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22.04.2026 Comunicação

Harald Gaski: “Povos indígenas também podem ter periódicos de excelência”

Ex-editor da única revista científica escrita inteiramente em língua indígena indexada no DOAJ discute preservação linguística, decolonização acadêmica e os limites do reconhecimento internacional

Pessoa jovem de pele clara, vestindo traje tradicional Sami azul com detalhes em vermelho, ajoelhada na neve e tocando o focinho de uma rena com arreios. Ao fundo, estruturas de madeira e um trenó com cobertura xadrez. O ambiente é nevado e a cena ocorre em um espaço aberto de criação de renas A criação de renas é uma das práticas culturais centrais do povo Sami, que habita o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Na foto, homem com traje tradicional Sami ao lado de uma rena na Lapônia finlandesa, no inverno. Rovaniemi, Finlândia, 3 de março de 2017 | Foto: Roman Babakin/Shutterstock

“Pode parecer pura estupidez criar uma revista em uma língua indígena muito pequena, falada por apenas cerca de 30 mil a 50 mil pessoas, e depois distribuí-la mundialmente.” A provocação é de Harald Gaski e resume o paradoxo que define o trabalho de sua vida. 

Nascido em 1955 em Tana (Deatnu), no extremo norte da Noruega, Gaski é um dos mais influentes intelectuais sami da atualidade, responsável por ajudar a consolidar a literatura de seu povo como um campo reconhecido dentro e fora da academia.

Professor de literatura sami aposentado, Gaski lecionou na Universidade Ártica da Noruega (UiT) e na Universidade de Ciências Aplicadas Sami (Sámi allaskuvla), onde desenvolveu pesquisas comparando escritos do povo sami com os de outros povos indígenas e traduziu poemas sami para o norueguês e o inglês. 

Autor de obras de referência sobre literatura sami, como estudos sobre poesia épica e coletâneas de provérbios, ele também recebeu o prêmio de língua sami Gollegiella, principal reconhecimento nórdico a quem promove e desenvolve os idiomas sami.

Em 2020, Gaski assumiu como editor-chefe da Sámi dieđalaš áigečála, a Revista Científica Sami, periódico interdisciplinar publicado integralmente em línguas sami e mantido pela UiT em parceria com a universidade Sámi allaskuvla. 

Em 2025, ao se aposentar, deixou a revista com uma conquista inédita: a indexação no DOAJ (Diretório de Periódicos de Acesso Aberto), tornando-a a única publicação de todo o diretório escrita exclusivamente em uma língua indígena, e reafirmando sua ambição de situar o conhecimento produzido em sami como parte do debate científico global.

Em entrevista exclusiva ao Science Arena por videochamada, Gaski falou sobre preservação linguística, os limites do reconhecimento institucional e o que significa fazer ciência em um idioma que o mundo ocidental insiste em ignorar.

O que é o DOAJ e por que a indexação importa?

O que é?

O Diretório de Periódicos de Acesso Aberto (DOAJ) é um índice internacional que reúne revistas científicas revisadas por pares e publicadas em acesso aberto. A inclusão é voluntária e exige critérios rigorosos de qualidade editorial.

Maior visibilidade

Estar no DOAJ aumenta a visibilidade de um periódico para pesquisadores, bibliotecas e financiadores ao redor do mundo, ampliando o alcance do conhecimento produzido.

Marco histórico

A Revista Científica Sami (Sámi dieđalaš áigečála) é, desde maio de 2025, a única publicação do diretório escrita integralmente em uma língua indígena — o que a torna um marco na história das publicações científicas em idiomas minoritários.

Língua Sami

A língua Sami é falada por entre 30 mil e 50 mil pessoas no norte da Europa (Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia), e é uma das poucas línguas indígenas com produção acadêmica ativa e formalizada.

Referência

Para pesquisadores de outros povos indígenas, a indexação do periódico Sami pode servir como referência e incentivo para a criação de publicações científicas em seus próprios idiomas.

Science Arena – Quando a Revista Científica Sami foi criada e quais eram os principais objetivos?

Harald Gaski – Foi criada em 1994. Nesse momento, o governo norueguês foi pressionado ou queria apoiar a criação do periódico. No final da década de 1960, houve uma grande revitalização das culturas indígenas em todo o mundo. Houve a criação do Conselho Mundial dos Povos Indígenas em meados da década de 1970, por exemplo. 

Esse momento também foi marcado por um forte componente cultural. Parte da cultura, claro, também era representada pela academia, pelas universidades, pelos estudantes e assim por diante, como no resto do mundo. 

Como a língua tem sido uma parte tão importante da cultura Sami, era relevante disponibilizar uma educação melhor em Sami para os estudantes. As autoridades foram pressionadas e tiveram que começar a apoiar cada vez mais a educação Sami, com a ideia de ter educação formal desde o jardim de infância até o nível universitário. 

Assim, durante esse processo, vimos a necessidade de ter uma revista acadêmica exclusivamente em Sami. A Universidade Ártica da Noruega e a Universidade de Ciências Aplicadas Sami colaboraram na criação da revista. 

A ideia era ter uma publicação exclusivamente com ensaios e artigos na língua desse povo. Portanto, os textos precisavam ser escritos originalmente em Sami, não traduzidos para o idioma. Isso porque a ideia era apoiar o fortalecimento da língua.

Homem branco de cabelos brancos e óculos de armação preta, aparentando entre 65 e 75 anos, de braços cruzados e expressão séria. Veste traje tradicional Sami azul com detalhes em vermelho e broche dourado no peito. Ao fundo, árvores sem folhas e céu com tons rosados de entardecer ártico.
“Eu queria aprender a escrever melhor na minha própria língua”, diz Harald Gaski, professor de literatura Sami aposentado e ex-editor da Revista Científica Sami | Foto: Arquivo Pessoal

Podemos dizer que há também um fator político desta iniciativa?

Todos os processos de revitalização dos povos indígenas têm sido pautados por política, cultura e pesquisa, ou melhor, por uma conexão mais estreita do que se vê no mundo ocidental. E não estou dizendo que pesquisas tenham sido politizadas ou algo do tipo, mas o apoio de políticos às atividades culturais e à educação tem sido fundamental. Portanto, foi natural que eles também apoiassem iniciativas como esta revista.

Qual a relevância de ter uma publicação como a Revista Científica Sami, que é direcionada majoritariamente a uma população restrita, em uma base global como o DOAJ?

Pode parecer pura estupidez criar uma revista em uma língua indígena muito pequena, falada por apenas cerca de 30 a 50 mil pessoas, e depois distribuí-la mundialmente. Mas a ideia é, na verdade, um pouco político-cultural. 

É importante ter um periódico indígena reconhecido nesse nível, porque isso contribui na representatividade de povos indígenas e mostra que essas populações também podem ter periódicos acadêmicos nesse grau de excelência.

A Revista Científica Sami e sua inclusão no DOAJ podem ser consideradas uma forma de decolonização no meio das publicações científicas?

Essa é a esperança, mas eu sou uma pessoa muito modesta, então não acho que haverá uma revolução por causa desse periódico ou dessa inclusão. 

Eu acredito que essa adição no DOAJ torna o periódico mais visível, e algumas pessoas podem se perguntar: “Por que este periódico faz parte desse diretório com uma escala mundial? Deve haver algo de especial nele”, e talvez elas queiram pesquisar mais a respeito.

Outro ponto é que essa visibilidade pode ter um impacto em outros países, para que outros povos indígenas possam dizer: “Vejam, este periódico está incluído no DOAJ e escrevem em seu próprio idioma. Então, por que não podemos fazer o mesmo?”. Mas, claro, o problema é que não há muita verba. Precisamos de muito apoio.

Qual o papel dos diferentes atores que participam na criação de uma revista como essa?

O ideal seria que os próprios povos indígenas estivessem na liderança e contassem com recursos para financiar seus projetos. Assim, poderíamos ter total autonomia. Mas essa não é a realidade da maioria dos povos indígenas. 

Ainda precisamos de algum tipo de apoio, vindo de algum lugar. Minha esperança é que demonstrar que este periódico Sami funciona bem, e atende a todos os requisitos para ser considerado uma publicação acadêmica, seja uma boa prova para universidades e autoridades de que isso é possível.

Você conhece outras iniciativas parecidas com a Revista Científica Sami?

Tem a AlterNative. Eu fiz parte do conselho editorial por um tempo e discutimos a ideia de ter pelo menos um artigo em cada edição em uma língua indígena. Essa é outra maneira de fazermos isso. 

[Oficialmente, a AlterNative afirma em seu site que a revista “publica artigos em inglês, mas também aceita submissões em línguas indígenas, bem como artigos que já foram publicados em uma língua indígena e traduzidos para o inglês”.]

Por outro lado, também podemos problematizar essa ideia. 

Periódicos sempre trabalharam com a forma escrita, e a maioria das culturas indígenas é oral. Então, outra opção seria ter um podcast em que as pessoas poderiam discutir assuntos de forma mais oral caso não se sintam seguras para escrever. 

Essa poderia ser uma alternativa, outra possibilidade de disseminar informações sobre os povos indígenas.

Eu ainda gostaria de ver revistas, livros e editoras indígenas no mesmo nível daquelas que existem no mundo ocidental. Isso poderia ajudar a superar visões depreciativas sobre os povos indígenas.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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