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21.05.2026 Saúde Mental

Pesquisas ampliam escuta de jovens para aprimorar cuidado em saúde mental

Estudos revelam que 85% de universitárias apresentaram depressão durante pandemia e apontam ferramentas digitais como caminho para ampliar acesso a serviços

Jovem negra de cabelo cacheado curto sorrindo amplamente enquanto está encostada em uma parede de pedra ao lado de uma porta de madeira envelhecida. Ela veste jaqueta preta sobre camiseta escura e um colar com pingente em forma de cruz. A luz natural ilumina seu rosto, transmitindo bem-estar e positividade. Pesquisadores brasileiros e internacionais desenvolvem ferramentas digitais para ampliar acesso de jovens a serviços de saúde mental | Imagem: Unsplash

Em 2000, Luciane Kantorski, professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e coordenadora da rede de atenção psicossocial de Pelotas (RS), foi uma das responsáveis pelo cadastro do Grupo de Pesquisa em Enfermagem, Saúde Mental e Saúde Coletiva no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Nos primeiros anos, o grupo focou na avaliação da qualidade dos serviços dedicados ao sofrimento psíquico. Com o tempo, outras questões ganharam destaque, incluindo trabalhos sobre o perfil de pessoas que buscam ajuda em serviços de saúde mental — entre elas, os jovens.

Kantorski observa que o sofrimento psíquico nessa faixa etária aumentou nos últimos anos, principalmente durante a pandemia de Covid-19. Essa percepção motivou a ampliação de pesquisas sobre a intersecção entre saúde mental e juventude.

Um artigo publicado em 2024 analisou a saúde mental de 329 estudantes universitárias durante o ensino remoto. A partir de questionários e modelos padronizados para mensurar níveis de depressão, ansiedade e ideação suicida, Kantorski e os coautores concluíram que 85% da amostra apresentava algum índice de depressão, 24% níveis altos de ansiedade e 25% relataram ideação suicida.

Pandemia agravou sofrimento psíquico entre jovens

Os malefícios da pandemia de Covid-19 para a saúde mental dos jovens brasileiros também são tema de um informe dedicado à saúde mental da Agenda Jovem Fiocruz, iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que desenvolve projetos focados nos desafios da juventude brasileira.

No relatório, os autores apontam que a pandemia aumentou índices de sofrimento psíquico na população brasileira em geral, mas foi sentida principalmente por jovens “em razão do estágio de vida marcado por intensa sociabilidade e circulação”.

O estudo considerou dados de saúde mental disponibilizados em sistemas do Sistema Único de Saúde (SUS), com foco em informações sobre internações, mortalidades e atendimentos à população de 15 a 29 anos em todo o Brasil.

André Sobrinho, coordenador da iniciativa, defende que levantamentos como esse oferecem uma visão do agravamento da saúde mental em jovens brasileiros. 

Aproximadamente 10% dos atendimentos a jovens na atenção básica estão relacionados à saúde mental. O percentual poderia ser maior, já que, entre jovens, a taxa de procura por serviços de saúde mental na atenção primária é menos da metade em comparação à população geral.

Um eixo central do levantamento foi analisar a saúde mental de jovens em relação a fatores como gênero, raça e região de moradia. Considerar esses aspectos resultou na conclusão de que problemas de saúde mental e a procura por ajuda especializada são distintos dependendo do perfil sociodemográfico dos jovens.

Um exemplo é a diferença entre homens e mulheres: eles têm uma taxa de internação 57% maior, dado apontado como “bastante superior” no relatório da Agenda Jovem Fiocruz.

Essa conjunção de fatores socioeconômicos também ajuda a explicar o deterioramento mental dos jovens brasileiros. O mundo do trabalho é um deles, com alto grau de precarização e jornadas extenuantes, aponta Sobrinho. 

Responsabilidades familiares e dificuldade em continuar os estudos são outros aspectos que podem afetar a saúde mental de jovens.

Grupos terapêuticos mostram resultados positivos

Por isso, é importante ouvir os jovens para entender suas condições e prover serviços adequados às suas necessidades, afirma Kantorski. Um exemplo é um artigo coassinado pela pesquisadora cujo objetivo foi discutir os desdobramentos terapêuticos de grupos voltados para adolescentes em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

A partir de observações desses espaços, os autores registraram desfechos positivos na reabilitação psicossocial de adolescentes que frequentavam os CAPS, principalmente em temas como sexualidade, conflitos familiares e uso de drogas.

Para a professora da UFPEL, no entanto, pesquisas que considerem jovens no centro de questões sobre saúde mental ainda precisam ser mais disseminadas. 

“Esses serviços de saúde precisam se preparar mais para esses jovens. É preciso compreender para dar conta das demandas”, afirma, indicando o advento das redes sociais como uma diferença importante entre os jovens de hoje em comparação com o passado.

Austrália inspira modelo brasileiro de cuidado

A dificuldade de prover serviços adequados de saúde mental é um problema sentido em outros países. Ian Hickie, professor de psiquiatria da Universidade de Sydney, na Austrália, vem estudando o tema há anos. 

Já na década de 1990, estava evidente para o pesquisador que havia uma lacuna entre centros dedicados à saúde mental de jovens na Austrália e um serviço eficaz e de qualidade para essa população.

Na década seguinte, em 2006, houve o estabelecimento do National Youth Mental Health Foundation, conhecido como Headspace. O serviço australiano foi criado para construir centros onde serviços primários de saúde mental ou porta de entrada para o sistema de saúde fossem ofertados aos jovens.

Segundo o último relatório oficial do programa, divulgado em outubro do ano passado, um milhão de jovens já acessaram algum tipo de serviço ofertado pelo Headspace.

Mas Hickie acredita que o modelo tem falhas. “Esses centros são muito focados em infraestrutura física. O objetivo é estabelecer novas clínicas que criem portas de entrada para aumentar o acesso aos cuidados de saúde”, aponta o especialista.

A eficácia do Headspace já foi abordada em artigos científicos. Uma pesquisa publicada em 2023 na PLOS One analisou dados de cerca de 58 mil jovens que acessaram o serviço entre 2019 e 2020.

Para avaliar o desfecho desses pacientes, os autores se atentaram a dados do sofrimento psíquico relatado pelos próprios jovens, à qualidade de vida também indicada pelos pacientes e à avaliação que profissionais de saúde fizeram dos jovens após o acesso aos centros do Headspace. 

O resultado foi positivo: cerca de um terço dos pacientes apresentou melhora no sofrimento psíquico, enquanto metade deles relatou melhora na qualidade de vida.

No entanto, também existem contra-argumentos sobre a falta de evidência robusta sobre o serviço. Em um artigo publicado em 2023 antes da pesquisa veiculada na PLOS One, outros pesquisadores afirmaram que estudos publicados sobre o Headspace apresentam pouca padronização para mensurar o resultado do serviço e, mesmo quando desfechos positivos são observados, eles normalmente não eram clinicamente relevantes.

Hickie também questiona a relevância de programas como o Headspace. Ele defende que modelos centrados em clínicas físicas não são escaláveis e nem conseguem lidar com toda a complexidade envolvendo a degradação da saúde mental em jovens. 

Cuidado contínuo, altamente personalizado, com constante acompanhamento e avaliação dos pacientes e dos próprios serviços de saúde são alguns dos fatores envolvidos nesse tipo de serviço.

Ferramentas digitais ampliam acesso a cuidado

Uma solução pode ser a adoção de ferramentas digitais. “Na era digital, é possível que jovens sejam participantes ativos no processo de acompanhamento do que está acontecendo com sua saúde mental de forma a acessar suporte adicional”, resume Hickie.

O professor da Universidade de Sydney está envolvido em diferentes projetos que utilizam recursos digitais na tentativa de construir serviços de saúde mental de qualidade dedicados à população jovem. Uma dessas iniciativas foi no Brasil, por meio de uma colaboração com Pedro Pan, médico psiquiatra e orientador do programa de pós-graduação em psiquiatria e psicologia médica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Pan já tinha colaborado com um grupo de pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, em um projeto para identificar sinais precoces de esquizofrenia em jovens. Anos depois, o médico voltou a colaborar com cientistas australianos — dessa vez, com o próprio Hickie.

