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Pesquisadores experientes são parcela expressiva dos autores em revistas predatórias
Pressão produtivista e brechas no Qualis favorecem periódicos que dispensam revisão por pares e garantem publicação rápida
Em meio à pressão por produtividade e à facilidade de publicação em revistas predatórias, muitos pesquisadores acabam submetendo manuscritos a periódicos de qualidade duvidosa | Imagem: Unsplash
Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, um periódico científico brasileiro publicou 7.138 artigos, média de 300 manuscritos por mês. O alto volume, a cobrança de taxa de publicação e uma política agressiva de solicitação de submissões por e-mail são características que, segundo Jesús Mena-Chalco, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), enquadram o periódico como predatório. O nome da revista não é divulgado nesta reportagem a pedido do próprio pesquisador, por temor de represálias.
O dado mais relevante da análise de Mena-Chalco, porém, não é o volume de artigos publicados: é o perfil de quem os assina. Doutores respondem por cerca de 35% dos autores do periódico, percentual superior ao de mestres (17%) e graduados (12%).
Mais ainda: 82% dos manuscritos publicados tinham ao menos um doutor entre os autores. “Eles não são inexperientes”, resume o professor da UFABC.
Como verificar se uma revista é predatória
Definir com precisão o que é uma revista predatória não é tarefa simples. Uma das primeiras respostas da comunidade científica foi criar “listas de bloqueio”, mas a abordagem tem limitações. “Quais são os critérios e quem os define? Em algumas dessas listas, é possível encontrar talvez uma revista de um país emergente, que pode não ser o melhor periódico ou não ter o melhor site, mas não está tentando enganar ninguém”, afirma Lorraine Estelle, colaboradora da iniciativa Think.Check.Submit.
A iniciativa optou por um caminho diferente: um guia de perguntas para auxiliar pesquisadores a avaliar um periódico antes de submeter o manuscrito. Se a resposta for sim à maioria das questões, a probabilidade de se tratar de uma revista predatória é baixa.
CHECKLIST da Think.Check.Submit
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Pergunta 1
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Você ou algum dos seus colegas conhece a revista?
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Pergunta 2
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É fácil identificar e contactar a editoria do periódico?
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Pergunta 3
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A revista explica claramente como funciona o processo de revisão por pares?
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Pergunta 4
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Os artigos são indexados ou arquivados em serviços e bancos de dados?
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Pergunta 5
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É clara a política de cobrança de taxas?
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Pergunta 6
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São fornecidas diretrizes para autores no site do periódico?
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Pergunta 7
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A editora é membro de iniciativas ou órgãos da área de publicações científicas?
“Sempre pensamos que pesquisadores em início de carreira podem ser mais vulneráveis. Mas já tive alguns casos de acadêmicos de alto escalão que entraram em contato e disseram: ‘Fui enganado. Eu publiquei em uma revista predatória”, afirma Estelle.
Perfil dos autores contraria percepção dominante
A ideia de que revistas predatórias atraem principalmente pesquisadores novatos tem respaldo em literatura científica, mas é contestada por estudos mais recentes.
Um artigo de 2015 que analisou 324 manuscritos em sete periódicos considerados predatórios concluiu que a maioria dos autores era formada por “pesquisadores jovens e inexperientes de países em desenvolvimento”. Análises posteriores chegaram a conclusões distintas.
Outro estudo, que examinou mais de 2 milhões de publicações brasileiras entre 2000 e 2015 cruzando dados da plataforma Lattes com informações de listas e índices bibliométricos, como o Directory of Open Access Journals (DOAJ), o Journal Citation Reports (JCR) e o Scimago Journal & Country Rank (SJR), identificou participação relevante de cientistas experientes nos periódicos predatórios.
A conclusão: quanto maior o intervalo entre a defesa do doutorado e a data de publicação, maior a probabilidade de o artigo ter sido veiculado em um periódico fraudulento.
Marcelo Perlin, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coautor deste último estudo, reconhece que ainda é difícil traçar um perfil preciso dos autores que publicam em revistas predatórias, mas aponta pressão e incentivos como fatores centrais.
“No Brasil, pesquisadores experientes muitas vezes estão sob forte pressão para manter índices de produção elevados para garantir bolsas de produtividade e recursos, ao mesmo tempo em que lidam com alta carga burocrática e de ensino. O periódico predatório — que oferece publicação rápida e garantida — pode acabar servindo como uma válvula de escape para manter as métricas exigidas pelo sistema”, analisa Perlin.
Mena-Chalco, da UFABC, aponta que a pressão começa já na pós-graduação. “Em vários programas de pós-graduação, para ser efetivada a defesa, é preciso demonstrar que publicou numa revista”, explica. “Em geral, publicar em revistas de impacto toma tempo e não é de primeira. Então, frente a essa pressão e à facilidade de publicação em revistas predatórias, as pessoas submetem manuscritos a periódicos desse tipo.”
Riscos para a ciência e lacunas na regulação
A taxa proporcional de publicações predatórias no Brasil ainda é baixa. No estudo de Perlin, não chegava a 1% do total de publicações nacionais. Mas Fhillipe Campos, pesquisador do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), alerta que o problema não deve ser medido apenas em volume.
“Por exemplo, a ausência de revisão por pares [etapa essencial na avaliação de manuscritos, dispensada pela maior parte dos periódicos predatórios] representa risco direto à integridade da produção científica”, ele alerta.
“Pode ocorrer que algumas poucas revistas predatórias mobilizem muitos artigos justamente pela característica de facilidade de aceitação de artigos. Isso pode ser um problema”, acrescenta André Appel, também do IBICT.
A regulação do setor é essencialmente autorregulada pela comunidade científica, segundo Campos. No Brasil, o Qualis — sistema de avaliação de periódicos mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) — deveria funcionar como filtro de qualidade. Mas o mecanismo apresentou falhas.
O modelo histórico do Qualis priorizava o volume de publicações e utilizava bases de dados bibliométricos, como o Scopus e o Google Acadêmico, para aferir impacto. Periódicos predatórios que publicam muitos artigos podiam, assim, acumular métricas favoráveis.
A própria revista analisada por Mena-Chalco é exemplo disso: segundo informações divulgadas no site do periódico, a publicação recebeu classificação A2, segundo maior estrato do Qualis, na avaliação referente ao quadriênio 2017-2020.
Consultada pela reportagem, a Capes reconheceu que o modelo histórico se baseava em práticas do passado, referentes a cada ciclo de avaliação, e admitiu a dificuldade crescente de separar periódicos legítimos dos predatórios, dado que “revistas de um mesmo grupo editorial têm comportamentos bastante distintos em termos de práticas editoriais”.A partir de 2025, o modelo foi reformulado. O novo Qualis foca na qualidade dos artigos, e não mais dos periódicos. Publicações em revistas com características predatórias, como promessa de publicação rápida, ausência de informações sobre revisão por pares e marketing agressivo, passam a ser classificadas automaticamente no estrato C, o mais baixo.
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