SOBRE
#Leitura Indicada

Quando a ciência ataca quem tem razão

Matt Kaplan, jornalista de The Economist, documenta como paradigmas científicos resistem a ser derrubados e o que isso custa a pesquisadores que ousam questionar o consenso

Homem jovem de camiseta azul com expressão de raiva intensa, boca aberta em grito e punho estendido em direção à câmera. Ao fundo, persianas escuras desfocadas. A resistência a ideias que desafiam o consenso raramente é silenciosa — ela costuma vir com fúria, diz Kaplan | Imagem: Unsplash

O QUE RECOMENDO?

O livro I Told You So: Scientists Who Were Ridiculed, Exiled, and Imprisoned for Being Right, publicado em 2024 pela St. Martin’s Press e escrito por Matt Kaplan, correspondente de ciência da revista The Economist e ex-pesquisador em paleontologia pela Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA). 

O livro foi escrito a partir de dezenas de entrevistas com cientistas ativos e da reconstituição de casos históricos que atravessam quatro séculos de medicina, biologia e paleontologia.

O texto reconstrói o que deveria ser elementar no mundo científico, a ideia de que novos dados podem derrubar consensos, e demonstra, caso a caso, por que isso raramente acontece sem custo pessoal para quem propõe os dados.

POR QUE ESTE LIVRO É RELEVANTE?

I Told You So tem ambição histórica. Kaplan não se limita a reportar que cientistas foram perseguidos: ele diagnostica o mecanismo. O argumento central é que a resistência a ideias novas não é um defeito ocasional do sistema científico, mas uma consequência estrutural de como paradigmas são construídos, defendidos e financiados.

O caso de Ignaz Semmelweis abre o livro e ancora toda a argumentação. Em 1847, o médico húngaro demonstrou que médicos estavam transmitindo a febre puerperal às parturientes por não lavar as mãos antes dos partos. 

Semmelweis foi demitido, internado à força em um hospício e morreu sem ver sua hipótese aceita. O que Kaplan mostra é que a resistência ao seu trabalho não veio de ignorância: veio de médicos que compreenderam perfeitamente o que ele estava dizendo e que não podiam aceitar ser, eles próprios, os vetores da doença.

Capa do livro I Told You So, de Matt Kaplan, sobre fundo preto. Um feixe de luz amarela parte do canto superior esquerdo em direção ao centro da imagem, iluminando o título em letras vermelhas grandes e, no canto inferior direito, a figura de um cientista de época vestido com manto, segurando um instrumento e apoiado em um globo terrestre. O subtítulo, em letras brancas, diz "Scientists Who Were Ridiculed, Exiled, and Imprisoned for Being Right". O nome do autor aparece em amarelo na base da capa.
Capa de I Told You So: Scientists Who Were Ridiculed, Exiled, and Imprisoned for Being Right (2024), de Matt Kaplan | Imagem: St. Martin’s Press

O livro também documenta o caso de Mary Schweitzer, paleontóloga que, nos anos 1990, identificou estruturas compatíveis com células vermelhas do sangue em um osso fossilizado de Tyrannosaurus rex com 80 milhões de anos. 

A descoberta contrariava o dogma de que tecidos moles não sobrevivem à fossilização. Schweitzer foi atacada por colegas durante duas décadas. Só em 2017, após publicar resultados obtidos em condições hermeticamente controladas, o campo começou a rever sua posição. Ela é hoje considerada a fundadora da paleontologia molecular.

O livro documenta ainda como vieses institucionais se perpetuam: financiamentos negados a pesquisadores que desafiam o consenso, periódicos que rejeitam artigos por razões pessoais e orientadores que instalam nos alunos as mesmas certezas que eles próprios herdaram. 

“Nós herdamos certas crenças de nossos orientadores”, diz o paleontólogo Johan Lindgren, da Universidade de Lund, ao autor. “E é difícil mudar essa mentalidade herdada.”

O QUE FAZ DESTE LIVRO UMA LEITURA IMPERDÍVEL?

Há dois momentos especiais no livro. O primeiro é a cena de abertura. Em 2012, Kaplan presencia um grupo de pesquisadores seniores cercando a doutoranda Alison Moyer — orientanda de Schweitzer — e atacando verbalmente seu pôster em um congresso de paleontologia de vertebrados. 

Ela havia questionado se as estruturas identificadas como melanossomos em penas fósseis poderiam ser, na verdade, bactérias. Era uma pergunta cientificamente fundamentada. O campo respondeu com fúria. A cena é perturbadora porque Kaplan estava lá, com o crachá de repórter virado para dentro do bolso, e não desvia o olhar.

O segundo é a trajetória de Alexander Gordon, médico escocês que em 1795, quase meio século antes de Semmelweis, publicou evidências detalhadas de que parteiras e médicos estavam transmitindo a febre puerperal de paciente a paciente. Gordon criou tabelas de contágio com nomes, datas e sequências de transmissão. 

Então, publicou, junto com os dados, os nomes das profissionais que identificou como vetores involuntários. A população de Aberdeen se voltou contra ele. Ele fugiu para a Marinha e morreu de tuberculose em alto-mar, aos 47 anos, sem que qualquer de suas conclusões fosse levada a sério.

O livro não é pessimista, tampouco oferece consolo fácil. 

Kaplan conclui que entender como a ciência falhou no passado é o único caminho para que ela falhe menos no futuro e que o intervalo entre a descoberta e a aceitação tem consequências concretas, medidas em vidas que poderiam ter sido salvas.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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