A parceria foi fundamental para desenvolver uma ferramenta digital brasileira cuja finalidade é analisar a saúde mental de jovens a partir de dados gerais do paciente. Chamada de Mindcheck, da qual Pan é cofundador, a tecnologia engloba diferentes aspectos como pensamentos, emoções, tempos de tela e habilidades socioemocionais para realizar um check-up digital de saúde mental.

Ferramentas como essas podem ser úteis por gerarem mais engajamento nessa faixa etária, já que “os jovens estão utilizando os meios digitais e esses tipos de ferramenta”, afirma o médico psiquiatra.

Cerca de 100 avaliações já foram feitas. Metade delas ocorreu durante o desenvolvimento da plataforma, enquanto a outra parte aconteceu na fase piloto. “Os dados iniciais mostram que a Mindcheck ajuda a identificar perfis de risco em saúde mental que muitas vezes não haviam sido reconhecidos previamente por jovens ou familiares, além de facilitar a tomada de consciência sobre fatores importantes do cotidiano, como sono, uso de telas, rotina, estresse e bem-estar emocional”, resume Pan.

Um artigo sobre o desenvolvimento da plataforma e com avaliações qualitativas do seu uso está em revisão para ser publicado em um periódico científico. Enquanto isso, exemplos individuais de jovens atendidos com a tecnologia ilustram a fala de Pan.

Um caso foi de uma jovem que apresentava dificuldade de atenção na escola. A suspeita era um transtorno cognitivo, mas a avaliação da Mindcheck apontou que o problema poderia estar relacionado ao uso intenso de telas durante a noite. “A partir da reorganização do sono e da redução do uso noturno de telas, houve uma melhora substancial da atenção e do desempenho escolar, sem necessidade de intervenções mais complexas”, conta Pan.

Cooperação internacional enfrenta desafios de adaptação

O diálogo entre Pan e Hickie que resultou na Mindcheck ilustra como colaborações internacionais podem ser importantes para melhorar o cuidado em saúde mental de jovens. Mas essas parcerias têm limitações, principalmente pelas diferenças locais de cada região.

A questão econômica entre países desenvolvidos e em desenvolvimento pode representar um desafio — por exemplo, entre Austrália e Brasil. “Não é tudo realmente que se replica da mesma maneira”, explica Pan.

Uma forma de melhorar essas adaptações é definir padrões de pesquisas entre diferentes países, aponta Sobrinho, da Agenda Jovem Fiocruz. Dessa maneira, mesmo que estudos considerem a realidade local do sofrimento psíquico de jovens, a colaboração e trocas internacionais seriam facilitadas. 

“Exige-se um esforço maior não só de uma rede de intercâmbio, mas também da definição de parâmetros científicos e metodológicos globais dos quais podemos partir”, conclui o pesquisador.

Como melhorar a pesquisa sobre saúde mental em jovens?

Tópico 1: Ampliar pesquisas com foco em jovens 

Desenvolver mais estudos que coloquem os jovens no centro das questões sobre saúde mental, considerando suas necessidades específicas e diferenças em relação a gerações anteriores, incluindo o impacto das redes sociais.

Tópico 2: Considerar fatores socioeconômicos 

Analisar saúde mental em relação a gênero, raça, região de moradia e condições de trabalho, reconhecendo que problemas e busca por ajuda variam conforme perfil sociodemográfico.

Tópico 3: Investir em ferramentas digitais

Criar plataformas de avaliação e acompanhamento online que permitam aos jovens serem participantes ativos no cuidado com sua saúde mental, ampliando acesso e engajamento.

Tópico 4: Fortalecer atenção primária 

Aumentar procura por serviços de saúde mental na atenção básica, que atualmente atende apenas metade dos jovens em comparação à população geral.

Tópico 5: Promover grupos terapêuticos em CAPS

Expandir espaços de atendimento coletivo para adolescentes que demonstram resultados positivos em temas como sexualidade, conflitos familiares e uso de drogas.

Tópico 6: Estabelecer padrões de pesquisa globais

Definir parâmetros científicos e metodológicos compartilhados entre países para facilitar colaborações internacionais e adaptações locais de boas práticas.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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