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El Niño em 2026 acende alerta para riscos à saúde no Brasil
Nota técnica aponta alta probabilidade do fenômeno no segundo semestre; calor extremo, secas, enchentes e resposta do SUS entram no radar
Rua alagada no Rio Grande do Sul durante as enchentes de 2024. A nota técnica do INPE e outras entidades aponta que o El Niño previsto para o segundo semestre de 2026 pode aumentar a probabilidade de chuvas acima da média no Sul do país, elevando o risco de tempestades e inundações e reforçando a necessidade de preparação dos sistemas de saúde, defesa civil e infraestrutura urbana | Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil
A alta probabilidade de formação de um El Niño no segundo semestre de 2026 acendeu um alerta para diferentes setores no Brasil, incluindo a saúde pública. Uma nota técnica conjunta elaborada por INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM, divulgada nesta terça-feira (30/06), indica chance superior a 95% de ocorrência e persistência do fenômeno ao longo dos próximos meses, com possibilidade de extensão até o início de 2027.
Embora a intensidade ainda envolva incertezas, o documento aponta condições favoráveis para um evento de intensidade forte a muito forte, especialmente a partir do final do inverno. O El Niño é a fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), marcada pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial.
Essa alteração interfere na circulação atmosférica, no transporte de umidade e nos regimes de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. No caso brasileiro, a nota técnica prevê impactos regionais distintos:
- Tendência de redução das chuvas no Norte e em parte do Nordeste;
- Maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul;
- Efeitos mais variáveis no Sudeste e no Centro-Oeste, com aumento das temperaturas e possibilidade de episódios de calor mais frequentes e prolongados.
O termo “super El Niño” tem sido usado no debate público para se referir a eventos muito intensos, mas a Organização Meteorológica Mundial (OMM) ressalta que essa expressão não faz parte das classificações operacionais padronizadas.
Segundo comunicado divulgado em 2 de junho, a OMM estimava 80% de probabilidade de El Niño entre junho e agosto de 2026, com chances próximas ou superiores a 90% de persistência até pelo menos novembro.
Impactos na saúde
Na nota brasileira, a saúde aparece como um dos setores potencialmente afetados pelos extremos climáticos associados ao fenômeno. O documento não apresenta projeções epidemiológicas específicas, mas indica que eventos extremos podem impactar abastecimento de água, segurança alimentar, mobilidade e saúde pública.
Na Amazônia Legal, a redução do nível dos rios pode comprometer o acesso de populações ribeirinhas e remotas a serviços essenciais, incluindo atendimento de saúde.
Já o aumento das temperaturas e a baixa umidade podem elevar o risco de queimadas no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste. No Sul, chuvas acima da média podem ampliar o risco de inundações.
A resposta sanitária a esse cenário começou a ser estruturada pelo Ministério da Saúde. Em 30 de junho, a pasta anunciou a expansão da Força Nacional do SUS, com oito novas bases distribuídas pelo país.
Segundo o ministério, as equipes terão capacidade de chegar a qualquer emergência em até 12 horas e iniciar ações compatíveis com a gravidade do desastre em até 72 horas. O pacote foi apresentado como parte das medidas para ampliar a resposta do Sistema Único de Saúde (SUS) aos efeitos do El Niño e de outros eventos climáticos extremos.
As ações também incluem a implantação de Centros de Informação em Saúde e Clima nas cinco regiões do Brasil e o lançamento do Painel Nacional de Monitoramento e Previsão de Excesso de Calor e Equidade em Saúde.
A proposta dos centros é integrar dados epidemiológicos, demográficos, socioeconômicos e climáticos para monitorar riscos em tempo real, emitir alertas precoces e orientar decisões de gestores e profissionais de saúde.
Já o painel oferece previsões diárias para os 5.570 municípios brasileiros, com até cinco dias de antecedência, cruzando dados meteorológicos e indicadores de vulnerabilidade socioeconômica.
Ansiedade climática e calor extremo
O tema dialoga com questões já abordadas pelo Science Arena. Em reportagem sobre calor extremo, pesquisadores explicaram que altas temperaturas podem sobrecarregar a termorregulação do organismo, elevar riscos cardiovasculares, agravar doenças respiratórias e afetar especialmente idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas, gestantes, trabalhadores ao ar livre e atletas.
Outra reportagem discutiu a ansiedade climática, destacando como secas, enchentes, incêndios e a percepção de ameaça ambiental podem afetar a saúde mental, especialmente entre jovens e populações mais vulnerabilizadas.
Integração de dados
A preparação para o El Niño reforça ainda a importância de integrar ciência climática, vigilância epidemiológica e sistemas de dados em saúde.
Em entrevista ao Science Arena, Alan Dangour, diretor de Clima e Saúde do Wellcome Trust, defendeu o desenvolvimento de plataformas digitais capazes de combinar dados climáticos e de saúde para prever riscos de doenças e apoiar respostas de saúde pública mais rápidas e direcionadas.
Essa agenda também aparece na iniciativa da Mayo Clinic Platform, que articula instituições como o Einstein Hospital Israelita e o Seoul National University Hospital para tornar dados interoperáveis com apoio de análises avançadas e inteligência artificial.
Segundo reportagem do Science Arena, um dos focos centrais desse esforço é justamente combinar dados de saúde e dados meteorológicos, de modo a apoiar redes internacionais voltadas à vigilância de doenças infecciosas associadas ao clima, aos impactos do calor na saúde e à sustentabilidade dos sistemas de saúde.
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