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10.07.2026 Oncologia

Tratamentos contra o câncer avançam, mas falta diversidade nos ensaios clínicos

Grande parte dos medicamentos foi testada em populações de países ricos; ampliar participação de outras regiões pode tornar as terapias mais eficazes para diferentes perfis de pacientes

Fotografia em close de uma mão apoiada sobre o braço de uma poltrona de couro sintético laranja, em ambiente hospitalar. O pulso está enfaixado com gaze branca e conectado a um cateter intravenoso ligado a um equipo transparente. A pessoa veste uma manga escura e comprida; ao fundo, piso claro e parte de um suporte de soro. Estudos mostram que ampliar a diversidade genética e geográfica dos ensaios clínicos oncológicos pode tornar os tratamentos contra o câncer mais eficazes globalmente | Imagem: Unsplash

Os tratamentos contra o câncer disponíveis hoje nunca estiveram tão avançados na história da medicina. No entanto, essa evolução carrega um desequilíbrio silencioso: grande parte desses medicamentos foi desenvolvida e testada majoritariamente em populações de países ricos, nações que concentram o principal investimento em pesquisa oncológica.

O problema está na falta de diversidade genética das amostras estudadas. Embora os medicamentos sejam usados globalmente, os dados que sustentam sua eficácia nem sempre refletem os diferentes perfis biológicos, ambientais e sociais dos pacientes que os recebem.

Concentração histórica e o que muda com a entrada de novos países

Historicamente, Estados Unidos e Europa concentraram a maior parte das pesquisas clínicas em oncologia, estabelecendo parâmetros terapêuticos baseados em grupos populacionais relativamente homogêneos

Para especialistas, essa concentração pode abrir lacunas importantes na compreensão da doença em outras regiões, como América Latina, África e partes da Ásia.

Um estudo publicado em outubro de 2025 no periódico Cancer, da Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society), analisou duas décadas de ensaios clínicos oncológicos (de 2001 a 2020) em países de baixa e média renda. 

Os autores identificaram um crescimento na participação dessas nações na produção científica internacional, ainda que essa expansão seja desigual e dependa, em graus variados, do crescimento econômico de cada país.

Sem representatividade nos estudos, corre-se o risco de oferecer terapias menos eficazes ou com toxicidades desconhecidas para o paciente brasileiro, por exemplo.

Por que a diversidade nos ensaios clínicos importa

Fatores genéticos, hábitos alimentares, condições ambientais e até diferenças no acesso ao diagnóstico influenciam a forma como os tumores evoluem e respondem aos medicamentos. 

Estudos conduzidos em países de baixa e média renda ajudam a entender como essas particularidades — em populações latinas, africanas ou asiáticas — afetam a resposta aos tratamentos.

Fatores que explicam por que a diversidade nos ensaios importa

1. Genética: perfis biológicos distintos podem alterar a forma como um tumor responde a um mesmo medicamento.

2. Hábitos alimentares: padrões de dieta variam entre regiões e podem influenciar a progressão de determinados tipos de câncer.

3. Condições ambientais: exposição a poluentes e outros fatores do entorno afeta o risco e a evolução da doença.

4. Acesso ao diagnóstico: diferenças estruturais no acesso a exames e diagnóstico precoce mudam o estágio em que o tratamento começa.

Ampliar os estudos clínicos em países em desenvolvimento ajuda a descentralizar a ciência e a produzir dados mais compatíveis com a realidade epidemiológica local. 

A presença de centros de pesquisa nessas regiões também tende a acelerar diagnósticos, facilitar o acesso de pacientes a terapias inovadoras e fortalecer a infraestrutura científica nacional.

Urgência reforçada por projeções da OMS

Segundo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), os casos globais da doença devem crescer 77% até 2050, de cerca de 20 milhões para mais de 35 milhões de diagnósticos por ano, com impacto proporcionalmente maior em países de baixo e médio Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). 

Para pesquisadores, esse cenário reforça a urgência de incluir populações historicamente sub-representadas na produção científica global.

Mais do que uma questão de distribuição geográfica, a expansão dessas pesquisas é vista como um passo importante para construir tratamentos mais eficazes, inclusivos e compatíveis com a diversidade real dos pacientes ao redor do mundo.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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