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Burocracia, hierarquias rígidas e fuga de talentos limitam pesquisa no Brasil, diz estudo
Levantamento com mais de cem pesquisadores do Brasil, China, Alemanha e Índia mapeia os fatores que impulsionam (e travam) a excelência científica
Burocracia excessiva, hierarquias rígidas e a fuga de talentos figuram entre os principais obstáculos ao desenvolvimento da ciência no Brasil, segundo pesquisa da Elsevier | Imagem: Unsplash
A imagem do cientista isolado, mergulhado em livros e experimentos até ter um momento de iluminação, é um clichê da cultura popular. Na prática, não há excelência em pesquisa científica que dependa apenas do talento de uma pessoa: ela igualmente precisa de um contexto que crie as bases para um trabalho frutífero.
A partir dessa premissa, a editora holandesa Elsevier entrevistou mais de cem cientistas do Brasil, China, Alemanha e Índia em diferentes estágios e funções, de pesquisadores em início de carreira a reitores, de financiadores a funcionários do governo, para identificar quais características apoiam o surgimento de ecossistemas de pesquisa prósperos e como o contexto nacional molda o entendimento sobre o que impulsiona essa excelência.
A pesquisa começa definindo, junto aos próprios entrevistados, o que é excelência científica. As respostas convergiram em três eixos: impacto ou relevância do estudo, robustez dos achados e reconhecimento pela comunidade científica — seja por prêmios ou outras formas de validação externa. A definição varia entre países e disciplinas, mas esses pontos centrais foram recorrentes.
A característica mais recorrente apontada pelos entrevistados dos quatro países é a liderança — compreendida não como autoridade hierárquica, mas como a habilidade de direcionar, inspirar confiança e remover barreiras para que as pessoas façam seu melhor trabalho.
O talento prospera quando há liderança forte, cultura saudável e colaboração entre disciplinas
Burocracia, financiamento e aversão ao risco
Os obstáculos a esse desenvolvimento são, segundo o estudo, a burocracia excessiva, o controle exagerado sobre pesquisadores e um modelo de financiamento dominado por editais competitivos de curto prazo. Esse modelo induz aversão ao risco e fragmenta as agendas de pesquisa, resultado direto da pressão constante por captação de recursos.
O dado mais revelador: apenas 45% dos entrevistados afirmam ter tempo suficiente para pesquisa.
Apenas 45% dos entrevistados afirmam ter tempo suficiente para pesquisa. O restante do tempo é consumido por relatórios, captação constante de recursos e processos administrativos redundantes.
A colaboração entre disciplinas e instituições é apontada como cada vez mais necessária para enfrentar os problemas científicos e sociais mais complexos. As estruturas institucionais, no entanto, frequentemente dificultam esse trabalho. Departamentos em silos, incentivos desalinhados e sistemas de avaliação que não reconhecem produções coletivas travam a pesquisa interdisciplinar, mesmo quando as instituições a defendem no discurso.
O caso brasileiro: infraestrutura, hierarquia e fuga de talentos
No Brasil, os entrevistados reconhecem melhorias na infraestrutura de pesquisa, mas apontam disparidades persistentes entre regiões, tanto no acesso a financiamento quanto na manutenção de equipamentos. Os salários dos pesquisadores brasileiros não variam conforme o desempenho em pesquisa, o que representa um desincentivo financeiro à dedicação exclusiva à ciência.
A burocracia aparece como uma das principais barreiras, mas não por si só: o problema está na necessidade de o pesquisador se adaptar ao sistema de cada instituição, tendo de reaprender do zero os meandros de cada processo a cada novo projeto ou pedido de financiamento.
As hierarquias rígidas também foram citadas como obstáculo. Segundo os entrevistados, pesquisadores em posições de renome concentram poder sem necessariamente apoiar a liberdade acadêmica dos que estão abaixo. Essa liberdade existe na graduação, mas torna-se progressivamente mais controlada na pós-graduação.
A fuga de talentos completa o quadro. Estudantes brasileiros que vão ao exterior frequentemente não retornam, enfraquecendo um ecossistema que ainda luta para se tornar mais atrativo.
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