#Colunas
Coexistir ou não (co)existir: eis a questão
Em um mundo marcado por crises ambientais e desinformação, a convivência entre diferentes saberes e visões de mundo se mostra indispensável diante dos desafios globais
O desafio da coexistência se move para uma nova fronteira: o ecossistema do debate público e da ciência | Imagem: Unsplash
A célebre dúvida hamletiana sem reposta definitiva ganha contornos de urgência existencial no século XXI e sob nova perspectiva.
Não se trata mais apenas de indagar sobre o ser ou não ser individual, mas de responder se seremos capazes de compartilhar o mesmo espaço-tempo sem nos anularmos mutuamente.
Isso vale para muitos aspectos cotidianos, tanto para a biosfera quanto para a própria produção do conhecimento científico e – por que não dizer? – entre indivíduos da nossa própria espécie.
No tecido social contemporâneo, a ideia de coexistência deixou de ser uma virtude moral acessória para se tornar uma condição imperativa de sobrevivência.
Na ecologia, a coexistência define o equilíbrio dinâmico e, muitas vezes, tenso, em que diferentes espécies compartilham recursos limitados, sem que uma cause a extinção da outra.
Transposto para a geopolítica do século XX, o termo ganhou o complemento “pacífica” para descrever a busca por um denominador comum que evitasse a destruição mútua total durante a Guerra Fria.
Hoje, o desafio da coexistência se move para uma nova fronteira: o ecossistema do debate público e da ciência.
Coexistência natural
O ecologista Peter Chesson, da Universidade do Arizona, nos ajuda a compreender que a coexistência não é sinônimo de harmonia estática, mas de equilíbrio dinâmico.
Estudos clássicos sobre manutenção da diversidade mostram que diferentes espécies conseguem persistir em uma mesma comunidade quando existem mecanismos que reduzem a exclusão competitiva e favorecem algum grau de diferenciação, alternância, adaptação ou complementaridade.
Em outras palavras, coexistir não significa ocupar o mesmo lugar da mesma forma, mas encontrar modos de permanecer em relação, mesmo diante de recursos limitados, tensões e assimetrias.
E já sabemos que a perda da biodiversidade e o desequilíbrio que vem sendo imposto aos ecossistemas pela desconexão humana da natureza tem custado muito caro à saúde das pessoas.
Por outro lado, o paradoxo da hiperconectividade atual é que, ao mesmo tempo em que fomos aproximados digitalmente, fomos fragmentados em bolhas ideológicas.
Diante da complexidade de crises globais, das emergências climáticas às pandemias, a resposta humana tem flertado perigosamente com o isolamento e a intolerância, como se a complexidade do real pudesse ser domada pela recusa do Outro.
Quando visões de mundo divergentes recusam o diálogo, o conhecimento científico é reduzido a um mero instrumento de disputa política.
Com isso, o “Outro” passa a ser enxergado não como um interlocutor legítimo, mas como uma ameaça a ser extirpada.
Saberes compartilhados

Para as ciências e a saúde global, a coexistência se desdobra em duas dimensões vitais.
A primeira é interna: a coexistência entre saberes. Os desafios do nosso tempo são complexos demais para serem solucionados por uma única disciplina. A interdisciplinaridade é a tônica. As ciências da saúde precisam das ciências humanas; a ecologia necessita da economia; a tecnologia demanda a ética.
Promover essa requerida interdisciplinaridade é exercitar a coexistência dentro dos laboratórios, dos grupos de pesquisa, das universidades e dos serviços de saúde, reconhecendo que a pluralidade de saberes enriquece o diagnóstico da realidade.
A segunda dimensão é externa: diz respeito à relação entre a ciência e a sociedade. O avanço do negacionismo e da desinformação não será combatido com arrogância intelectual ou com o isolamento acadêmico que conversa apenas intramuros.
Exige, pelo contrário, o exercício da alteridade e da escuta ativa.
Cientistas e pesquisadores precisam coexistir e dialogar com outras formas de conhecimento, com as necessidades das comunidades locais e com as dúvidas legítimas de uma população frequentemente bombardeada, hoje, por ruídos digitais.
Coexistir, nesse cenário, significa construir pontes de linguagem acessível e empatia, validando a ciência como um patrimônio coletivo e democrático.
Uma luz no fim do túnel, que reverbere esperança em um mundo melhor, mais equitativo, sem distinção entre os seres que coabitam esse tempo e espaço conosco. Portanto, a provocação que o título nos faz não aceita neutralidade.
A recusa em coexistir, seja entre disciplinas, entre culturas ou entre a razão e a sociedade plural, nos empurra para o esvaziamento do debate público e, no limite, para o colapso socioecológico.
Futuro Comum
Acolher o diferente, ampliar o olhar e reconhecer a necessidade da coexistência e das relações de interdependência, que parcela significativa da população mundial ainda ignora. O mundo é simultaneamente múltiplo, contraditório e relacional.
Guimarães Rosa parecia intuir isso ao escrever que “tudo é e não é”. E talvez aí resida a permanência da dúvida hamletiana: não existe resposta definitiva para o ser no mundo.
Existe apenas a travessia inquieta de aprender a existir com o Outro, com as diferenças, com as contradições e com a complexidade que sustenta a própria vida.
Escolher a coexistência não significa buscar um consenso artificial ou a ausência de conflitos, mas sim, aprender a gerenciar as nossas divergências com responsabilidade ética e respeito mútuo.
Porque, se já não formos capazes de coexistir nas diferenças, o destino que nos aguarda, ironicamente, será o de não mais existir.
Os artigos e vídeos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.
*
É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).