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Por que o zika quase desapareceu no Brasil — e por que isso ainda preocupa cientistas
Com casos de microcefalia ainda registrados, pesquisadores brasileiros mapeiam avanços desde 2015, hipóteses para a queda do zika e perguntas ainda sem resposta
O Aedes aegypti, vetor do zika, da dengue e do chikungunya, permanece endêmico no Brasil — e a persistência do vírus mesmo em baixa incidência reforça a necessidade de vigilância contínua | Imagem: Unsplash
Dez anos depois da maior epidemia de zika já registrada, a incidência do vírus caiu acentuadamente no Brasil. Em 2024, enquanto a dengue atingia o maior número de casos da história, com quase 6 milhões de confirmações segundo o DataSUS, o zika somou apenas 1.981 casos — sendo 1.561 confirmados por exames laboratoriais e 389 por critério clínico-epidemiológico.
O contraste é expressivo: os dois vírus compartilham o mesmo vetor, o mosquito Aedes aegypti, o que torna improvável que o controle vetorial explique sozinho a diferença.
Pesquisadores ainda não chegaram a um consenso sobre o que determinou essa queda, mas apontam uma combinação de fatores biológicos e epidemiológicos.
Um estudo de Felipe Yuji Sasazaki e colaboradores do Laboratório NB3 de Neuroimunologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicado no periodico Virology Journal, reúne os desafios já superados e os que ainda precisam ser enfrentados para compreender o vírus e seus impactos a longo prazo.
O pico epidêmico de 2015 e a resposta das autoridades
As primeiras infecções por zika foram identificadas no Brasil em 2015, em amostras coletadas naquele mesmo ano. O número de casos cresceu rapidamente e, na mesma proporção, aumentaram os nascimentos de crianças com microcefalia.
A associação entre o vírus e a malformação foi formalmente confirmada em 28 de novembro de 2015. Até o fim da década seguinte, foram registrados 178.517 casos confirmados no Brasil, segundo o DataSUS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) — o maior número nas Américas.
Em comparação, Porto Rico, o segundo país mais afetado nas Américas, registrou menos de 38 mil casos no mesmo período.
Além da microcefalia, outras manifestações clínicas foram identificadas nas crianças afetadas, incluindo alterações auditivas e visuais. O conjunto dessas condições levou especialistas a adotar o termo Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZ), descrita pela primeira vez no mundo no Brasil.
Importante ressalva: a SCZ não se manifesta sempre como microcefalia ao nascer. Danos neurológicos podem aparecer com atraso, o que dificulta o diagnóstico precoce e sugere que o número de casos pode ser maior do que o registrado.
Diante do cenário, o governo federal declarou Emergência de Saúde Pública Nacional em 11 de novembro de 2015, que durou 18 meses.
Em 2016, lançou uma campanha massiva contra o Aedes aegypti, que incluiu iniciativas educacionais, treinamento de profissionais de saúde e mobilização das Forças Armadas para eliminação de criadouros.
A maioria dos casos e das microcefalias associadas ao zika ocorreu nas regiões Sudeste e Nordeste, sendo esta última a mais afetada pela malformação.
Fatores associados à redução de casos
A análise identifica ao menos quatro hipóteses para explicar a queda. A primeira envolve a coinfecção do mosquito: quando o Aedes aegypti carrega simultaneamente o zika e o chikungunya, ou o zika e a dengue, sua competência vetorial para transmitir o vírus zika pode se reduzir em 10%, de acordo com um estudo publicado no Journal of Infectious Diseases em 2021.
Embora modesta isoladamente, essa redução pode ter papel relevante em um contexto multifatorial.
A segunda hipótese aponta para a imunidade de rebanho.
O zika possui apenas um sorotipo descrito, o que significa que a infecção por qualquer variante provavelmente confere imunidade duradoura. Com parte significativa da população já exposta durante o pico epidêmico, a circulação viral perderia força naturalmente.
Um terceiro fator e a subnotificação estrutural: a maioria dos casos de zika é assintomático ou oligossintomático, o que reduz a procura por atendimento e, por consequência, os registros oficiais. Por fim, a tecnologia Wolbachia avançou significativamente.
O Brasil investiu na produção e liberação de Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, que reduz drasticamente a competência vetorial para zika, dengue e chikungunya. Em 2025, o Ministério da Saúde inaugurou a maior biofábrica de Wolbachia do mundo.
