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21.07.2026 Ambiente

Coexistir ou não (co)existir: eis a questão

Em um mundo marcado por crises ambientais e desinformação, a convivência entre diferentes saberes e visões de mundo se mostra indispensável diante dos desafios globais

Sirfídeo (mosca-das-flores) pousado sobre capítulo de flor roxa, sugando néctar com a probóscide, asas transparentes abertas, corpo listrado em preto e amarelo, fundo verde desfocado. O desafio da coexistência se move para uma nova fronteira: o ecossistema do debate público e da ciência | Imagem: Unsplash

A célebre dúvida hamletiana sem reposta definitiva ganha contornos de urgência existencial no século XXI e sob nova perspectiva. 

Não se trata mais apenas de indagar sobre o ser ou não ser individual, mas de responder se seremos capazes de compartilhar o mesmo espaço-tempo sem nos anularmos mutuamente. 

Isso vale para muitos aspectos cotidianos, tanto para a biosfera quanto para a própria produção do conhecimento científico e – por que não dizer? – entre indivíduos da nossa própria espécie.

No tecido social contemporâneo, a ideia de coexistência deixou de ser uma virtude moral acessória para se tornar uma condição imperativa de sobrevivência. 

Na ecologia, a coexistência define o equilíbrio dinâmico e, muitas vezes, tenso, em que diferentes espécies compartilham recursos limitados, sem que uma cause a extinção da outra. 

Transposto para a geopolítica do século XX, o termo ganhou o complemento “pacífica” para descrever a busca por um denominador comum que evitasse a destruição mútua total durante a Guerra Fria. 

Hoje, o desafio da coexistência se move para uma nova fronteira: o ecossistema do debate público e da ciência.

Coexistência natural 

O ecologista Peter Chesson, da Universidade do Arizona, nos ajuda a compreender que a coexistência não é sinônimo de harmonia estática, mas de equilíbrio dinâmico

Estudos clássicos sobre manutenção da diversidade mostram que diferentes espécies conseguem persistir em uma mesma comunidade quando existem mecanismos que reduzem a exclusão competitiva e favorecem algum grau de diferenciação, alternância, adaptação ou complementaridade. 

Em outras palavras, coexistir não significa ocupar o mesmo lugar da mesma forma, mas encontrar modos de permanecer em relação, mesmo diante de recursos limitados, tensões e assimetrias. 

E já sabemos que a perda da biodiversidade e o desequilíbrio que vem sendo imposto aos ecossistemas pela desconexão humana da natureza tem custado muito caro à saúde das pessoas.

Por outro lado, o paradoxo da hiperconectividade atual é que, ao mesmo tempo em que fomos aproximados digitalmente, fomos fragmentados em bolhas ideológicas.

Diante da complexidade de crises globais, das emergências climáticas às pandemias, a resposta humana tem flertado perigosamente com o isolamento e a intolerância, como se a complexidade do real pudesse ser domada pela recusa do Outro. 

Quando visões de mundo divergentes recusam o diálogo, o conhecimento científico é reduzido a um mero instrumento de disputa política.

Com isso, o “Outro” passa a ser enxergado não como um interlocutor legítimo, mas como uma ameaça a ser extirpada.

Saberes compartilhados

Pequeno pássaro pousado sobre a mão de uma pessoa, com uma paisagem silvestre em um ambiente natural ao fundo
O equilíbrio entre ser humano e natureza ilustra a coexistência como princípio essencial para a preservação da vida e a construção de sociedades mais resilientes | Imagem: Lis Leão

Para as ciências e a saúde global, a coexistência se desdobra em duas dimensões vitais.

A primeira é interna: a coexistência entre saberes. Os desafios do nosso tempo são complexos demais para serem solucionados por uma única disciplina. A interdisciplinaridade é a tônica. As ciências da saúde precisam das ciências humanas; a ecologia necessita da economia; a tecnologia demanda a ética. 

Promover essa requerida interdisciplinaridade é exercitar a coexistência dentro dos laboratórios, dos grupos de pesquisa, das universidades e dos serviços de saúde, reconhecendo que a pluralidade de saberes enriquece o diagnóstico da realidade.

A segunda dimensão é externa: diz respeito à relação entre a ciência e a sociedade. O avanço do negacionismo e da desinformação não será combatido com arrogância intelectual ou com o isolamento acadêmico que conversa apenas intramuros. 

Exige, pelo contrário, o exercício da alteridade e da escuta ativa

Cientistas e pesquisadores precisam coexistir e dialogar com outras formas de conhecimento, com as necessidades das comunidades locais e com as dúvidas legítimas de uma população frequentemente bombardeada, hoje, por ruídos digitais. 

Coexistir, nesse cenário, significa construir pontes de linguagem acessível e empatia, validando a ciência como um patrimônio coletivo e democrático

Uma luz no fim do túnel, que reverbere esperança em um mundo melhor, mais equitativo, sem distinção entre os seres que coabitam esse tempo e espaço conosco. Portanto, a provocação que o título nos faz não aceita neutralidade. 

A recusa em coexistir, seja entre disciplinas, entre culturas ou entre a razão e a sociedade plural, nos empurra para o esvaziamento do debate público e, no limite, para o colapso socioecológico

Futuro Comum 

Acolher o diferente, ampliar o olhar e reconhecer a necessidade da coexistência e das relações de interdependência, que parcela significativa da população mundial ainda ignora. O mundo é simultaneamente múltiplo, contraditório e relacional.

Guimarães Rosa parecia intuir isso ao escrever que “tudo é e não é”. E talvez aí resida a permanência da dúvida hamletiana: não existe resposta definitiva para o ser no mundo. 

Existe apenas a travessia inquieta de aprender a existir com o Outro, com as diferenças, com as contradições e com a complexidade que sustenta a própria vida.

Escolher a coexistência não significa buscar um consenso artificial ou a ausência de conflitos, mas sim, aprender a gerenciar as nossas divergências com responsabilidade ética e respeito mútuo. 

Porque, se já não formos capazes de coexistir nas diferenças, o destino que nos aguarda, ironicamente, será o de não mais existir.

Os artigos e vídeos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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