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16.04.2026 Redes Sociais

Redes sociais podem causar danos à saúde? Caso contra Meta e YouTube reacende debate

Pesquisadora compara impacto das big techs ao da indústria do tabaco e defende novo marco regulatório para proteger crianças e adolescentes

Duas jovens negras deitadas no chão de uma sala, apoiadas sobre os cotovelos. A da esquerda, com cabelo preso e camiseta laranja, lê um livro. A da direita, com cabelo solto e camiseta verde-água, sorri enquanto mexe em um tablet. O modelo de negócios das plataformas digitais, baseado na captura de atenção, pode entrar em conflito direto com princípios de promoção da saúde, segundo especialistas | Imagem: Unsplash

Um júri de Los Angeles considerou a Meta — empresa controladora do Facebook, do Instagram e do WhatsApp — e o YouTube responsáveis por danos à saúde mental de uma jovem de 20 anos que alegou ter desenvolvido transtornos graves após anos de uso intenso das plataformas durante a infância. 

O veredicto determinou o pagamento de US$ 6 milhões em indenização: US$ 3 milhões em danos compensatórios e US$ 3 milhões em danos punitivos, sendo 70% a cargo da Meta e 30% do YouTube, que é de propriedade do Google

A decisão é tratada por especialistas como um possível ponto de inflexão para a indústria de tecnologia, com potencial de abrir caminho para novas ações judiciais da mesma natureza. O caso mobiliza os campos jurídico e tecnológico, e estimula ainda mais o debate científico sobre os limites da responsabilidade corporativa na área da saúde.

Entenda o caso: Meta, YouTube e a saúde mental de adolescentes

O que foi julgado?

Um júri de Los Angeles analisou ação movida por uma jovem de 20 anos que alega ter desenvolvido graves transtornos de saúde mental em decorrência do uso intenso de Instagram e YouTube durante a infância.

Qual foi o veredicto? 

Os jurados consideraram Meta e YouTube responsáveis e determinaram o pagamento de US$ 3 milhões em indenização. A Meta arcará com 70% do valor; o YouTube, com os 30% restantes.

Por que o caso é considerado um precedente?

Decisões desse tipo são raras e podem abrir caminho para novas ações judiciais contra plataformas por danos psicológicos causados a usuários jovens.

O que diz a ciência?

Pesquisadoras como Ilona Kickbusch argumentam que o modelo de negócios das plataformas, baseado na captura de atenção, é estruturalmente incompatível com a promoção da saúde, especialmente entre crianças e adolescentes.

Qual é a comparação histórica acionada pelos especialistas?

O debate remete à trajetória regulatória da indústria do tabaco, que também operou por décadas sem responsabilização efetiva pelos danos que causava à saúde pública.

Redes sociais como risco à saúde pública

O veredicto ecoa argumentos levantados em artigo de opinião publicado em 7 de abril na revista BMJ pela pesquisadora Ilona Kickbusch, diretora do Digital Transformations for Health Lab (DTH-Lab), da Universidade de Genebra, na Suíça. 

No texto, Kickbusch argumenta que as práticas das grandes plataformas digitais configuram novos riscos à saúde, especialmente entre jovens, ao influenciar comportamentos, bem-estar mental e padrões de consumo.

Para a autora, o problema exige uma atualização das estratégias regulatórias e jurídicas — processo análogo ao que ocorreu, décadas atrás, com a indústria do tabaco

A responsabilização judicial das empresas de tecnologia por impactos negativos à saúde marcaria, segundo ela, uma nova fase na relação entre saúde pública, regulação e poder corporativo.

“Ver as grandes empresas de tecnologia começarem a ser responsabilizadas judicialmente por impactos negativos à saúde marca uma nova fase na relação entre saúde pública, regulação e poder corporativo”, escreveu Kickbusch, em artigo no BMJ.

Uma arquitetura projetada para manter o usuário conectado

Kickbusch chama atenção para o fato de que, diferentemente de outras indústrias historicamente associadas a riscos à saúde, as plataformas digitais operam em um ambiente ainda amplamente desregulado, em que os impactos negativos tendem a ser difusos, cumulativos e de difícil mensuração.

O modelo de negócios dessas empresas, baseado na captura de atenção e na maximização do tempo de uso, seria, segundo a pesquisadora, o núcleo do problema. 

Mecanismos como notificações constantes, algoritmos de recomendação, reprodução automática de vídeos e sistemas de recompensa intermitente não seriam elementos neutros, mas componentes de uma arquitetura deliberadamente projetada para manter o usuário engajado. 

No caso de crianças e adolescentes, essa engenharia pode amplificar vulnerabilidades já existentes.

A análise dialoga com dados que ajudam a dimensionar a exposição: adolescentes passam, em média, cerca de 2h30 por dia em redes sociais, segundo o World Happiness Report, produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O avanço de decisões judiciais como a de Los Angeles, nos EUA, indica uma mudança mais ampla de paradigma. 

As plataformas digitais já fazem parte permanente do tecido social, mas seus impactos sobre a saúde pública deixam de ser tratados como efeitos colaterais inevitáveis e passam a ser reconhecidos como questões centrais de regulação, ética e responsabilidade corporativa.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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