SOBRE
#Entrevistas
13.04.2026 Pós-Graduação

“Sem dados, a renovação na ciência se torna um discurso”

Pesquisador da UFABC mapeou a idade acadêmica de docentes em todo o país e identificou baixa renovação na base dos programas de pós-graduação

Homem de cabelos brancos, de costas, vestindo terno azul-escuro, escreve fórmulas matemáticas com giz em um quadro-negro repleto de equações e gráficos. "A base jovem é bastante estreita", diz Jesús Mena-Chalco, pesquisador da Universidade Federal do ABC especializado em bibliometria | Imagem: Unsplash

“Sem dados, a renovação se torna um discurso. Com dados, ela pode se tornar uma estratégia.” A frase resume bem o que move Jesús P. Mena-Chalco, professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) especializado em bibliometria e análise de dados acadêmicos. 

Em levantamento recente baseado na Plataforma Lattes, divulgado no seu perfil do Linkedin, Mena-Chalco mapeou, em escala nacional, a chamada idade acadêmica dos docentes vinculados aos programas de pós-graduação (PPGs) brasileiros — o tempo decorrido desde a primeira publicação científica de cada pesquisador.

Os resultados revelam um sistema maduro, mas pouco renovado na base: a idade acadêmica média dos docentes nos PPGs é de 27 anos; apenas 1% tem menos de uma década de carreira; e 17% já ultrapassam 35 anos de atividade. 

Nos programas de maior prestígio — notas 6 e 7 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) —, a concentração de pesquisadores seniores é ainda mais acentuada. 

Nesta entrevista ao Science Arena, Mena-Chalco discute o que esse retrato revela, os riscos no médio e longo prazo e o que seria necessário para planejar uma renovação efetiva.

Science Arena – Como essa análise foi conduzida a partir da Plataforma Lattes e quais critérios metodológicos foram usados para mapear a idade acadêmica dos docentes vinculados aos programas de pós-graduação?

Jesús P. Mena-Chalco – A pesquisa foi construída a partir de duas bases públicas e complementares. De um lado, utilizei os registros dos docentes vinculados aos programas de pós-graduação no Brasil, tal como aparecem nas bases associadas aos relatórios da CAPES e à plataforma Sucupira, considerando docentes permanentes, colaboradores e visitantes. Por outro lado, utilizei a Plataforma Lattes para recuperar a trajetória de publicação desses pesquisadores. 

A partir disso, para cada docente listado em um PPG, fiz uma varredura em seu currículo Lattes e identifiquei o ano da sua primeira publicação formal. Considerei quatro tipos principais de produção: artigos em periódicos, artigos em eventos, capítulos de livros e livros, que são formas bastante representativas da trajetória acadêmica. 

Com isso, foi possível estimar, para cada pesquisador, a chamada idade acadêmica, que é o tempo, em anos, desde sua primeira publicação até hoje.

É um trabalho em escala nacional, com um volume grande de dados. Esse tipo de análise não é tão comum justamente porque exige integração de bases e processamento em larga escala. O objetivo aqui não é olhar casos individuais, mas entender o sistema como um todo.

Por que a idade acadêmica — medida a partir da primeira publicação — é mais reveladora para entender a dinâmica da pós-graduação brasileira do que a idade cronológica?

Essa é uma pergunta importante. A idade acadêmica importa porque, para entender a dinâmica da pós-graduação, muitas vezes ela é mais informativa do que a idade cronológica.

A idade cronológica diz quantos anos uma pessoa tem. Já a idade acadêmica diz há quanto tempo essa pessoa está inserida no sistema científico, publicando, orientando, construindo redes, acumulando experiência. 

Como não temos, e nem deveríamos ter de forma aberta, a data de nascimento de todos os docentes, que é uma informação sensível, usamos a idade acadêmica como um proxy. 

Isso é bastante comum em estudos cientométricos. Não é uma medida perfeita, claro, há exceções, trajetórias tardias, percursos não lineares, mas, no agregado, ela nos dá uma boa leitura da maturidade do sistema.

A pós-graduação brasileira é madura e isso é uma conquista. Mas os dados mostram que a base jovem é pequena e que uma parcela relevante dos docentes está em estágio avançado de trajetória.

A pesquisa mostra que a idade acadêmica média dos docentes em PPGs é de 27 anos, que apenas 1% tem menos de 10 anos de carreira e que 17% ultrapassam 35 anos. O que esse retrato revela sobre o estado atual da pós-graduação no Brasil?

Os resultados mostram um quadro interessante. A idade acadêmica média dos docentes nos PPGs brasileiros é de aproximadamente 27 anos. Isso indica um corpo científico bastante experiente. Ao mesmo tempo, quando olhamos a distribuição, vemos que apenas cerca de 1% dos docentes têm menos de 10 anos de idade acadêmica. Ou seja, a base jovem é bastante estreita.

