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Cólera: cientistas buscam vacina mais eficaz para crianças pequenas
Artigo publicado no NEJM aponta que imunizantes conjugados podem ampliar e prolongar a proteção entre menores de 5 anos
Especialistas defendem o desenvolvimento de imunizantes mais eficazes e duradouros para menores de 5 anos, grupo que responde pior às vacinas atualmente disponíveis contra a cólera | Imagem: Unsplash
Embora o acesso à água potável e ao saneamento básico seja indispensável para erradicar a cólera, o atual surto da doença só será controlado com o desenvolvimento de vacinas mais eficazes, defende um artigo de opinião publicado em junho na revista New England Journal of Medicine (NEJM), assinado por três especialistas em doenças infecciosas dos Estados Unidos, de Bangladesh e da Coreia do Sul.
Segundo os autores, um dos maiores obstáculos para conter a sétima pandemia de cólera, em curso desde 1961, é desenvolver vacinas eficazes para crianças de até 5 anos, que respondem pior à vacina oral contra a cólera (VOC), atualmente em uso.
Um estudo publicado em 2024 na Nature Medicine mostrou que cerca de um terço das crianças menores de 5 anos em uma região endêmica de Bangladesh é infectado pela bactéria todos os anos.
Entre adultos, a proteção conferida pela vacina também é limitada, variando entre 50% e 85% de eficácia, e dura, no máximo, cinco anos, o que dificulta um efeito de rebanho duradouro.
Após ser ingerida, geralmente por meio de água ou alimentos contaminados por fezes, a bactéria Vibrio cholerae adere ao intestino delgado e produz a toxina colérica, responsável por uma diarreia aquosa intensa que pode se instalar em 24 horas.
Se não tratada, a infecção provoca perda rápida de líquidos, podendo levar à desidratação grave, ao choque hipovolêmico e à morte.
A VOC é administrada por via oral e estimula os linfócitos B, que se ligam aos polissacarídeos que revestem a superfície da bactéria, conferindo imunidade parcial.
Entretanto, a vacina não ativa os linfócitos T, células de defesa que reconhecem antígenos proteicos, mas não identificam açúcares como o polissacarídeo bacteriano, o que compromete uma resposta imunológica mais robusta.
Crianças menores de 5 anos concentram a maior dificuldade de imunização contra a cólera: a vacina oral atualmente disponível não ativa as células de defesa necessárias para uma proteção mais duradoura.
A resposta: vacinas conjugadas
Para os autores do artigo, a solução está em conjugar esses polissacarídeos a proteínas capazes de induzir a ação dos linfócitos T, garantindo uma resposta imunológica mais robusta e duradoura.
A estratégia, batizada de vacina conjugada, já é usada com sucesso contra outras bactérias, como o pneumococo, causador de infecções respiratórias graves.
Atualmente, diversas equipes de pesquisa trabalham no desenvolvimento de versões conjugadas da vacina contra a cólera.
Estima-se que sejam necessárias 120 milhões de doses por ano para prevenir a transmissão em áreas endêmicas ou sujeitas a surtos periódicos da doença.
Como funciona uma vacina conjugada
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1. Isolamento do polissacarídeo
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Extrai-se o polissacarídeo O-específico (OSP) que reveste a superfície da bactéria Vibrio cholerae.
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2. Conjugação com uma proteína carreadora
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O polissacarídeo é quimicamente ligado a uma proteína (como fragmentos de toxina tetânica) reconhecida pelos linfócitos T.
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3. Ativação de dupla resposta imune
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A proteína carreadora recruta os linfócitos T, que auxiliam os linfócitos B a produzir uma resposta de anticorpos mais forte e duradoura.
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4. Formação de memória imunológica
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Diferentemente da vacina oral atual, a resposta conjugada gera células de memória, ampliando a duração da proteção, inclusive em crianças pequenas.
Uma pandemia que não dá sinais de trégua
Segundo os autores do artigo na NEJM, a atual pandemia de cólera, hoje endêmica em cerca de 50 países, não deve arrefecer tão cedo.
São milhões de novos casos e dezenas de milhares de mortes por ano, concentrados principalmente entre as populações mais pobres e sem acesso a água potável e saneamento.
Uma análise de genômica microbiológica sugere que a pandemia atual avançou em ondas repetidas de disseminação global, geralmente originadas na região da Baía de Bengala, no oceano Índico.
Na região, existe um reservatório ambiental endêmico da bactéria, que vive livremente na água salobra de rios e se alimenta de plâncton, sem necessariamente infectar pessoas.
Por habitar o ambiente natural, a Vibrio cholerae não pode ser erradicada; a única forma de evitar a doença é impedir sua passagem da água para os seres humanos.
Água e saneamento continuam essenciais
Nas últimas décadas, a principal estratégia internacional de combate à cólera foi ampliar o acesso à água tratada, ao saneamento básico e a práticas de higiene, abordagem conhecida internacionalmente pela sigla WASH (do inglês water, sanitation and hygiene).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ao menos 2 bilhões de pessoas ainda não têm acesso seguro à água potável, enquanto mais de 3 bilhões vivem sem saneamento adequado, cerca de 350 milhões delas sem nenhum local apropriado para suas necessidades fisiológicas.
O Banco Mundial estima que sejam necessários investimentos da ordem de US$ 1,4 trilhão (R$ 7,5 trilhões), seis vezes o valor investido atualmente, para que as metas de desenvolvimento sustentável da OMS para água e saneamento sejam cumpridas até 2030.
Nos próximos 50 anos, a população mundial deve crescer de cerca de 8 bilhões para 10 bilhões de pessoas, expansão concentrada em países da África e da Ásia onde a cólera é endêmica e o acesso à água é limitado, cenário que deve favorecer a multiplicação da bactéria.
O combate à cólera dependerá da combinação de duas estratégias complementares: ampliar o acesso universal à água potável e ao saneamento básico, e desenvolver vacinas mais eficazes, especialmente para crianças pequenas.
Para os autores, é essa combinação, e não apenas uma das duas frentes isoladamente, que poderá, de fato, encerrar a sétima pandemia de cólera, mais de sessenta anos após seu início.
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