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15.04.2026 Financiamento

Hugo Aguilaniu: “A filantropia científica tem papel fundamental de incentivo ao risco”

Diretor do Instituto Serrapilheira avalia o sistema de fomento nacional e defende que incentivo ao risco na ciência produz descobertas revolucionárias

Para Hugo Aguilaniu, "dificultar a filantropia científica significa menos incentivo ao risco", diz o diretor-presidente do Instituto Serrapilheira | Imagem: Instituto Serrapilheira

“Dificultar a filantropia significa menos incentivo ao risco.” A frase é de Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, primeira organização filantrópica do Brasil dedicada ao fomento da ciência básica — e resume o diagnóstico que ele faz do sistema de financiamento científico no país.

Nativo de Grenoble, na França, Aguilaniu é geneticista molecular formado na Suécia, com passagem pelo Instituto Salk, nos Estados Unidos. Em 2006, entrou para o Centre Nationale pour la Recherche Scientifique (CNRS, na França), onde se tornou diretor científico em 2011.

Aguilaniu chegou ao Brasil em 2017 para dirigir o Serrapilheira. Desde então, seleciona pesquisadores com ideias que, nas suas palavras, “precisam ser ousadas, mas não loucas”.

Para ele, o sistema brasileiro de apoio à ciência é robusto, mas ainda carece do ingrediente que historicamente produz descobertas revolucionárias: recursos privados dispostos a apostar no incerto, naquilo que pode não vingar.  

A consequência, avalia, pode ser a razão pela qual o Brasil ainda não tem um Prêmio Nobel.

Nesta entrevista ao Science Arena, Aguilaniu fala sobre risco, liberdade criativa e o que diria a si mesmo no início da carreira.

Science Arena – Qual é sua avaliação do sistema de fomento à pesquisa no Brasil para pesquisadores em início de carreira?

Hugo Aguilaniu O sistema é robusto. Fundações estaduais de apoio à pesquisa junto com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) formam uma estrutura sólida.

Para quem está em formação, funciona bem: esse sistema dedica recursos a bolsas e permite mobilidade nacional e internacional. O problema surge quando o pesquisador se torna jovem professor. 

Professores que começaram há dois anos, por exemplo, não costumam ter muitos mecanismos disponíveis para alavancar suas carreiras, saindo em desvantagem em relação a professores que estão estabelecidos há trinta anos.

Isso tem mudado, com instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) criando linhas para jovens pesquisadores. Tardiamente, mas está acontecendo.

Como canalizar as ideias de jovens pesquisadores?

Não sei se canalizar é o que queremos — queremos que “exploda”. Na matemática, a Medalha Fields só é concedida a pesquisadores com menos de 40 anos, por reconhecer esse como o período de maior criatividade. O sistema precisa financiar esses dois perfis.

E quanto ao financiamento privado e ao risco?

O sistema brasileiro não promove o investimento privado. O coração da pesquisa deve ser público, mas a filantropia promove outros modos de pensar. É uma pena que não haja incentivo fiscal para isso. 

A filantropia é a mais bem posicionada para assumir riscos — não gasta dinheiro público, mas recursos de quem aceita o risco conscientemente. 

Historicamente, ela contribui para financiar pesquisas verdadeiramente arriscadas. Dificultar a filantropia significa menos incentivo ao risco. O apoio a mais pesquisas arriscadas pode aumentar as chances de o Brasil fazer descobertas revolucionárias — e de ganhar um Nobel.

Isso passa por mudar as métricas de produtividade?

Sim. As métricas são antigas e muito quantitativas, e isso tem uma explicação histórica. O sistema tem cerca de 60 a 70 anos e, no início, precisava provar que produzia algo.

Funcionou: a produção científica cresceu. Agora, o Brasil precisa produzir melhor. A filantropia pode provocar o sistema com critérios mais audaciosos.

Como resolver o problema dos pós-doutores sem colocação?

São duas questões. A primeira é de escala: o Brasil forma muito mais gente do que o sistema universitário absorve. A segunda é de reconhecimento: uma pessoa com doutorado muitas vezes não tem perspectiva muito melhor do que alguém sem o título. 

Na Alemanha, um doutor entra no setor privado em nível superior. Aqui falta esse reconhecimento — e falta informar os pesquisadores sobre outros caminhos. 

Quando perguntamos a jovens doutores o que querem ser, a resposta quase unânime é “professor universitário”. Quando perguntamos o que acontece se não conseguirem, a maioria não sabe.

Homem branco de meia-idade, cabelos castanhos, vestindo camisa branca e crachá com cordão verde, segura microfone e gesticula com a mão direita durante apresentação. Ao fundo, telão com iluminação rosada e estrutura de palco com teto de palha.
“A filantropia é a mais bem posicionada para assumir riscos”, afirma Hugo Aguilaniu, geneticista molecular e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira | Imagem: Instituto Serrapilheira

Quais os requisitos para conseguir financiamento para uma ideia ousada?

Só posso falar pelo Serrapilheira: buscamos ousadia conceitual, ou seja, projetos ousados, mas não “loucos”. Em todas as fases há tendência ao conservadorismo; nosso trabalho é resistir. 

A ideia precisa ser muito boa, e o pesquisador precisa explicar por que fará algo que ninguém fez. O Brasil tem ativos subutilizados: o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) tem o Sirius, acelerador de partículas disponível para qualquer pesquisador brasileiro, e pouquíssimos o exploram. 

Em breve terá acoplado um laboratório de biossegurança máxima — único no mundo. Dados preliminares escassos não são problema; ideia fraca, sim.

Qual conselho daria a si mesmo no início da carreira?

Duas coisas. Ler muito — ter cultura ampla sobre o campo teria me tornado mais criativo. Sempre tive a intuição de que as coisas mais interessantes estavam nas fronteiras entre campos; a cultura teria transformado essa intuição em algo mais potente. 

E liberdade. Os alunos no Brasil dependem demais de um único orientador. Deveriam ser soberanos do próprio processo de formação, conhecer vários laboratórios e escolher o que querem fazer. 

Dar essa liberdade desde cedo é a receita para o próximo grande resultado brasileiro — e começa antes do doutorado.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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