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Desafios da Saúde Global e seus impactos em inovação e equidade

Proposta de financiamento voltado ao desenvolvimento de vacinas, diagnósticos e terapias acessíveis busca posicionar o Sul Global no centro da inovação em saúde

Profissional da saúde prepara uma seringa com dose de vacina ou medicamento injetável, em imagem que remete à imunização e ao cuidado em saúde. Pesquisa, desenvolvimento e inovação para a produção de vacinas e novos fármacos em diferentes países são oportunidade para o protagonismo do Sul Global em saúde e medicina| Imagem: Shutterstock

A inovação em tecnologias de saúde ainda é amplamente impulsionada por países de alta renda, o que significa que tecnologias capazes de salvar vidas chegam muito mais tarde aos países de baixa e média rendas. 

No Sul Global, observo que os esforços de pesquisa e desenvolvimento também costumam carecer de financiamento contínuo, fazendo com que ideias promissoras parem antes de avançar para estágios finais de desenvolvimento ou fabricação.

Apenas 10% da pesquisa em ciências da saúde é direcionada aos problemas que afetam 90% da população mundial — a chamada lacuna 10/90. Esse desequilíbrio é um dos indicadores mais claros das profundas disparidades em saúde e capacidade de cuidado entre países ricos e pobres. (Fonte: OECD, G-Finder)

Além disso, vejo que a falta de planejamento estratégico, de investimento privado e de parcerias sólidas agravam ainda mais esses desafios. 

Como consequência, muitos países permanecem dependentes de fornecedores externos e altamente vulneráveis durante emergências de saúde — uma fragilidade que a pandemia de covid-19 deixou dolorosamente evidente.

Inovação aberta 

Durante a Rio Innovation Week (RIW), em agosto de 2025, ao lado do Instituto Internacional de Vacinas (IVI), órgão das Nações Unidas sediado em Seul, na Coreia do Sul, apresentei uma proposta para acelerar a inovação aberta em saúde, com o Brasil como protagonista e na liderança de pesquisas.

Essa proposta se desdobrou na assinatura, em março de 2026, de uma carta de intenções entre o Brasil e o IVI para a criação do Fundo BRIGHT (Bridging Research Investment in Global Health Technology), voltado ao Sul Global. O governo da Indonésia assinou a carta de intenções na sequência, em abril de 2026.

A ideia lançada no RIW, no painel “Além Fronteiras: Como a Vacinação Transforma Sociedades”, apresentou uma proposta inédita no Brasil para a criação de um Fundo de Tecnologia Inovadora em Saúde. Como cientista dedicada à área de vacinas, tive a oportunidade de apresentar essa iniciativa ao lado de Jerome Kim, diretor-geral do IVI.

No debate, mostrei que, em um contexto de alta competitividade do mercado, a inovação aberta (Open Innovation) pode quebrar paradigmas, sendo considerada uma tendência mundial.

Em um momento de crise na Saúde Global e cortes significativos de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, essa crise pode ser transformada em oportunidade por meio da liderança e inovação — e acredito que essa liderança possa vir do Brasil.

A proposta é fundamentada em experiências comprovadas por Fundos de Tecnologia Inovadora em Saúde, que tiveram seu pioneirismo na Ásia há mais de uma década, com claros desfechos para a população global, resultando em produtos registrados e distribuídos à população que mais necessita, com preços acessíveis. Esse modelo assegura acesso e equidade.

Estratégia em Saúde

Como exemplo, cito os pioneiros GHIT (Global Health Innovation and Technology Fund), do Japão — do qual sou membro permanente do conselho científico — e o RIGHT (Research Investment for Global Health Technology Foundation), da Coreia do Sul, onde o IVI colabora. 

O objetivo é alavancar o desenvolvimento de testes diagnósticos, vacinas, medicamentos e inovação em saúde digital no país-sede e nos parceiros dos projetos que recebem fomento.

O conceito dos fundos GHIT, criado em 2013, e RIGHT, criado em 2018, baseia-se em uma parceria entre governo, filantropia e parceiros privados. 

O RIGHT, por exemplo, reúne o Ministério da Saúde e Bem-Estar da Coreia do Sul, a Fundação Gates e a indústria coreana de ciências da vida, em uma articulação facilitada pelo IVI. 

