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30.01.2024 meio ambiente

O híbrido entre arte e ciência

Coletivos artísticos unem tecnologia, natureza e sociedade para pensar o antropoceno e alertar sobre riscos da emergência climática

Na obra compartilhada Unbearable (2015), o artista dinamarquês Jens Galschiøt e a organização não governamental WWF buscaram mostrar como as atividades humanas impactam o clima global, ressaltando a responsabilidade do público em relação às gerações futuras | Foto: galschiot.com

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.” A Canção do Exílio, poema do escritor romântico Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), foi escrita em 1843 e publicada na obra literária “Primeiros cantos”, em 1857. Naquela época, o autor estudava direito na Universidade de Coimbra, em Portugal, e era uma expressão do saudosismo em relação à sua terra natal.

De lá para cá muitas coisas mudaram no planeta. A temperatura global vem subindo, há um aumento da perda da biodiversidade e eventos climáticos extremos impactam a saúde das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis.

Do saudosismo de Gonçalves Dias, passamos para a solastalgia, do filósofo australiano Glenn Albrecht. Trata-se de um conjunto de sensações, costumeiramente negativas e aflitivas, provocadas pela mudança do meio ambiente. É algo que sentimos quando a noção de nosso lugar no mundo é violada e nos vemos impotentes em relação a esse tipo de mudança – em um contexto com alto grau de risco e de incertezas relacionadas às mudanças climáticas.

Se a depressão tem sido considerada o mal do século XXI, ao afetar mais de 350 milhões de pessoas no mundo, ainda não sabemos qual será o impacto real da ansiedade climática, principalmente nos mais jovens, nos próximos anos.

Temos visto gráficos e mais gráficos em relatórios anuais do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU). Cientistas ao redor do mundo têm alertado sobre os efeitos deletérios do antropoceno (nova era geológica caracterizada pelos impactos da humanidade sobre o planeta), mas os níveis de inação permanecem altos.

Os motivos para isso são variados: incompreensão do fenômeno, em suas causas e efeitos e, por isso, não saber como agir; uma ausência de impactos perceptíveis (já não tão imperceptíveis assim), que levam as pessoas a não se preocuparem tanto;  a ideia de que sua contribuição é tão pequena que não faz diferença ou o senso de injustiça de que outras pessoas não farão o mesmo esforço; ou, ainda, um pensamento mágico de que o problema se resolverá por si, seja pelo desenvolvimento tecnológico, seja por uma força superior.

Soma-se a esses fatores um certo grau de desconfiança em relação ao próprio fenômeno – de que a mudança do clima seja apenas uma criação da mídia, uma conspiração ou um erro científico.

Estaríamos vivendo uma espécie de cegueira como a descrita pelo escritor português José Saramago?

Ah! A arte, aquela que quando não nos salva do caos e das mazelas do mundo, ao menos nos abre um caminho de conhecimento, de representação, provocações e que também, de forma criativa e visionária, aliada à ciência, pode ajudar a transformar o mundo.

Detalhe da obra Insurreição Micorrízica, do coletivo Cesar&Lois: por meio de um aplicativo de mensagens, o público se comunica com uma colônia de cogumelos | Foto: Cesar&Lois 

Problemas complexos não são resolvidos com soluções simples, por isso não podemos prescindir de todas as linguagens e áreas do saber que indiquem o que precisamos fazer enquanto o permafrost (camada do subsolo da crosta terrestre que está permanentemente congelada) derrete, os corais morrem e ilhas desaparecem no oceano Pacífico em consequência do aquecimento global.

Movimentos artísticos como a Land Art, no início dos anos 1970, engajaram muitos artistas em vários modos de ação entre arte e natureza, muitas vezes para expressar a incapacidade de muitas políticas governamentais em medir as consequências das mudanças climáticas para a biosfera. Ah! A arte e sua atemporalidade.

Na instalação “Insurreição Micorrízica” apresentada na 13a Bienal do Mercosul, realizada em 2022 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o coletivo artístico Cesar&Lois (formado pelo brasileiro Cesar Baio e a norte-americana Lucy Solomon) exploraram o que definiram como inteligência ecossistêmica por meio de um artefato biodigital que convidou as pessoas a se comunicarem com uma rede de fungos por meio de mensagens de textos.

Nessa instalação, havia uma cápsula contendo um tronco com uma colônia de fungos, juntamente com telas que exibiam gráficos com os dados sobre o sistema biohíbrido, tais como nível de temperatura, umidade, sinalização da pulsão elétrica do micélio (filamentos que compõem o corpo dos fungos) e a rede interespécie.

Na tela principal, uma mensagem convidava o participante a fazer parte da rede. No aplicativo de mensagens, a pessoa era solicitada a enviar informações sobre mudanças climáticas para a rede, as quais provocavam novas mudanças no habitat.

Nesse sentido, foi criada uma forma de relacionamento simbólico interespécie ao desenvolverem uma comunicação entre os humanos e inteligência artificial articulada com a colônia de fungos – o que permitiu estabelecer um diálogo com formas de existência radicalmente opostas à dos humanos.

Na instalação Esse chá é o resultado de uma visualização de dados, o coletivo Kōdos resgatou uma receita de infusão de chá caseira, usado para aliviar sintomas de labirintite, para questionar a maneira estonteante como os dados impactam humanos | Foto: Kōdos/ACTlab-Unicamp

Já o coletivo Kōdos (formado pelos artistas e pesquisadores Fernanda Oliveira e Claudio Filho) tem buscado integrar os aspectos da visualização de dados com questões ambientais. Os eixos arte, dados e meio ambiente norteiam essa produção artística iniciada em 2020, em meio à pandemia do coronavírus.

Esse coletivo faz parte do Laboratório de Arte, Ciência e Tecnologias Desviantes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integra redes audiovisuais, cinema, performance e arte contemporânea em parcerias teóricas e práticas.

Obras ao redor do mundo, como a escultura Unbearable (Insuportável) do artista dinamarquês Jens Galschiot e da organização não governamental internacional WWF, têm proliferado.  

A obra é um símbolo impressionante que talvez possa arrancar a humanidade da cegueira sobre como as suas atividades impactam o clima global, e procura lembrar ao público a sua responsabilidade para com as gerações futuras.

A escultura é de um urso polar de cobre, em tamanho real, empalado num oleoduto, configurado para se assemelhar a um gráfico que ilustra as emissões globais cumulativas de carbono provenientes de combustíveis fósseis, desde o ano zero.

O gráfico estende-se horizontalmente no solo por 17 metros, depois sobe acentuadamente por volta do ano 1850 – quando o consumo humano de combustíveis fósseis, como o carvão e o petróleo, aumentou – e finaliza em 2015, com a representação trágica do impacto sobre a biodiversidade.

Tudo isso mostra que a arte pode nos alertar, mas também pode nos ajudar a mitigar a solastalgia ou o saudosismo de um exílio na própria casa.

A propósito, ainda é primavera enquanto esta coluna é produzida, e os sabiás cantam na madrugada (o que para mim é poesia) e cada vez mais cedo. Os ruídos humanos que ignoram frequentemente a coexistência com outros seres têm atrapalhado a sua comunicação, que é essencial no período reprodutivo das aves.

Por isso, não há razões para reclamar: apesar da humanidade, ainda gorjeiam por aqui.

Eliseth Leão é pesquisadora sênior do Hospital Israelita Albert Einstein.

Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.

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