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Estudo brasileiro detalha como Covid-19 pode levar à surdez profunda
Combinação entre ação do SARS-CoV-2, resposta inflamatória e tratamentos intensivos pode estar por trás do problema grave
Um grupo de pesquisadores brasileiros analisaram sete casos clínicos de pacientes que desenvolveram perda auditiva sensorioneural profunda após infecção por Covid-19; uma das hipóteses é que o próprio vírus possa atingir o ouvido interno, provocando inflamação ou lesões | Imagem: Anthony Camerlo / Unsplash
Quando a pandemia de Covid-19 eclodiu, a preocupação com os impactos respiratórios dominou o debate público e científico. Contudo, com o avançar dos estudos sobre o vírus SARS-CoV-2, percebeu-se que sua ação não se limitava a esse sistema. Na verdade, a doença era capaz de prejudicar múltiplos órgãos do organismo. Não à toa, sua ocorrência poderia levar as pessoas a sintomas variados.
Foi pensando nisso que uma equipe do Einstein Hospital Israelita, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) decidiu investigar a perda auditiva severa. Essa condição representa uma das complicações mais potencialmente devastadoras da infecção viral, mesmo também sendo uma das menos discutidas entre os especialistas.
Ao todo, os pesquisadores analisaram sete casos clínicos de pacientes que desenvolveram perda auditiva sensorioneural profunda após infecção por Covid-19.
Vale destacar que esse quadro de surdez costuma ser causado por danos no ouvido interno ou no nervo auditivo. Detalhes dos achados foram compartilhados em um artigo publicado em fevereiro na revista einstein.
Desenho do estudo
A pesquisa emprega a metodologia da série de casos. Nessa abordagem observacional, os autores descreveram detalhadamente um pequeno grupo de pacientes que apresentavam condições semelhantes.
O modelo não busca provar causa ou efeito com rigor estatístico, mas, sim, mapear características em comum, levantar hipóteses e identificar possíveis padrões clínicos.
Ele é especialmente útil quando se trata de fenômenos novos ou ainda pouco compreendidos (como era o caso da Covid-19), funcionando como um ponto de partida para investigações futuras mais amplas e controladas.
Dessa forma, os investigadores realizaram levantamentos de histórico clínico, análises dos tratamentos recebidos, exames audiológicos padronizados (como audiometria tonal, que mede a capacidade de ouvir diferentes frequências e intensidades sonoras) e avaliações funcionais.
Por meio dessa estratégia, identificou-se algumas características recorrentes entre os indivíduos com perda auditiva sensorioneural profunda:
- Ausência de perda auditiva prévia relevante em todos os casos;
- Perda auditiva bilateral (nos dois ouvidos) em 100% dos pacientes;
- Gravidade elevada, com limiares auditivos frequentemente acima de 90 decibéis (faixa considerada severa a profunda); e
- Início dos sintomas durante ou logo após a hospitalização por Covid-19.
Na prática clínica, isso significa que os pacientes passaram de uma audição funcional para uma condição de grande incapacidade comunicativa em um intervalo relativamente curto.
Intervenções médicas
Os testes audiométricos revelaram que as pessoas não apresentaram somente uma perda de sensibilidade ao som, mas também um comprometimento da discriminação auditiva.
Ou seja, elas começaram a ter dificuldade para distinguir palavras mesmo quando amplificadas. Daí porque muitos pacientes não se beneficiaram de aparelhos auditivos convencionais.
Na maioria dos casos, foi indicado que os indivíduos recebessem um implante coclear. Embora seja eficaz em restaurar parcialmente a percepção sonora, o equipamento não devolve a audição natural e ainda exige reabilitação intensiva.
Inclusive, em quadros mais graves, os pacientes eram encaminhados para intervenções cirúrgicas sequenciais.
Fatores por trás da perda auditiva
Por mais que o estudo aponte uma associação entre Covid-19 e perda auditiva severa, os autores não conseguiram delimitar uma explicação única para esse fenômeno.
A pesquisa destaca que o problema provavelmente resulta da combinação de diferentes fatores, que podem atuar ao mesmo tempo e dificultar a identificação de uma causa isolada.
Uma das hipóteses é que o próprio vírus possa atingir o ouvido interno, provocando inflamação ou lesões em estruturas essenciais para a audição.
Além disso, a resposta inflamatória intensa do organismo em casos graves pode acabar danificando o nervo auditivo e outras partes do sistema auditivo.
Outro fator envolve a circulação sanguínea. A Covid-19 está associada a um aumento no risco de formação de coágulos, que podem comprometer o fluxo de sangue na cóclea.
Como essa estrutura é altamente sensível, pequenas alterações podem causar perdas auditivas significativas.
Por fim, os pesquisadores ainda consideram o impacto dos tratamentos utilizados durante a internação. Medicamentos potencialmente ototóxicos, como alguns antibióticos, podem agravar ou até mesmo desencadear novos danos auditivos.
Referência
Mangabeira Albernaz PL, Costa SS, Nitz VO. SARS-CoV-2 infection and profound hearing loss: much more than a coincidence. einstein (São Paulo). 2026;24:eAO1126. https://dx.doi.org/10.31744/einstein_journal/2026AO1126
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