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Leucemia causada por vírus transmitido na amamentação poderia ser prevenida com rastreamento materno
Com incidência até 32 vezes maior entre imigrantes caribenhos e casos confundidos com outros linfomas, o ATLL é uma doença subestimada que o Japão já sabe como prevenir
Representação gráfica de uma célula T humana: países do Caribe não hispânico concentram as maiores taxas de infecção por HTLV-1 fora do Japão, da África subsaariana e da América do Sul | Imagem: Unsplash
Um estudo publicado em abril de 2026 na revista JAMA Oncology revelou que imigrantes oriundos do Caribe não hispânico apresentam incidência de leucemia/linfoma de células T em adultos (ATLL) cerca de 32 vezes maior do que os nascidos nos EUA e no Canadá. É a maior análise de base populacional sobre o tema já realizada no país. A ATLL é um tipo raro e agressivo de câncer de sangue causado pelo vírus HTLV-1.
O estudo usou registros de todos os 50 estados americanos. Para identificar o papel do país de nascimento, foram selecionados 13 estados com dados completos de origem dos pacientes. No total, foram identificados 3.228 casos diagnosticados entre 2005 e 2022.
Entre caribenhos não hispânicos, a incidência chegou a 14,1 novos casos por milhão de pessoas — próxima à de regiões historicamente endêmicas, como o Japão, a África subsaariana e partes da América do Sul. O pico foi registrado entre pessoas nascidas em Granada: 33,7 por milhão. Entre os nascidos nos EUA e no Canadá, a taxa foi de apenas 0,4 caso por milhão.
Disparidades raciais na sobrevida
A taxa de sobrevivência em cinco anos foi calculada para Nova York e Flórida, os únicos estados com dados completos de acompanhamento, e chegou, em média, a 23,8%. A variação por etnia e origem é expressiva:
- Brancos não hispânicos: 38,9%
- Hispânicos: 26,1%
- Negros não hispânicos nascidos nos EUA: 19,6%
- Negros não hispânicos nascidos no Caribe: 14,5%
A diferença não é só estatística. A análise mostrou que negros não hispânicos nascidos no Caribe têm mais que o dobro de risco de morrer especificamente de ATLL do que brancos não hispânicos, uma disparidade que persiste mesmo quando se levam em conta fatores como idade, sexo e forma de apresentação da doença.
Desde 2000, mais de 300 mil bebês nasceram de mães caribenhas somente na Flórida sem qualquer triagem sistemática para o HTLV-1, segundo os autores, a maior oportunidade perdida de prevenção primária de câncer no país.
Vírus latente, câncer tardio
A ATLL quase sempre começa da mesma forma: um bebê infectado durante a amamentação por uma mãe portadora do vírus. O HTLV-1 invade as células de defesa do organismo e ali fica adormecido, silencioso, sem sintomas, por quatro a cinco décadas, acumulando danos que, em uma pequena fração dos casos, culminam no câncer. A doença se manifesta tipicamente entre os 50 e os 60 anos de idade. Apenas 2% a 5% dos infectados desenvolvem o ATLL.
Entre adultos, o vírus também pode ser transmitido por via sexual ou pelo sangue, da mesma forma que o HIV. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA recomenda que, nos casos de infecção materna confirmada, a amamentação seja substituída por fórmulas lácteas. Um detalhe importante: o uso de PrEP e outras estratégias de prevenção do HIV não protegem contra o HTLV-1, o que torna o rastreamento das mães a única forma eficaz de cortar a cadeia de transmissão que origina o câncer.
Por se originar quase que exclusivamente da infecção na primeira infância, a ATLL é, segundo os autores, um dos poucos cânceres de sangue que é fundamentalmente evitável.
O problema oculto: erros de diagnóstico
A invisibilidade da doença tem uma segunda camada. A ATLL é frequentemente confundida com outros tipos de câncer de células T, em particular com o chamado PTCL-NOS, uma categoria usada quando os médicos não conseguem identificar um subtipo específico. O motivo é simples: o teste para HTLV-1 não é feito de rotina quando há suspeita de linfoma de células T, especialmente em pacientes de comunidades imigrantes.
