#Leitura Indicada
Daraxonrasib: a história do remédio que demorou 44 anos para ser desenvolvido
Reportagem do The New York Times narra quatro décadas de pesquisa que culminaram no desenvolvimento do daraxonrasib, droga que dobrou a sobrevida de pacientes com tumor pancreático metastático
O pâncreas regula o açúcar no sangue e a digestão — e seus tumores matam mais de 50 mil americanos por ano, com apenas 3% de sobrevida em cinco anos nos casos metastáticos | Imagem: Jo Panuwat D/Shutterstock
O QUE RECOMENDO?
Recomendo a reportagem “How an ‘Impossible’ Idea Led to a Pancreatic Cancer Breakthrough”, publicada pelo The New York Times em 12 de maio de 2026 e assinada por Gina Kolata e Rebecca Robbins. Para escrevê-la, as jornalistas entrevistaram 27 cientistas, médicos e participantes de ensaios clínicos.
O texto reconstrói a história de uma descoberta que levou mais de quatro décadas para chegar ao paciente — e que por muito tempo foi declarada impossível.
POR QUE ESTE TEXTO É RELEVANTE?
A reportagem do Times é jornalismo científico de fôlego: 27 fontes, linha do tempo de 44 anos e personagens que carregam o peso de apostas feitas contra o consenso. Kevan Shokat, da Universidade da Califórnia em San Francisco, passou cinco anos triando 500 moléculas atrás de uma fissura numa proteína que o campo inteiro havia descartado. Greg Verdine, de Harvard, foi buscar na natureza uma solução que a química convencional não conseguia imaginar. Ambos foram ignorados ou ridicularizados por pesquisadores “eminentes” — e continuaram.
“Cada avanço levou a mais um descarte de dogma e à descoberta de que o que todo mundo assumia como verdade não era”, disse Adrienne Cox, da Universidade da Carolina do Norte
A reportagem também documenta o custo real de um consenso equivocado. A ideia de que a proteína KRAS era inacessível a fármacos não era uma posição marginal: era a posição dominante. Empresas saíram do campo. Financiamentos foram negados. A reportagem é um caso de estudo sobre os limites da autoridade científica e sobre o que se perde quando ela não é questionada.
O QUE FAZ DESTE TEXTO UMA LEITURA IMPERDÍVEL?
Há dois momentos no texto que valem a leitura sozinhos.
O primeiro é o perfil de Rhea Caras, advogada aposentada diagnosticada em 2023 com câncer de pâncreas metastático e informada de que teria meses de vida. Dois anos depois, ela ainda toma seus comprimidos diariamente e planeja uma viagem ao Havaí com a família. “Tenho quase certeza de que não estaria viva sem essa droga”, ela diz. “Estou vivendo uma vida bastante boa, e não esperava isso.”
O segundo é Robert Weinberg. Em 1982, o cientista do MIT fez uma das descobertas seminais sobre o papel dos genes RAS no câncer. Em entrevista concedida este mês, aos 83 anos, ele comentou que levou 44 anos para que pacientes se beneficiassem de seu trabalho e que viveu para ver isso acontecer. “Teria sido bom se o Senhor tivesse nos mandado algo mais fácil de atacar”, ele disse. “Mas não foi o que aconteceu.”
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