SOBRE
#Notícias

Cortes de verbas nos EUA impulsionam programas internacionais de atração de talentos científicos

Iniciativas em países como Alemanha, França e Brasil ampliam apoio para pesquisadores em busca de ambientes mais estáveis

Ilustração vetorial com duas figuras humanas de aparência masculina, uma de terno e gravata e outra com camiseta casual, posicionadas ao lado de um painel de apresentação com um globo terrestre e uma seta ascendente. Programas em países como Alemanha, França e Brasil oferecem financiamento para atrair pesquisadores afetados por instabilidades no sistema científico norte-americano | Imagem: Unsplash

Em 2018, Sevgi Kafali passou por uma mudança significativa: a pesquisadora turca deixou seu país natal para ingressar em um doutorado em bioengenharia e engenharia biomédica na UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), nos Estados Unidos. A diferença cultural exigiu um período de adaptação, mas a UCLA era a instituição certa para aprofundar seus estudos em ressonância magnética — tema central de suas pesquisas.

Anos depois, Kafali se mudou novamente, desta vez motivada por um novo interesse: mesclar discussões sobre inteligência artificial com suas pesquisas de ressonância magnética. 

Em dezembro de 2024, ela se estabeleceu na Alemanha para trabalhar com Daniel Rückert, professor com alinhamento acadêmico ao seu foco de investigação.

De início, a pesquisadora contou com financiamento do laboratório do professor Rückert. Isso mudou em julho de 2025, quando ela foi selecionada para uma bolsa da Fundação Alexander Humboldt, instituição alemã voltada ao financiamento de cientistas internacionais interessados em desenvolver pesquisas no país.

Alemanha lança programa para atrair talentos globais

A bolsa de Kafali é financiada pela Global Minds Initiative, programa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Espaço alemão criado para atrair talentos científicos à Alemanha

A iniciativa opera por meio de instituições já consolidadas no país, entre elas a própria Fundação Alexander Humboldt, ampliando programas de financiamento já existentes. Somente em 2025, foram concedidos 156 bolsas e prêmios via Global Minds Initiative.

Em nota publicada na página do programa, o ministério alemão explica o contexto que motivou a iniciativa: “Particularmente tendo em vista a crescente pressão sobre a liberdade da ciência em muitos lugares, a Alemanha continua sendo um destino atraente para pesquisadores de todo o mundo em tempos de polarização global“.

Em entrevista ao Science Arena, a própria Kafali reconhece a mudança de cenário. 

“Ao comparar o período quando eu estava fazendo meu doutorado, durante o primeiro governo Trump, com o atual, eu diria que os dois são muito diferentes. Agora as verbas federais foram cortadas ou suprimidas, mas não corríamos esse risco antigamente”, afirma a pesquisadora turca. 

Europa mobiliza recursos e cria programas de acolhimento

A percepção de Kafali se reflete em uma tendência mais ampla. Desde 2025, diversas iniciativas surgiram com o objetivo de oferecer verbas e estrutura para cientistas que buscam ambientes mais estáveis

A França é outro exemplo relevante. A Universidade Aix-Marseille, no sul do país, criou o programa Safe Place for Science, voltado especificamente a cientistas norte-americanos com “liberdade acadêmica ameaçada

Com orçamento de 15 milhões de euros, o programa recebeu 298 inscrições em sua primeira rodada, com 39 selecionados inicialmente.

Outros países também lançaram iniciativas similares nesse período:

Demanda supera expectativas nas chamadas abertas

O volume de inscrições indica que pesquisadores estão ativamente buscando alternativas. Maria Mota, diretora do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM), em Portugal, vivenciou isso ao abrir uma chamada internacional na instituição que dirige.

“Foi a primeira vez que nós abrimos candidaturas internacionais para líderes de grupo. Quando ainda faltavam mais de dois meses para o deadline, nós já tínhamos 172 candidaturas, muito mais do que normalmente teríamos”, explicou Mota ao Science Arena.

A diretora também destaca que 41% dos inscritos eram pessoas jovens residentes nos Estados Unidos — não necessariamente americanos, mas pesquisadores em fase de pós-doutorado que, em condições normais, provavelmente ficariam no país para liderar grupos de pesquisa. 

“Acho que, nas condições normais, muitos deles iriam ficar lá para assumir a liderança de um grupo de pesquisa, mas agora não conseguem fazer isso”, diz Mota.

“Para mim, a União Europeia devia estar a dizer: ‘meus senhores, está a acontecer isto nos Estados Unidos, vamos pôr mais fundos aqui para grandes universidades europeias conseguirem atrair as melhores pessoas'”, sugere a diretora do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, em Portugal. 

Em maio de 2025, Mota publicou artigo na revista Nature defendendo uma ação conjunta e orquestrada entre instituições europeias para aproveitar a oportunidade. A posição se mantém: para ela, a União Europeia deveria agir de forma coordenada para ampliar o financiamento disponível nas principais universidades do bloco.

Brasil cria programas inéditos para repatriar e atrair pesquisadores

O Brasil também se posicionou diante desse cenário. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) lançou dois programas a partir de discussões iniciadas em meados de fevereiro de 2025, quando o segundo governo Trump começava a sinalizar cortes na ciência norte-americana.

“Nesse contexto, várias pessoas da FAPESP e das universidades estaduais paulistas viram o que estava acontecendo e falaram: ‘Olha, vai ter uma demanda grande e nós vamos começar a ter uma situação em que a gente pode atrair talentos, brasileiros ou não, que estão no exterior'”, relata Leandro Machado Colli, assessor da diretoria científica da FAPESP e professor de oncologia da Universidade de São Paulo (USP).

O primeiro programa, chamado InTheGra (International Thematic Grant), é inédito e voltado a cientistas com carreiras já estabelecidas no exterior. De cerca de 60 inscrições, 8 foram selecionadas. 

Os beneficiários recebem bolsa de 24 meses equivalente ao salário de um professor titular no estado de São Paulo. A expectativa é que, ao longo desse período, o pesquisador obtenha vínculo com alguma instituição de ensino superior, garantindo continuidade a uma pesquisa prevista para durar 5 anos.

O segundo programa, o Jovem Pesquisador Internacional, é direcionado a cientistas em início de carreira fora do país. Com cerca de 120 inscrições, o programa prevê bolsas de 5 anos para aproximadamente 20 selecionados.

“Não tenho dúvida que a situação de menos incentivo nos Estados Unidos nos facilitou em atrair e conseguir bons números desses programas”, diz Leandro Machado Colli, da FAPESP. 

Em ambos os programas, ele explica, houve forte participação de brasileiros residentes no exterior, especialmente nos Estados Unidos, mas também de pesquisadores de outras nacionalidades, incluindo de países latino-americanos.

A nível nacional, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do governo federal, também acompanha o cenário. 

Em nota enviada à reportagem, a instituição afirmou que situações como as atuais “tendem a influenciar decisões de carreira e de cooperação acadêmica”, criando oportunidades para solidificar ou ampliar conexões entre o Brasil e outros países.Dentro desse panorama se insere o Programa CAPES Global.Edu, instituído em março de 2025. O projeto incentiva a criação de redes entre instituições de ensino superior para fortalecer o protagonismo científico brasileiro no cenário internacional. Segundo o edital da primeira seleção, mais de R$ 1 bilhão pode ser destinado ao financiamento do programa.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Notícias

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena