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09.07.2026
Oncologia

Estudo identifica pistas para diferenciar tumor benigno de câncer nas glândulas salivares

Análise de casos atípicos sugere que marcadores celulares podem ajudar a distinguir o tumor de Warthin do carcinoma mucoepidermoide

Retrato de perfil de um homem com a cabeça raspada, olhando para a direita. A iluminação lateral destaca o contorno do rosto, orelha e mandíbula contra um fundo escuro e desfocado. Ele veste uma camiseta branca. Localizada na região próxima ao ouvido, a parótida é uma das principais glândulas salivares e pode ser afetada por tumores benignos e malignos que, em casos atípicos, são difíceis de distinguir ao microscópio | Imagem: Unsplash

Nem sempre é simples distinguir um tumor benigno de um maligno apenas pela aparência das células ao microscópio. Em alguns casos, lesões com comportamentos biológicos distintos podem apresentar características morfológicas semelhantes.

Esse tipo de impasse pode ocorrer em tumores das glândulas salivares, entre eles os que acometem a parótida, localizada próxima ao ouvido.

Um estudo publicado em abril na revista einstein, conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com participação de uma pesquisadora da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, buscou resolver parte desse problema ao identificar características que ajudem a distinguir dois tipos de tumores que frequentemente se confundem: o tumor de Warthin, benigno, e o carcinoma mucoepidermoide, que é maligno.

Metodologia empregada

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram 11 tumores de baixo grau das glândulas salivares com características morfológicas incomuns e um padrão semelhante ao do tumor de Warthin.

Esses tumores reuniam características que dificultavam a distinção entre o tumor de Warthin com alterações metaplásicas e o carcinoma mucoepidermoide rico em estroma linfoide.

Os casos foram divididos em dois grupos, batizados pelos autores de Grupo A e Grupo B. A principal diferença entre eles estava na forma como as células se organizavam: no Grupo A (seis casos), havia uma estrutura em duas camadas (típica do tumor benigno), presente em menos da metade do tecido epitelial; no Grupo B (cinco casos), essa organização não aparecia. 

Como referência de comparação, a equipe também analisou cinco casos de tumor de Warthin e dez de carcinoma mucoepidermoide em sua forma clássica.

Além de observar a aparência das células ao microscópio, os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada imunohistoquímica. Esse método funciona como um “teste de marcação”, no qual se usam substâncias que se ligam a proteínas específicas dentro das células para revelar padrões que não são visíveis apenas pela forma.

Achados do projeto

Os resultados mostraram que os tumores dos dois grupos, apesar das semelhanças morfológicas, apresentavam diferenças importantes na organização do tecido e nos padrões revelados pela imunohistoquímica. 

Ao aprofundar a análise, os pesquisadores observaram que as diferenças não estavam apenas na aparência geral dos tumores, mas também na organização das células e na distribuição de marcadores específicos no tecido.

Nos casos classificados como mais semelhantes ao tumor de Warthin, dois marcadores imunohistoquímicos (a proteína CK7 e os antígenos mitocondriais) apresentavam marcação predominante nas células luminais. No Grupo B, considerado mais próximo do carcinoma mucoepidermoide, a marcação tendia a ser mais difusa pelas camadas epiteliais. Essa diferença pode ajudar os patologistas a distinguir os dois tipos de lesão.

Outra diferença importante foi o grau de fibrose, um tipo de “cicatriz” interna no tecido ao redor do tumor, mais frequente no Grupo B. Esse achado indica que esse tipo de tumor pode estar provocando uma resposta mais intensa do organismo.

Os pesquisadores também avaliaram o índice Ki-67, que mede o quanto as células estão se multiplicando. 

O resultado, no entanto, foi contraintuitivo: esse índice foi mais alto no Grupo A (o mais próximo do tumor benigno), chegando a 30% em um dos casos, enquanto nenhum caso do Grupo B ultrapassou 5%. 

Isso reforça a ideia de que nenhum marcador isolado é suficiente, sozinho, para definir se um tumor é benigno ou maligno.

Outros marcadores, como p63, CK14 e CK5/6, também forneceram informações úteis, embora com diferentes graus de sobreposição entre os grupos. A p63, por exemplo, apresentou perfis semelhantes nos dois grupos analisados e nos carcinomas mucoepidermoides de referência. Já a CK14 ajudou a identificar células basais organizadas em padrão linear, mais associado aos tumores do Grupo A. 

Os autores defendem, por isso, que esses marcadores sejam interpretados em conjunto com a CK7 e os antígenos mitocondriais.

Por outro lado, a CK7 e os antígenos mitocondriais se destacaram por revelar padrões distintos entre os grupos e podem se tornar ferramentas úteis para auxiliar no diagnóstico. Os autores do estudo, porém, ressaltam que esses resultados precisam ser validados em amostras maiores.

Impacto no tratamento dos pacientes

Um dos principais pontos discutidos no estudo é que a análise tradicional, baseada apenas na aparência das células, pode levar a erros, já que alguns tumores benignos podem sofrer alterações que os fazem parecer malignos, e vice-versa.

Os autores defendem o uso combinado de diferentes métodos de investigação

A imunohistoquímica ajuda a revelar padrões “invisíveis”, mostrando como determinadas proteínas se distribuem nas células. Testes genéticos, embora não tenham sido aplicados à totalidade dos casos deste estudo, são apontados pelos próprios autores como um complemento importante: eles permitem identificar alterações no DNA do tumor, somando um nível adicional de precisão ao diagnóstico.

Entre esses testes está a busca por alterações em um gene chamado MAML2, frequentemente associado ao carcinoma mucoepidermoide. Sua detecção pode fornecer uma evidência molecular importante em favor desse diagnóstico quando a aparência do tumor ao microscópio deixa dúvidas. 

Os autores apontam o fato de a análise dos rearranjos de MAML2 não ter sido realizada em todos os casos como uma das limitações do estudo.

Distinguir corretamente um tumor de Warthin de um carcinoma mucoepidermoide é essencial porque a classificação da lesão como benigna ou maligna influencia diretamente as decisões sobre o tratamento.

Os pesquisadores classificam os critérios propostos como preliminares e defendem que estudos com amostras maiores e testes moleculares mais abrangentes são necessários para confirmar os achados.

Referência

Bonfitto JF, Scarini JF, Ferreira IV, de Lima-Souza RA, Egal ES, Altemani A, et al. Preliminary diagnostic criteria for distinguishing metaplastic Warthin tumors from mucoepidermoid carcinomas rich in lymphoid stroma. einstein (São Paulo). 2026; 24: eAO1591. https://dx.doi.org/10.31744/einstein_journal/2026AO1591 

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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