Os pesquisadores estimaram o impacto dessa confusão. Realocando os casos provavelmente mal classificados para o diagnóstico correto, a incidência de ATLL entre caribenhos não hispânicos subiria de 14,1 para 22,7 por milhão, nível comparável ao do sudoeste do Japão, a região historicamente mais afetada do mundo. Para pessoas nascidas em Granada, a taxa poderia chegar a 59,0 por milhão, superando até o Japão.
Para os autores, trata-se de uma falha clínica corrigível: o teste para HTLV-1 deveria ser rotineiro em qualquer diagnóstico de linfoma de células T sem classificação definida, sobretudo em pacientes vindos de regiões endêmicas.
Japão como modelo de prevenção
O Japão é a prova de que é possível reduzir a doença. Por mais de três décadas, o país realizou o rastreamento de gestantes para o HTLV-1 e orientou as mães infectadas a não amamentarem. Os resultados demoraram a aparecer, mas chegaram: a partir de 2013, o número de novos casos de ATLL começou a cair em Kagoshima, uma das regiões mais afetadas do país.
Nos EUA, esse caminho ainda não foi percorrido. Os testes para o HTLV-1 são feitos apenas em doações de sangue, não nas gestantes. Os autores propõem uma alternativa prática: em vez de rastrear toda a população (custo-efetividade baixa, dada a prevalência geral baixa do vírus no país), concentrar o esforço nas mães nascidas em países do Caribe não hispânico, onde o risco é comprovadamente alto.
O momento é urgente. Os bebês infectados nas décadas de 1990 e 2010 estão chegando agora à faixa etária em que o ATLL se manifesta. Sem intervenção, a tendência é de alta.
Brasil: endemia silenciosa
O Brasil realiza o teste do HTLV-1 em doadores de sangue e em gestantes, mas a cobertura é insuficiente. A doença provavelmente já é mais comum do que os números oficiais indicam, simplesmente porque poucos casos chegam a ser diagnosticados. Um resumo do Congresso Brasileiro de Hematologia de 2025, com dados do Hospital Universitário Gaffree e Guinle (HUGG/UNIRIO), encontrou apenas seis casos confirmados de ATLL em dez anos de atendimento em um ambulatório de referência no Rio de Janeiro. Todos os pacientes eram mulheres, com idade média de 58 anos, e morreram em média em 13 meses após o diagnóstico, muito menos do que os 23,8% que sobrevivem por cinco anos nos EUA, onde ao menos o diagnóstico é feito.
A alta prevalência do vírus já foi verificada em regiões com grande proporção de pessoas negras, como Salvador, o que se explica, em parte, pela origem africana de parcela dessa população: a África central e ocidental são regiões historicamente endêmicas do HTLV-1.
Como o HTLV-1 causa o ATLL?
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1. Transmissão vertical (mãe-filho)
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o principal mecanismo de infecção ocorre durante a amamentação: o bebê entra em contato com o leite materno de uma mãe portadora do vírus. É praticamente o único caminho que leva ao desenvolvimento do ATLL décadas depois.
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2. Infecção das células de defesa
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o HTLV-1 invade um tipo específico de célula do sistema imunológico — as células T CD4+ — e passa a viver dentro delas permanentemente, sem causar sintomas imediatos.
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3. Décadas de silêncio
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o vírus permanece adormecido por 40 a 60 anos, causando danos genéticos lentos e acumulativos às células infectadas. A pessoa não sabe que está infectada e não apresenta sintomas durante esse período.
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4. Desenvolvimento do câncer
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em 2% a 5% dos infectados, os danos acumulados ao longo de décadas desencadeiam o câncer, geralmente entre os 50 e os 60 anos de idade. A forma mais grave, chamada linfomatosa, é a mais comum em populações caribenhas e africanas.
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5. Diagnóstico frequentemente errado
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como o teste para HTLV-1 não é feito de rotina, médicos muitas vezes classificam o ATLL como outro tipo de linfoma de células T. Estima-se que cerca de um terço dos casos nos EUA não receba o diagnóstico correto.
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6. Transmissão entre adultos
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além da via mãe-filho, o vírus pode ser transmitido por relações sexuais desprotegidas e transfusões de sangue sem triagem. Estratégias de prevenção do HIV — incluindo PrEP — não oferecem proteção contra o HTLV-1.
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