’, e cria um ambiente em que questionar é visto como afronta”, explicou.
“A verdadeira liderança em ciência e em medicina não deveria ser sobre quem fala mais alto, mas sobre quem busca as melhores respostas para cuidar melhor das pessoas”
O peso do modelo tradicional sobre propostas inovadoras
Médicos-cientistas têm uma posição privilegiada para traduzir dados de pesquisa em melhorias no atendimento ao paciente. Mas, quando o ambiente de trabalho prioriza a tradição, apresentar propostas novas, mesmo com base em evidências sólidas, pode ser um exercício de frustração.
O peso é ainda maior para as mulheres, como explicou Barreto-Duarte ao Science Arena.
“Acredito que autoridade e experiência são extremamente valiosas, mas elas precisam caminhar junto com a atualização constante e o compromisso com a evidência”, destacou.
Por que isso afasta talentos do sistema
Para a pesquisadora, o modelo hierárquico tem um efeito colateral sério: afasta do sistema público exatamente os profissionais mais capazes de contribuir com inovação. Ao não encontrar espaço para propostas embasadas, médicos-cientistas buscam ambientes mais receptivos — geralmente fora do setor público, e muitas vezes fora do país.
O problema, portanto, não é apenas cultural. É também estrutural: um sistema que não reconhece o valor da evidência como critério de decisão perde capital humano que levou décadas para ser formado.
Para ler o conteúdo completo sobre as dificuldades na carreira de médicos-cientistas no Brasil, acesse a entrevista com Beatriz Barreto-Duarte no Science Arena.
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