#Notícias
Maioria dos doutores trabalha fora da academia, mas programas de doutorado não preparam para essa trajetória
Revisão de 71 publicações identifica lacuna entre formação doutoral e carreira não-acadêmica e aponta o que universidades e governos precisam mudar
Carreiras fora da academia são hoje a norma entre doutores, mas a transição ainda é marcada por incerteza | Imagem: Unsplash
Uma revisão de literatura reuniu 71 publicações — 57 artigos científicos e 14 relatórios nacionais e internacionais — sobre a carreira de doutores fora da academia para traçar um panorama do que se investiga na área. Os estudos analisados indicam que os doutores sentem que a formação não os prepara para trabalhar fora da academia, mas que as habilidades desenvolvidas, como pensamento crítico, gestão de projetos e análise de dados, costumam ser valorizadas por empregadores.
Os dados reunidos pelo estudo mostram que carreiras fora da academia são hoje a norma, não a exceção. Nos Estados Unidos e no Canadá, apenas 20 a 25% dos doutores obtêm posições tenure-track, cargos em universidades que colocam o pesquisador em um caminho formal para obter estabilidade permanente.
Na Europa, as taxas variam: 31% na Holanda, 19% no Reino Unido e 9,5% na Itália trabalham na academia. Na Austrália, cerca de 42% dos doutores atuam no ensino superior, proporção comparativamente alta, mas ainda minoritária.
Carreira não-acadêmica: uma lacuna documentada
Há um padrão que se repete nos estudos sobre escolhas de carreira: muitos iniciam o doutorado com intenção de seguir carreira acadêmica, mas as intenções se deslocam ao longo da formação.
Estabilidade, salário e equilíbrio entre vida pessoal e profissional atraem para o mercado, enquanto autonomia intelectual e gosto pela pesquisa básica retêm na academia.
Esses são alguns dos achados do estudo de revisão “PhD graduates pursuing careers beyond academia: a scoping review“, de Isabelle Skakni e colaboradores, publicada no periódico Higher Education Research & Development.
O estudo se baseia em publicações de 2000 a 2021, representadas em sua maioria por estudos da América do Norte e da Europa, com destaque para EUA (37%), Reino Unido (17%) e Austrália (13%). Trata-se de um limite do estudo e do próprio campo que ele mapeia.
Sair da academia ainda é visto, em muitos contextos, como fracasso. Mudar essa percepção dentro das universidades é condição para qualquer outra reforma funcionar.
No Brasil, o novo Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) aponta como um dos desafios a empregabilidade de mestres e doutores, devido à dissonância que ainda existe entre a academia e o mercado de trabalho.
O PNPG recomenda a construção de pontes com outros ambientes profissionais (relação academia–setor produtivo não acadêmico, academia–sociedade, academia–instituições culturais, academia–educação básica) e a criação de indicadores que avaliem o impacto da pós-graduação no setor produtivo não acadêmico.
Os achados da revisão ajudam a entender por que essa ponte é difícil de construir.
O que os empregadores pensam (e o que muda depois da contratação)
Apenas 16% dos estudos incluem empregadores como população investigada. Ao passo que valorizam as capacidades analíticas dos doutores, eles demonstram ceticismo sobre se a escolha pela carreira não-acadêmica é genuína ou resultado de falta de alternativa.
Outro achado é a mudança de percepção após a experiência: organizações que nunca tiveram doutores em seus quadros tendem a ser mais resistentes à contratação. As que já o fizeram relatam maior satisfação e mais disposição para repetir.
A discussão aponta para uma lacuna cultural mais do que institucional. Programas de apoio à carreira existem.
Os autores os classificam em três tipos: suplementares (workshops opcionais e recursos online paralelos ao doutorado), imersivos (estágios, pesquisas de curto prazo e programas de mentoria) e transformadores (integração do desenvolvimento de carreira ao próprio currículo doutoral). A literatura sobre a eficácia dessas iniciativas, no entanto, é escassa.
O que os estudos convergem em dizer é que sair da academia ainda é visto, em muitos contextos, como fracasso. Mudar essa percepção dentro das universidades, argumentam os autores, é condição para qualquer outra reforma funcionar.
*
É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).