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15.05.2026 Pós-Graduação

Maioria dos doutores trabalha fora da academia, mas programas de doutorado não preparam para essa trajetória

Revisão de 71 publicações identifica lacuna entre formação doutoral e carreira não-acadêmica e aponta o que universidades e governos precisam mudar

Mulher branca de cabelos loiros longos, vestindo vestido vermelho, sentada de costas para o observador em uma cadeira de escritório branca. Ela apoia a mão no rosto e olha pela janela de vidro de um edifício corporativo em andar alto, com vista para uma cidade ao fundo. Carreiras fora da academia são hoje a norma entre doutores, mas a transição ainda é marcada por incerteza | Imagem: Unsplash

Uma revisão de literatura reuniu 71 publicações — 57 artigos científicos e 14 relatórios nacionais e internacionais — sobre a carreira de doutores fora da academia para traçar um panorama do que se investiga na área. Os estudos analisados indicam que os doutores sentem que a formação não os prepara para trabalhar fora da academia, mas que as habilidades desenvolvidas, como pensamento crítico, gestão de projetos e análise de dados, costumam ser valorizadas por empregadores.

Os dados reunidos pelo estudo mostram que carreiras fora da academia são hoje a norma, não a exceção. Nos Estados Unidos e no Canadá, apenas 20 a 25% dos doutores obtêm posições tenure-track, cargos em universidades que colocam o pesquisador em um caminho formal para obter estabilidade permanente. 

Na Europa, as taxas variam: 31% na Holanda, 19% no Reino Unido e 9,5% na Itália trabalham na academia. Na Austrália, cerca de 42% dos doutores atuam no ensino superior, proporção comparativamente alta, mas ainda minoritária.

Carreira não-acadêmica: uma lacuna documentada

Há um padrão que se repete nos estudos sobre escolhas de carreira: muitos iniciam o doutorado com intenção de seguir carreira acadêmica, mas as intenções se deslocam ao longo da formação. 

Estabilidade, salário e equilíbrio entre vida pessoal e profissional atraem para o mercado, enquanto autonomia intelectual e gosto pela pesquisa básica retêm na academia.

Esses são alguns dos achados do estudo de revisão “PhD graduates pursuing careers beyond academia: a scoping review“, de Isabelle Skakni e colaboradores, publicada no periódico Higher Education Research & Development

O estudo se baseia em publicações de 2000 a 2021, representadas em sua maioria por estudos da América do Norte e da Europa, com destaque para EUA (37%), Reino Unido (17%) e Austrália (13%). Trata-se de um limite do estudo e do próprio campo que ele mapeia.

Sair da academia ainda é visto, em muitos contextos, como fracasso. Mudar essa percepção dentro das universidades é condição para qualquer outra reforma funcionar.

No Brasil, o novo Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) aponta como um dos desafios a empregabilidade de mestres e doutores, devido à dissonância que ainda existe entre a academia e o mercado de trabalho. 

O PNPG recomenda a construção de pontes com outros ambientes profissionais (relação academia–setor produtivo não acadêmico, academia–sociedade, academia–instituições culturais, academia–educação básica) e a criação de indicadores que avaliem o impacto da pós-graduação no setor produtivo não acadêmico.

Os achados da revisão ajudam a entender por que essa ponte é difícil de construir.

O que os empregadores pensam (e o que muda depois da contratação)

Apenas 16% dos estudos incluem empregadores como população investigada. Ao passo que valorizam as capacidades analíticas dos doutores, eles demonstram ceticismo sobre se a escolha pela carreira não-acadêmica é genuína ou resultado de falta de alternativa.

Outro achado é a mudança de percepção após a experiência: organizações que nunca tiveram doutores em seus quadros tendem a ser mais resistentes à contratação. As que já o fizeram relatam maior satisfação e mais disposição para repetir.

A discussão aponta para uma lacuna cultural mais do que institucional. Programas de apoio à carreira existem. 

Os autores os classificam em três tipos: suplementares (workshops opcionais e recursos online paralelos ao doutorado), imersivos (estágios, pesquisas de curto prazo e programas de mentoria) e transformadores (integração do desenvolvimento de carreira ao próprio currículo doutoral). A literatura sobre a eficácia dessas iniciativas, no entanto, é escassa.

O que os estudos convergem em dizer é que sair da academia ainda é visto, em muitos contextos, como fracasso. Mudar essa percepção dentro das universidades, argumentam os autores, é condição para qualquer outra reforma funcionar.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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