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10.06.2026 Oncologia

Ensaios clínicos de câncer crescem menos que o esperado no Brasil, aponta estudo

Análise de 20 anos mostra que o país avançou, mas ainda enfrenta barreiras regulatórias, culturais e dependência da indústria farmacêutica

Mão de mulher com unhas pintadas em rosa, vestindo avental cirúrgico verde, com cateter intravenoso fixado no dorso da mão por curativo branco e conectado a equipamento transparente Acesso a ensaios clínicos oncológicos ainda é desigual entre países de baixa e média renda | Imagem: Pexels

O avanço da ciência depende também da saúde financeira de um país — mas não só dela. É o que mostra o estudo Disparidades em ensaios clínicos de câncer entre países de baixa e média renda: uma análise de 20 anos, publicado no periódico da Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society).

O trabalho, assinado por pesquisadores do Grupo Latino-Americano Cooperativo de Oncologia (LACOG) e do Einstein Hospital Israelita, no Brasil, foi tema de reportagem publicada em abril no Science Arena.

A análise avaliou 16.977 ensaios clínicos registrados entre 2001 e 2020 em 20 países classificados como de baixa e média renda (PMR) no início do período. 

O objetivo principal foi investigar a relação entre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o volume de ensaios clínicos oncológicos e em que medida o crescimento econômico explica (ou não) o desenvolvimento da pesquisa clínica.

A correlação entre PIB e volume de ensaios clínicos

A maioria dos países analisados conseguiu aumentar o número de ensaios no período. Mas a intensidade da correlação entre crescimento econômico e crescimento dos ensaios clínicos variou bastante. 

Os pesquisadores mediram essa relação por meio do coeficiente de correlação de Pearson, numa escala de 0 a 1. Países com economias em expansão acelerada, como China (0,93) e Coreia do Sul (0,97), apresentaram correlação muito forte. 

Já países com crescimento econômico inconsistente, como Brasil (0,68) e Argentina (0,51), tiveram correlação moderada, o que significa que os ensaios clínicos cresceram, mas sem acompanhar o ritmo esperado pelo desempenho econômico.

Os dados sugerem que o PIB é um fator contribuinte, mas não o único determinante do crescimento de ensaios clínicos. Países como Índia e Indonésia, por exemplo, tiveram crescimento econômico robusto, mas correlações muito fracas com o aumento de estudos: respectivamente 0,02 e −0,2.

“O crescimento econômico pode ser um fator contribuinte, mas apenas até certo ponto. Os dados reforçam a necessidade de iniciativas específicas para apoiar a pesquisa oncológica em países de baixa e média renda”, avaliam os autores do estudo.

China e Coreia do Sul: o que separa os líderes dos demais

Dentre os 20 países analisados, apenas China e Coreia do Sul desenvolveram pesquisa clínica independente em escala, ou seja, estudos não patrocinados pela indústria farmacêutica. Ambos conseguiram elevar a proporção de ensaios de fase inicial (fases 1 e 2) sobre os de fase tardia (fase 3). No segundo período analisado (2011–2020), esses dois países já registravam predominância de estudos de fase 1-2, indicativo de maior complexidade tecnológica e autonomia científica.

O avanço não foi apenas econômico. A China passou por uma reforma regulatória estrutural em 2015 e, em 2018, migrou de um sistema de aprovação para um sistema de registro para ensaios multinacionais, reduzindo drasticamente a burocracia. A Coreia do Sul adotou os padrões internacionais de boas práticas clínicas (ICH-GCP) em 2000 e criou programas nacionais de capacitação para a condução de estudos. Os autores apontam que essas reformas podem explicar, por si sós, parte do progresso observado, independentemente do crescimento do PIB.

A dependência da indústria farmacêutica: um problema estrutural

Com exceção de China e Egito, a grande maioria dos países de PMR permaneceu altamente dependente de ensaios patrocinados pela indústria farmacêutica em ambos os períodos analisados. No Brasil, por exemplo, 80% dos ensaios entre 2001 e 2010 eram patrocinados pela indústria, proporção que caiu apenas para 76% na década seguinte. Argentina, Chile, Colômbia e Peru mantiveram percentuais acima de 85% no segundo período.

Esse padrão é problemático porque ensaios patrocinados pela indústria costumam ser desenhados para responder perguntas relevantes para países de alta renda, seus principais mercados comerciais. Eles oferecem benefícios aos países de PMR em termos de acesso a tratamentos experimentais, mas raramente lidam com as necessidades específicas de suas populações ou de seus sistemas de saúde.

“Pesquisadores de países de baixa e média renda raramente têm papel no desenho e na condução dos ensaios da indústria, e poucas oportunidades de ser autores principais”, dizem os autores. 

O caso brasileiro: crescimento com limitações estruturais

O Brasil registrou correlação moderada (0,68) entre crescimento do PIB e crescimento de ensaios clínicos, o que indica que, mesmo em períodos de expansão econômica, a pesquisa não acompanhou o ritmo esperado. Um dos fatores apontados pelo estudo é o baixo percentual do PIB investido em pesquisa e desenvolvimento: em 2020, o Brasil destinava apenas 1,14% do PIB para P&D, contra 2,4% da China no mesmo ano.

O estudo também cita um levantamento apresentado na Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês) em 2025, mostrando que pacientes com câncer no Brasil têm percepção preocupante de servir como “cobaias” em ensaios clínicos, fator cultural que pode limitar o recrutamento e dificultar o desenvolvimento de pesquisa independente no país.

Ações para fomentar o desenvolvimento de pesquisa clínica em países de baixa e média renda

1. Desmistificar a participação em ensaios clínicos

entre médicos e pacientes, com investimento mínimo. Percepções equivocadas — como a de servir como “cobaia” — reduzem o recrutamento e travam o desenvolvimento de pesquisa local.

2. Implementar reformas regulatórias

que tornem a aprovação de estudos mais rápida e menos custosa. Os casos de China e Coreia do Sul mostram que mudanças regulatórias podem acelerar o desenvolvimento científico independentemente do PIB.

3. Garantir remuneração justa para equipes de pesquisa

que ao menos iguale o que seria obtido na prática clínica rotineira. A fuga de profissionais qualificados para países de alta renda é um obstáculo recorrente.

4. Ampliar o acesso a treinamento

para médicos e equipes de pesquisa, com investimento de mínimo a moderado.

5. Assegurar financiamento para pesquisa independente

desvinculada da indústria farmacêutica, para que os estudos possam endereçar as necessidades reais das populações locais.

6. Criar e fortalecer grupos colaborativos de pesquisa

como o próprio LACOG na América Latina, que oferece suporte bioestatístico, regulatório e de captação de recursos para estudos independentes.

7. Evitar a fuga de profissionais qualificados

para países de alta renda, criando incentivos financeiros e de carreira que tornem o ambiente local competitivo.

Um cenário que tende a se agravar

O diagnóstico do estudo ganha dimensão adicional diante das projeções da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), que estima um aumento de 77% nos casos globais de câncer até 2050

O impacto deve ser mais intenso justamente nos países de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os mesmos que, segundo o estudo, ainda produzem pesquisa clínica de baixa complexidade e alta dependência da indústria.

Os autores concluem que períodos de dificuldade econômica não deveriam ser impedimento para o desenvolvimento contínuo de pesquisa clínica. As ações necessárias (reformas regulatórias, treinamento de equipes, criação de grupos colaborativos) têm custo relativamente baixo e impacto de longo prazo. 

O estudo pode funcionar, segundo os próprios autores, como “um mapa para países de PMR dispostos a alcançar os melhores desempenhos”.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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