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28.04.2026 meio ambiente

Edifícios inacabados na China ampliam emissões de carbono e riscos à saúde, aponta estudo

Pesquisa quantifica desperdício de 485 milhões de toneladas de materiais, aumento de 9,6% na intensidade de carbono do setor e 2,6 milhões de anos de vida perdidos por incapacidade associados à crise imobiliária chinesa

Vista em close de três edifícios residenciais de alto padrão abandonados, fotografados em preto e branco sob céu encoberto. As torres de concreto aparente, com cerca de quinze pavimentos, apresentam aberturas sem esquadrias, fachadas sem revestimento e fiação exposta. Edifícios inacabados deixam de ser apenas símbolos de desaceleração econômica para funcionar como vetores de poluição, ineficiência e risco à saúde pública | Imagem: Wayee Tan/Unsplash

A crise imobiliária da China gera consequências que vão além do colapso financeiro: os edifícios inacabados que se acumulam no país tornaram-se ativos obsoletos, incapazes de cumprir sua função habitacional e, ao mesmo tempo, responsáveis por custos substanciais ao meio ambiente e à saúde pública. Esses projetos não entregam nenhum serviço funcional: nem moradia nem uso econômico.

Um estudo publicado na revista científica Cell One Earth, desenvolvido por pesquisadores de China, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Austrália, analisou o volume de obras paralisadas nos últimos anos e estimou o desperdício associado a esses empreendimentos. Os resultados quantificam um problema de proporções significativas.

O que são DALYs?

Significado da sigla

DALY significa Disability-Adjusted Life Year — em português, ano de vida ajustado por incapacidade.

Para que é usada?

É uma métrica utilizada em saúde pública para quantificar o impacto de doenças, lesões e fatores de risco sobre a população.

Métrica

Um DALY equivale à perda de um ano de vida plena — seja por morte prematura, seja por viver com uma incapacidade ou condição crônica.

Comparação

A métrica permite comparar o peso de diferentes condições de saúde em uma mesma unidade, facilitando a avaliação de políticas públicas e a alocação de recursos em saúde.

Poluição gera perdas

No estudo sobre a crise imobiliária chinesa, os 2,6 milhões de DALYs estimados representam o impacto da poluição do ar — gerada pelas obras paralisadas — sobre a saúde da população das regiões afetadas.

Materiais consumidos, benefícios ausentes

Segundo os autores, 485 milhões de toneladas de materiais (como cimento e aço, além de energia) foram consumidas em construções que não chegaram a ser concluídas, gerando uso intensivo de recursos sem retorno social proporcional.

Esse processo contribui diretamente para um aumento de 9,6% na intensidade de carbono do setor da construção civil, já reconhecido como uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa globais. 

O impacto climático, destacam os pesquisadores, ocorre independentemente da conclusão das obras.

Saúde em risco

Os efeitos não se limitam ao clima. O estudo aponta que o desperdício de materiais e energia está associado à deterioração da qualidade do ar, fator reconhecido como risco relevante para doenças cardiovasculares e respiratórias. A pesquisa estima 2,6 milhões de DALYs (Disability-Adjusted Life Years, ou anos de vida ajustados por incapacidade) associados à poluição gerada pelas obras paralisadas.

A presença de obras abandonadas em áreas urbanas tende a agravar condições já sensíveis: degradação do ambiente construído, sensação de insegurança e estresse socioeconômico entre as populações afetadas. O cenário acumula cerca de US$ 347 bilhões (R$ 1,7 bilhão) em perdas econômicas. 

Projetos inacabados se concentram em subúrbios novos, amplificando desigualdades e a escassez de serviços urbanos.

Como os pesquisadores mediram o impacto

Para obter esses resultados, os pesquisadores cruzaram dados sobre atividade imobiliária, consumo de materiais e emissões do setor, considerando tanto o ciclo de construção quanto os impactos indiretos decorrentes da interrupção das obras. 

Essa abordagem permitiu dimensionar não apenas o desperdício físico, mas seus desdobramentos ambientais e sociais ao longo do tempo.

O estudo argumenta que a crise imobiliária chinesa revela um problema estrutural mais amplo: modelos de desenvolvimento urbano descolados de planejamento sustentável e estabilidade econômica tendem a gerar externalidades ambientais e sociais significativas.

Edifícios inacabados deixam de ser apenas símbolos de desaceleração econômica e passam a funcionar como vetores de poluição, ineficiência e risco à saúde pública — um dado que aponta para a necessidade de reorientação nos modelos de desenvolvimento do setor.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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