Questões em aberto: imunidade, ciclo silvestre e vigilância
Apesar da queda, o zika não desapareceu. Entre 2021 e 2023 (os últimos anos com dados disponíveis), o Brasil registrou entre 4 e 8 novos casos de microcefalia associada ao vírus por ano.
O estudo aponta questões científicas sem resposta, entre elas a duração exata da imunidade adquirida após a infecção: alguns estudos sugerem que dura cerca de dois anos; outros registram reinfecções em até seis meses.
Um ponto de atenção destacado pelos autores é o papel dos anticorpos contra a dengue na dinâmica do zika. Esses anticorpos podem tanto neutralizar o vírus quanto facilitar sua entrada nas células.
O mecanismo é conhecido como ADE (do inglês antibody-dependent enhancement). A recente campanha nacional de vacinação contra a dengue pode alterar o perfil imunológico da população e interferir na transmissão do zika. Os pesquisadores recomendam monitorar esse efeito cuidadosamente.
O artigo também alerta para a possibilidade de um ciclo silvestre do zika: um estudo detectou RNA viral em populações de Ae. albopictus e Haemagogus leucocelaenus coletados em áreas com baixa interferência humana no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2019, período em que os casos urbanos já haviam caído.
Isso sugere que o vírus pode continuar circulando fora do radar da vigilância convencional, possivelmente envolvendo primatas não humanos como reservatórios.
Não há vacina licenciada para o zika, embora candidatos estejam em ensaios clínicos de fases 1 e 2. Tampouco há antiviral aprovado; candidatos a antivirais precisam demonstrar ausência de risco teratogênico, o que torna o desenvolvimento ainda mais complexo.
Os autores recomendam ampliar a vigilância vetorial, aprimorar o diagnóstico e garantir suporte de longo prazo às famílias afetadas pela SCZ.
Avanços sociais e diagnósticos
Além do controle vetorial, o Brasil avançou em outras frentes. O governo federal instituiu compensação financeira às famílias com SCZ por meio da Lei nº 15.156, de 1º de julho de 2025, e sancionou em 2020 uma pensão vitalícia para as crianças afetadas.
O sistema público de saúde também oferece acompanhamento médico a gestantes com suspeita de infecção por zika.
No campo do diagnóstico, avançou-se consideravelmente desde 2015. Kits multiplexados para detecção simultânea de zika, dengue e chikungunya foram desenvolvidos no Brasil e distribuídos aos 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN), o que aumentou a capacidade de confirmação laboratorial em todas as regiões do país.
O principal desafio atual é a reatividade cruzada entre o zika e outros flavivírus circulantes no Brasil, especialmente a dengue, que compromete a especificidade dos testes sorológicos.
Fatores associados à queda de casos de Zika no Brasil
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1. Coinfecção vetorial
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a presença simultânea de zika com dengue ou chikungunya no mesmo mosquito pode reduzir em até 10% a competência do Aedes aegypti para transmitir o vírus zika.
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2. Imunidade de rebanho:
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O zika possui um único sorotipo descrito. Após o pico epidêmico de 2015-2016, parte significativa da população já desenvolveu anticorpos, o que tende a reduzir a circulação viral ao longo do tempo.
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3. Subnotificação estrutural
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A maioria das infecções é assintomática ou apresenta sintomas leves, o que diminui a busca por atendimento e, consequentemente, os registros oficiais. Isso significa que os números reportados subestimam a circulação real do vírus.
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4. Controle vetorial e Wolbachia
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A campanha nacional de 2016 mobilizou as Forças Armadas e profissionais de saúde para eliminar criadouros. Em paralelo, o Brasil expandiu o uso de Aedes aegypti infectados com Wolbachia, bactéria que reduz a competência vetorial para zika, dengue e chikungunya. Em 2025, o Ministério da Saúde inaugurou a maior biofábrica de Wolbachia do mundo.
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5. Efeito dos anticorpos da dengue (ADE)
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anticorpos gerados por infecção ou vacinação contra dengue podem interferir na dinâmica do Zika pelo mecanismo de antibody-dependent enhancement (ADE), potencializando ou neutralizando a infecção conforme fatores do hospedeiro e do vírus. A campanha nacional de vacinação contra dengue, lançada recentemente, torna esse monitoramento ainda mais urgente.6. Ciclo silvestre: estudos detectaram RNA de zika em mosquitos de vacinação silvestres no Rio de Janeiro, mesmo após a queda dos casos urbanos. Isso sugere que o vírus pode persistir em áreas de baixa interferência humana, possivelmente em primatas não humanos, sem ser captado pela vigilância convencional.
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