Por outro lado, cerca de 17% já ultrapassam 35 anos de atividade científica, o que indica um grupo mais avançado na trajetória. Então temos um sistema que é, ao mesmo tempo, muito experiente e pouco renovado na base. 

Isso não é um problema imediato, mas é um sinal importante. É um sistema maduro, consolidado, mas que precisa olhar com atenção para sua renovação.

Quais são os riscos concretos desse envelhecimento do corpo docente para a ciência brasileira nos próximos 5, 10 e 15 anos?

Os riscos não são necessariamente imediatos, mas aparecem quando pensamos no médio e longo prazo. Em um horizonte mais curto, talvez de cinco anos, o sistema continua funcionando, mas pode começar a haver mais pressão sobre um grupo de docentes que concentra orientação, liderança e articulação de projetos. 

Em dez anos, isso pode começar a aparecer de forma mais clara, com dificuldades de reposição em algumas áreas, especialmente em programas menores ou menos centrais, e possível perda de continuidade em certas linhas de pesquisa. 

Em quinze anos, se não houver renovação planejada, pode haver uma desaceleração mais estrutural, menor capacidade de orientação, menor diversidade de perfis e dificuldades de incorporar novas agendas. 

Eu trataria isso com prudência. Não é uma previsão fechada, mas os dados indicam que esse é um cenário plausível se nada for feito.

Homem jovem, cabelos escuros, óculos de armação fina, expressão tranquila, vestindo camisa listrada. Ao fundo, corredor de ambiente institucional.
Sem dados, a renovação se torna um discurso”, diz Jesús P. Mena-Chalco, professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC), especialista em bibliometria e análise de redes científicas | Imagem: Arquivo pessoal

Que limites e vieses precisam ser considerados ao utilizar bases como a Plataforma Lattes para esse tipo de análise?

O primeiro ponto é que idade acadêmica não é idade cronológica. É um indicador de trajetória, não uma medida biográfica exata. O segundo ponto é que a Plataforma Lattes depende da atualização dos currículos. Pode haver variações na qualidade e completude dos dados. O terceiro é que essa é uma análise agregada. Não se trata de avaliar indivíduos, mas de entender o sistema.

Por que os programas de maior prestígio, especialmente aqueles com notas 6 e 7, concentram ainda mais pesquisadores seniores?

Isso é, em certa medida, esperado. Programas mais bem avaliados, com notas 6 e 7, são programas que se consolidaram ao longo do tempo. Eles foram construídos com base em trajetórias longas, produção consistente e inserção internacional. 

Então é natural que concentrem mais pesquisadores seniores. Há um efeito de acúmulo. Esses programas atraem e mantêm pesquisadores experientes, e esses pesquisadores reforçam a posição do programa.

Isso não é um problema. Pelo contrário, é parte da explicação da excelência. 

A questão é se, junto com essa consolidação, também há espaço para a entrada de novos docentes. Esse é o ponto mais importante.

Que políticas de renovação poderiam reverter esse quadro de envelhecimento dos programas de pós-graduação?

A principal ideia aqui é que a renovação precisa ser planejada. Não é algo que acontece automaticamente. Isso pode envolver ampliação de oportunidades para jovens doutores, modelos de incorporação gradual, políticas institucionais de sucessão e articulação entre universidades e agências de fomento. Mas, acima de tudo, envolve diagnóstico. Sem dados, a renovação se torna um discurso. Com dados, ela pode se tornar uma estratégia.

É possível pensar em modelos de transição que valorizem a experiência dos pesquisadores seniores sem bloquear a entrada de jovens doutores?

Sim, e eu diria que esse é o caminho mais adequado. A transição não deve ser uma substituição brusca, mas um processo planejado.

Pesquisadores seniores têm um papel fundamental na formação, na liderança, na memória institucional. O objetivo não é substituir, mas criar convivência entre gerações. 

Isso pode envolver coorientação, grupos intergeracionais, sucessão gradual em linhas de pesquisa. Mas, novamente, isso não acontece sozinho. Precisa ser pensado.

Quais são hoje os principais desafios metodológicos da cienciometria no Brasil?

Se eu tivesse que destacar um ponto principal, diria que é a falta de integração entre bases de dados. Temos muita informação, mas ela está dispersa, em diferentes formatos e sistemas. Isso dificulta análises mais amplas. Também há desafios de padronização, atualização e qualidade dos dados. Então não é falta de dados, é falta de integração e estrutura.

Qual é o principal alerta que essa pesquisa deixa para o futuro da ciência brasileira?

A pós-graduação brasileira é madura e isso é uma conquista. Mas os dados mostram que a base jovem é pequena e que uma parcela relevante dos docentes está em estágio avançado de trajetória.

Então a pergunta não é se temos bons pesquisadores. Temos. A pergunta é se estamos preparando, com a mesma atenção, a próxima geração. Não é um problema imediato, mas é um sinal de que precisamos planejar melhor a renovação do sistema.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Entrevistas

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena