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Design de proteínas cria soluções para vacinas, plástico e clima
Moléculas projetadas por computador já são usadas em imunizantes e podem ajudar a acelerar diagnósticos, degradar resíduos e capturar carbono
Da vacina SKYCovione a enzimas que decompõem plástico em horas, aplicações do design computacional de proteínas já saem da tela do computador para a prática clínica e industrial | Imagem: Shutterstock
O design computacional de proteínas, técnica que projeta moléculas inéditas a partir do zero, deixou de ser um exercício restrito à bioinformática teórica.
Ao permitir a criação de estruturas biológicas inexistentes na natureza, a técnica se consolida como ferramenta prática para dois dos maiores desafios da atualidade: a ameaça de novas pandemias e o colapso ambiental.
A relevância do campo ficou clara em 2024, quando o Prêmio Nobel de Química reconheceu o bioquímico David Baker, da Universidade de Washington, pelo desenho computacional de proteínas, e os pesquisadores Demis Hassabis e John Jumper, do Google DeepMind, pelos avanços na predição de estruturas tridimensionais de proteínas.
As duas conquistas, complementares, ampliaram o interesse global por aplicações que saem do papel e chegam à prática clínica e industrial.
Um dos ganhos mais imediatos está na saúde humana, com o desenvolvimento de tratamentos mais personalizados para problemas específicos.
Mas o impacto se estende também ao planeta. Em vez de partir de uma molécula já existente na natureza e tentar adaptá-la, a ciência agora define o problema primeiro e usa algoritmos para desenhar, do zero, a solução biológica correspondente.
“Gaiolas” proteicas e o futuro das vacinas
Na saúde humana e animal, além de tratamentos para doenças já existentes, o design de proteínas já produz um impacto mais imediato nas imunizações.
Cientistas conseguem projetar proteínas em formatos geométricos complexos, semelhantes a “gaiolas”, que imitam a estrutura externa de vírus causadores de doenças.
O conceito de gaiolas proteicas computadorizadas para exibir antígenos foi consolidado em artigos históricos da revista Nature, como “Design of a hyperstable 60-subunit protein icosahedron”, de 2016, produzido por uma equipe do Institute for Protein Design (IPD), da Universidade de Washington, liderada por David Baker e Neil King.
A vacina SKYCovione, usada contra a Covid-19 e desenvolvida pela SK Bioscience em parceria com o IPD, aplica exatamente essa tecnologia: uma nanoestrutura proteica exibe a proteína spike do vírus de forma ultraestável, funcionando como um treinamento para o sistema imunológico reconhecer o patógeno. O resultado são vacinas mais potentes, estáveis e fáceis de armazenar.
A gaiola proteica que hoje estabiliza a vacina SKYCovione nasceu de um artigo teórico de 2016 sobre geometria molecular — evidência de que o design computacional pode sair do papel e chegar ao braço do paciente.
Essa mesma lógica de precisão molecular também remodela o diagnóstico médico. Pesquisadores usam o design computacional para criar sensores biológicos sob medida.
Proteínas programadas para agir como interruptores moleculares que, ao entrarem em contato com um vírus em uma amostra de sangue ou saliva, mudam de forma e emitem um sinal luminoso, permitindo diagnósticos rápidos à beira do leito.
Artigos publicados na Nature em 2019 e 2021 descreveram essas tecnologias em detalhe.
O primeiro apresentou a plataforma LOCKR (Latching, Orthogonal Cage/Key pRotein), desenvolvida no laboratório de Baker, no IPD: proteínas que permanecem “fechadas” até detectarem uma molécula-alvo. O segundo, de 2021, mostrou como transformar esse mesmo mecanismo em biossensores capazes de detectar vírus e anticorpos por bioluminescência.
Uma aliada biológica contra a crise climática
Fora do campo da saúde, as proteínas desenhadas sob medida despontam como uma das fronteiras mais promissoras da biotecnologia industrial, com potencial para apoiar soluções contra a poluição por plástico e o excesso de carbono na atmosfera.
Um dos campos mais avançados envolve o desenho de enzimas programadas para acelerar a degradação de plásticos como o PET (politereftalato de etileno), amplamente usado em garrafas e embalagens.
Uma variante batizada de FAST-PETase, criada por engenheiros da Universidade do Texas em Austin, é capaz de decompor esse tipo de plástico em questão de horas; um processo que, sem intervenção, levaria séculos.
O mesmo plástico que levaria séculos para se decompor sozinho pode ser degradado em horas por uma enzima desenhada em laboratório.
A pesquisa com enzimas derivadas da PETase avança com apoio de consórcios internacionais, com destaque para os trabalhos pioneiros do National Renewable Energy Laboratory (NREL, dos Estados Unidos) e da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, que decifraram a estrutura tridimensional da enzima original e abriram caminho para as versões otimizadas de hoje.
Esses avanços costumam se apoiar em ferramentas de design computacional, como as desenvolvidas pelo IPD e pela DeepMind, que aceleram a triagem de variantes com maior potencial funcional.
Da mesma forma, laboratórios ao redor do mundo estudam como desenhar proteínas catalisadoras capazes de capturar e fixar o dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera com mais eficiência do que os processos naturais das plantas.
Da saúde ao clima: quatro aplicações do design de proteínas
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1. Vacinas de nanopartículas
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Gaiolas proteicas computadorizadas exibem antígenos virais de forma estável, como na vacina SKYCovione contra a Covid-19.
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2. Biossensores de diagnóstico
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Proteínas do tipo LOCKR mudam de forma ao detectar vírus ou anticorpos e emitem sinal luminoso, permitindo testes rápidos fora do laboratório.
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3. Enzimas que degradam plástico
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Variantes da PETase, como a FAST-PETase, decompõem garrafas PET em horas, em vez dos séculos que o material levaria para se degradar naturalmente.
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4. Captura de carbono
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Proteínas catalisadoras desenhadas por computador são estudadas para fixar CO₂ da atmosfera com mais eficiência do que processos naturais.
Para pesquisadores da área, o principal limite hoje não é mais técnico, mas conceitual.
“No design de proteínas, o limitante vai ser a sua imaginação, pois as possibilidades são muito amplas”, disse Helder Veras, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em entrevista ao Science Arena.
A afirmação resume o momento do campo: uma criação de proteínas antes restrita a décadas de tentativas e erros em bancada passou a ser guiada por algoritmos que testam bilhões de combinações antes de qualquer experimento físico, reduzindo o intervalo entre a pergunta científica e a solução aplicada.
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