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Hugo Aguilaniu: “A filantropia científica tem papel fundamental de incentivo ao risco”
Diretor do Instituto Serrapilheira avalia o sistema de fomento nacional e defende que incentivo ao risco na ciência produz descobertas revolucionárias
Para Hugo Aguilaniu, "dificultar a filantropia científica significa menos incentivo ao risco", diz o diretor-presidente do Instituto Serrapilheira | Imagem: Instituto Serrapilheira
“Dificultar a filantropia significa menos incentivo ao risco.” A frase é de Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, primeira organização filantrópica do Brasil dedicada ao fomento da ciência básica — e resume o diagnóstico que ele faz do sistema de financiamento científico no país.
Nativo de Grenoble, na França, Aguilaniu é geneticista molecular formado na Suécia, com passagem pelo Instituto Salk, nos Estados Unidos. Em 2006, entrou para o Centre Nationale pour la Recherche Scientifique (CNRS, na França), onde se tornou diretor científico em 2011.
Aguilaniu chegou ao Brasil em 2017 para dirigir o Serrapilheira. Desde então, seleciona pesquisadores com ideias que, nas suas palavras, “precisam ser ousadas, mas não loucas”.
Para ele, o sistema brasileiro de apoio à ciência é robusto, mas ainda carece do ingrediente que historicamente produz descobertas revolucionárias: recursos privados dispostos a apostar no incerto, naquilo que pode não vingar.
A consequência, avalia, pode ser a razão pela qual o Brasil ainda não tem um Prêmio Nobel.
Nesta entrevista ao Science Arena, Aguilaniu fala sobre risco, liberdade criativa e o que diria a si mesmo no início da carreira.
Science Arena – Qual é sua avaliação do sistema de fomento à pesquisa no Brasil para pesquisadores em início de carreira?
Hugo Aguilaniu – O sistema é robusto. Fundações estaduais de apoio à pesquisa junto com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) formam uma estrutura sólida.
Para quem está em formação, funciona bem: esse sistema dedica recursos a bolsas e permite mobilidade nacional e internacional. O problema surge quando o pesquisador se torna jovem professor.
Professores que começaram há dois anos, por exemplo, não costumam ter muitos mecanismos disponíveis para alavancar suas carreiras, saindo em desvantagem em relação a professores que estão estabelecidos há trinta anos.
Isso tem mudado, com instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) criando linhas para jovens pesquisadores. Tardiamente, mas está acontecendo.
Como canalizar as ideias de jovens pesquisadores?
Não sei se canalizar é o que queremos — queremos que “exploda”. Na matemática, a Medalha Fields só é concedida a pesquisadores com menos de 40 anos, por reconhecer esse como o período de maior criatividade. O sistema precisa financiar esses dois perfis.
E quanto ao financiamento privado e ao risco?
O sistema brasileiro não promove o investimento privado. O coração da pesquisa deve ser público, mas a filantropia promove outros modos de pensar. É uma pena que não haja incentivo fiscal para isso.
A filantropia é a mais bem posicionada para assumir riscos — não gasta dinheiro público, mas recursos de quem aceita o risco conscientemente.
Historicamente, ela contribui para financiar pesquisas verdadeiramente arriscadas. Dificultar a filantropia significa menos incentivo ao risco. O apoio a mais pesquisas arriscadas pode aumentar as chances de o Brasil fazer descobertas revolucionárias — e de ganhar um Nobel.
Isso passa por mudar as métricas de produtividade?
Sim. As métricas são antigas e muito quantitativas, e isso tem uma explicação histórica. O sistema tem cerca de 60 a 70 anos e, no início, precisava provar que produzia algo.
Funcionou: a produção científica cresceu. Agora, o Brasil precisa produzir melhor. A filantropia pode provocar o sistema com critérios mais audaciosos.
Como resolver o problema dos pós-doutores sem colocação?
São duas questões. A primeira é de escala: o Brasil forma muito mais gente do que o sistema universitário absorve. A segunda é de reconhecimento: uma pessoa com doutorado muitas vezes não tem perspectiva muito melhor do que alguém sem o título.
Na Alemanha, um doutor entra no setor privado em nível superior. Aqui falta esse reconhecimento — e falta informar os pesquisadores sobre outros caminhos.
Quando perguntamos a jovens doutores o que querem ser, a resposta quase unânime é “professor universitário”. Quando perguntamos o que acontece se não conseguirem, a maioria não sabe.

Quais os requisitos para conseguir financiamento para uma ideia ousada?
Só posso falar pelo Serrapilheira: buscamos ousadia conceitual, ou seja, projetos ousados, mas não “loucos”. Em todas as fases há tendência ao conservadorismo; nosso trabalho é resistir.
A ideia precisa ser muito boa, e o pesquisador precisa explicar por que fará algo que ninguém fez. O Brasil tem ativos subutilizados: o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) tem o Sirius, acelerador de partículas disponível para qualquer pesquisador brasileiro, e pouquíssimos o exploram.
Em breve terá acoplado um laboratório de biossegurança máxima — único no mundo. Dados preliminares escassos não são problema; ideia fraca, sim.
Qual conselho daria a si mesmo no início da carreira?
Duas coisas. Ler muito — ter cultura ampla sobre o campo teria me tornado mais criativo. Sempre tive a intuição de que as coisas mais interessantes estavam nas fronteiras entre campos; a cultura teria transformado essa intuição em algo mais potente.
E liberdade. Os alunos no Brasil dependem demais de um único orientador. Deveriam ser soberanos do próprio processo de formação, conhecer vários laboratórios e escolher o que querem fazer.
Dar essa liberdade desde cedo é a receita para o próximo grande resultado brasileiro — e começa antes do doutorado.
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