Esse consórcio já agilizou mais de US$ 200 milhões, fomentou a colaboração entre mais de 20 países e avançou em tecnologias críticas para países de baixa e média rendas, estratégia que colaborou para posicionar a Coreia do Sul como um dos líderes globais em inovação em saúde.

Plataforma com liderança do Sul Global

O Fundo BRIGHT é uma nova plataforma de financiamento multidoadores, liderada pelo Sul Global, criada para impulsionar o desenvolvimento, a produção e o acesso equitativo a vacinas, terapias, diagnósticos e inovações em saúde. 

Além disso, o fundo busca fortalecer a soberania em saúde e aprimorar a preparação para futuras pandemias.

O Fundo BRIGHT surge como uma iniciativa destinada a ampliar os investimentos em inovação em saúde, fortalecer centros regionais de pesquisa e expandir a capacidade de fabricação no Sul Global.

Guiado pela liderança dos próprios países do Sul Global, o fundo busca superar lacunas históricas no ecossistema de saúde global — garantindo que as inovações respondam às necessidades reais das populações mais afetadas e que os avanços científicos sejam distribuídos de maneira mais equitativa.

Apoiado por economias que vêm consolidando sua capacidade industrial, o Fundo BRIGHT é uma plataforma concebida no e para o Sul Global. Com facilitação do IVI, os países-membros e criadores do fundo estão trabalhando na construção da governança e na definição das áreas de investimento. 

Assim como GHIT e RIGHT investem em doenças negligenciadas, com foco específico em áreas como tuberculose, malária, esquistossomose, leishmaniose e doença de Chagas, além de mais recentemente também investirem em doenças com potencial pandêmico, o BRIGHT pretende seguir uma estratégia semelhante.

Para garantir um impacto sustentável, estruturamos o Fundo BRIGHT com um modelo de financiamento diversificado e transparente, capaz de mobilizar recursos em larga escala:

• Meta: US$ 300 milhões nos primeiros cinco anos, com US$ 60 milhões desembolsados anualmente;
• Fontes diversificadas de financiamento: as contribuições seguirão um modelo equilibrado de 50:25:25; investimento público, instituições filantrópicas e investimento privado, incluindo Indústria;
• Desembolso: os recursos serão distribuídos com base no cumprimento de marcos definidos, assegurando responsabilidade, transparência e progresso mensurável.

Compromisso de acesso global

Todos os investimentos do Fundo BRIGHT estão vinculados a um compromisso obrigatório de acesso global, garantindo que o conhecimento gerado seja compartilhado abertamente e que os produtos resultantes sejam disponibilizados de forma acessível, a preços adequados e em tempo oportuno para países de baixa e média rendas, por meio de licenciamento e transferência de tecnologia.

Pesquisadores e instituições dos países-membros terão suporte adicional e qualificado para capacitação em P&D, com desfecho garantido caso os produtos consigam superar o chamado “vale da morte” e obtenham registro.

Acredito que o Fundo BRIGHT representa um marco em pesquisa e desenvolvimento sustentável, contribuindo para soluções de questões globais em saúde. Por isso, seguiremos atentos aos avanços desse fundo em prol da ciência e da saúde.

Sue Ann Costa Clemens é professora do Depto de Saúde Internacional da Universidade Johns Hopkins, chefe do Instituto de Saúde Global da Universidade de Siena – onde é professora de Infectologia Pediátrica e dirige o Programa de Mestrado em Vacinologia e Desenvolvimento de Medicamentos – além de docente e coordenadora científica internacional do Instituto Carlos Chagas. É conselheira sênior da Fundação Gates e integra conselhos e comitês científicos internacionais, incluindo International Vaccine Institute, GHIT Fund, VaxThera, Ourofino e Clover Biopharmaceuticals. Foi professora titular de Saúde Global e Desenvolvimento Clínico na Universidade de Oxford, onde criou e dirigiu o Oxford Latam Vaccine Group, e integrou o grupo de especialistas da OMS sobre acesso e informação em vacinas (TAG-MI4A). Em mais de 25 anos de carreira, contribuiu para o desenvolvimento de mais de 20 vacinas e medicamentos licenciados globalmente, incluindo três contra a covid-19 como investigadora principal. Foi condecorada pela Rainha Elizabeth II com a Ordem do Império Britânico (CBE) pelos serviços prestados à saúde pública e é também Comendadora da República Federativa do Brasil nas Ordens do Rio Branco e do Mérito Médico.

Os artigos e vídeos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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