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23.06.2026 Medicina

Desprescrição: retirada de medicamentos ganha força no cuidado de idosos

Estudos recentes discutem quando suspender anti-hipertensivos, estatinas e outros remédios pode reduzir riscos em pacientes idosos, frágeis ou polimedicados

Mãos de paciente idosa seguram diferentes medicamentos sobre uma mesa, com um copo d'água ao fundo Entender casos em que a desprescrição seja indicada é fundamental para o desenvolvimento de protocolos mais seguros na rotina da clínica médica | Imagem: Unsplash

A ideia de que a prática clínica precisa incluir não apenas a introdução, mas também a retirada racional de medicamentos, especialmente em pacientes idosos, frágeis, multimórbidos ou submetidos à polifarmácia, tem sido objeto de discussões e estudos, como retratado em reportagem do Science Arena publicada em 2024.

Entre 2025 e 2026, a literatura internacional aprofundou esse debate, sobretudo em torno da retirada de medicamentos cardiovasculares, anti-hipertensivos, medicamentos preventivos e modelos multiprofissionais de revisão terapêutica.

Em artigos de revisão sistemática e de meta-análise publicados recentemente na revista BMC Geriatrics – referência internacional em pesquisas com populações idosas –, diferentes estudos buscam evidências que possam subsidiar a prática clínica na retirada segura de fármacos.

No artigo Deprescribing antihypertensive medications in older people: a systematic review and a meta-analysis, os autores fizeram a revisão de ensaios clínicos e estudos observacionais envolvendo pacientes acima de 65 anos para avaliar especificamente os efeitos da retirada de anti-hipertensivos.

Os desfechos avaliados pelos pesquisadores incluíram mortalidade, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e eventos cardiovasculares maiores, destacando a necessidade de tomada de decisão individualizada, especialmente em populações frágeis e com múltiplas comorbidades.

A desprescrição pode ser apropriada em grupos selecionados, especialmente em pacientes frágeis e com baixa expectativa de vida, mas também com hipotensão ortostática, que é a queda súbita da pressão arterial ao levantar-se, algo relativamente comum em pacientes idosos.

De acordo com os autores, a revisão fornece uma base para pesquisas futuras que visem preencher lacunas e orientar retiradas mais seguras em idosos na prática clínica de rotina.

Objetivos reais do paciente

Outro artigo recente publicado na mesma revista trata da retirada de medicamentos preventivos em idosos com fragilidade avançada, demência ou expectativa de vida limitada.

O artigo sintetiza evidências sobre o efeito da suspensão de anti-hipertensivos, estatinas, anticoagulantes e antidiabéticos, efetuando uma comparação com a sua manutenção em desfechos clínicos, fisiológicos, de segurança e centrados no paciente.

Embora a polifarmácia e o uso prolongado de medicamentos preventivos sejam comuns em idosos nessas condições, com benefícios incertos e riscos potenciais, a suspensão da prescrição desses fármacos nesse perfil de paciente não foi associada a piores desfechos, destacam os autores.

Contudo, o artigo enfatiza o conceito de goal-concordant care, que busca alinhar a prescrição aos objetivos reais do paciente, e não apenas às diretrizes populacionais.

Manter terapias preventivas crônicas oferece benefício secundário, mas aumenta o risco de interações medicamentosas, eventos adversos e até hospitalizações, além da perda de qualidade de vida.

Impactos da desprescrição

Um terceiro estudo publicado na BMC Geriatrics destaca o papel de farmacêuticos clínicos nesse processo, avaliando o impacto dessas intervenções em pacientes idosos, em diferentes contextos.

O estudo avaliou programas conduzidos por farmacêuticos clínicos para revisão terapêutica e retirada de medicamentos potencialmente inapropriados, destacando a redução da carga medicamentosa e de risco de eventos adversos.

Também foi apontada a melhora na adesão (considerada crítica em pacientes idosos fragilizados) e maior segurança terapêutica em pacientes polimedicados.

Considerando a expertise desses profissionais em farmacoterapia, o que lhes possibilita implementar intervenções de retirada racional visando reduzir medicamentos potencialmente inadequados, além da carga medicamentosa geral, os pesquisadores reforçam a tendência internacional de transformar a prática em processo multidisciplinar estruturado, evitando decisões individuais do médico.

Trabalhos mais recentes apontam mudanças conceituais importantes, posicionando essa abordagem não como exceção, mas como parte de estratégias para alavancar objetivos clínicos focados na segurança do paciente.

Regulação brasileira

O Brasil ainda não conta com uma legislação nacional específica sobre o tema, nem diretrizes oficiais capazes de melhorar a integração entre médicos e farmacêuticos clínicos, mas possui um conjunto regulatório e ético que sustenta a prática.

A retirada de medicamentos é considerada ato médico legítimo, desde que baseada em evidência científica, avaliação risco-benefício e com consentimento do paciente.

Essa lógica também está alinhada ao Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), principalmente na prevenção de eventos adversos, interações medicamentosas e possíveis erros relacionados à polifarmácia.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não regula diretamente protocolos de retirada de medicamentos, mas atua no controle de risco-benefício dos medicamentos, na farmacovigilância e na reclassificação terapêutica.

Na prática, a lógica regulatória da Anvisa incorpora esse princípio central, ao preconizar que medicamentos devem ser prescritos apenas quando benefícios superarem riscos.

Embora ainda não exista um marco legal específico para a prática no Brasil, o sistema regulatório, ético e assistencial oferece bases para sua implementação progressiva, desde que baseada em evidências, especialmente no contexto de segurança do paciente e do uso racional de medicamentos.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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