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Inteligência artificial: como a tecnologia gera incertezas na ciência? Veja o que diz especialista
Para o sociólogo Glauco Arbix, da USP, cenário atual exige não apenas domínio técnico, mas reflexão crítica sobre o papel do pesquisador
A inteligência artificial otimiza processos de pesquisa, mas traz consigo questões que exigem cuidados extras por parte dos cientistas, como os riscos associados à aceleração da produção de artigos científicos sem olhar crítico | Imagem: Shutterstock
Ao longo da história, o avanço de tecnologias tende a afetar diferentes áreas do mercado de trabalho, já que muitas ferramentas são capazes de automatizar tarefas e, assim, otimizar tempo. É o que acontece com a incorporação da inteligência artificial (IA) em vários campos de atuação, entre eles o da pesquisa científica. Embora esse recurso possa representar uma evolução, por outro lado, ele pode gerar incertezas entre os pesquisadores.
Em entrevista ao Science Arena, Glauco Arbix, coordenador científico da Cátedra IA Responsável da Universidade de São Paulo (USP), destacou que a ciência por si só já está inserida em um contexto de instabilidades. Isso porque a sociedade vive constantemente em momentos turbulentos, desde problemas geopolíticos até econômicos.
Quando se trata das tecnologias, ele pontuou que “toda tecnologia nova, ainda mais essas que são transformadoras, carrega problemas às vezes do mesmo tamanho ou maiores do que as expectativas”. O sociólogo da USP completou: “Você tem a esperança de que a vida vai melhorar e, ao mesmo tempo, a adoção da tecnologia pode gerar problemas”.
De acordo com Arbix, a inteligência artificial otimiza processos de pesquisa, mas traz consigo questões que exigem cuidados extras por parte dos cientistas, como os riscos associados à aceleração da produção de artigos científicos sem olhar crítico.
A IA e o viés na pesquisa científica
O enviesamento de uma pesquisa é um problema que a IA intensifica. Segundo Arbix, isso acontece porque os dados obtidos por meio da ferramenta são majoritariamente produzidos e armazenados por empresas que têm origem em países de língua inglesa.
“Você não consegue estar preparado para trabalhar com a África ou com a América do Sul”, disse. “A pesquisa se torna mais homogênea, portanto menos inovadora”, adicionou.
Outro ponto destacado é a necessidade de atenção em como realizar perguntas a essas plataformas, pois, dependendo do questionamento, a ferramenta irá responder da maneira como o pesquisador gostaria e não como uma evidência.

Desigualdade no acesso à inteligência artificial
Apesar de a IA estar sendo cada vez mais aprimorada, nem todos os países têm o mesmo acesso às ferramentas. Os Estados Unidos e a China são as duas nações que estão muito à frente de outras quando se trata do desenvolvimento da IA.
De acordo com Arbix, o segundo bloco de países com um acesso maior a essa tecnologia é composto por nações como Alemanha, França e Reino Unido.
“Nós temos deficiências muito grandes, seja na área de data center, seja na área de qualificação das pessoas ou no acesso exatamente aos avanços”, alertou. “Se não tivermos grandes programas de letramento da inteligência artificial para fazer com que as pessoas consigam desmistificá-la e utilizá-la, se não tivermos alteração na maneira como o ensino está sendo oferecido, nós teremos uma reprodução da desigualdade”.
Para ler o conteúdo completo sobre as incertezas geradas pelo uso de inteligência artificial na ciência, veja a entrevista nesta matéria do Science Arena.
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