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20.05.2026 Epidemiologia

Por que o zika quase desapareceu no Brasil — e por que isso ainda preocupa cientistas

Com casos de microcefalia ainda registrados, pesquisadores brasileiros mapeiam avanços desde 2015, hipóteses para a queda do zika e perguntas ainda sem resposta

Fotografia em macro de um mosquito Aedes aegypti em processo de alimentação sobre pele humana de tom claro. O abdome do inseto aparece distendido e avermelhado, indicando ingestão de sangue. O corpo é preto com manchas brancas e as pernas apresentam listras claras características da espécie. O fundo está desfocado em tons bege e rosado. O Aedes aegypti, vetor do zika, da dengue e do chikungunya, permanece endêmico no Brasil — e a persistência do vírus mesmo em baixa incidência reforça a necessidade de vigilância contínua | Imagem: Unsplash

Dez anos depois da maior epidemia de zika já registrada, a incidência do vírus caiu acentuadamente no Brasil. Em 2024, enquanto a dengue atingia o maior número de casos da história, com quase 6 milhões de confirmações segundo o DataSUS, o zika somou apenas 1.981 casos — sendo 1.561 confirmados por exames laboratoriais e 389 por critério clínico-epidemiológico. 

O contraste é expressivo: os dois vírus compartilham o mesmo vetor, o mosquito Aedes aegypti, o que torna improvável que o controle vetorial explique sozinho a diferença. 

Pesquisadores ainda não chegaram a um consenso sobre o que determinou essa queda, mas apontam uma combinação de fatores biológicos e epidemiológicos. 

Um estudo de Felipe Yuji Sasazaki e colaboradores do Laboratório NB3 de Neuroimunologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicado no periodico Virology Journal, reúne os desafios já superados e os que ainda precisam ser enfrentados para compreender o vírus e seus impactos a longo prazo.

O pico epidêmico de 2015 e a resposta das autoridades

As primeiras infecções por zika foram identificadas no Brasil em 2015, em amostras coletadas naquele mesmo ano. O número de casos cresceu rapidamente e, na mesma proporção, aumentaram os nascimentos de crianças com microcefalia

A associação entre o vírus e a malformação foi formalmente confirmada em 28 de novembro de 2015. Até o fim da década seguinte, foram registrados 178.517 casos confirmados no Brasil, segundo o DataSUS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) — o maior número nas Américas. 

Em comparação, Porto Rico, o segundo país mais afetado nas Américas, registrou menos de 38 mil casos no mesmo período.

Além da microcefalia, outras manifestações clínicas foram identificadas nas crianças afetadas, incluindo alterações auditivas e visuais. O conjunto dessas condições levou especialistas a adotar o termo Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZ), descrita pela primeira vez no mundo no Brasil. 

Importante ressalva: a SCZ não se manifesta sempre como microcefalia ao nascer. Danos neurológicos podem aparecer com atraso, o que dificulta o diagnóstico precoce e sugere que o número de casos pode ser maior do que o registrado.

Diante do cenário, o governo federal declarou Emergência de Saúde Pública Nacional em 11 de novembro de 2015, que durou 18 meses. 

Em 2016, lançou uma campanha massiva contra o Aedes aegypti, que incluiu iniciativas educacionais, treinamento de profissionais de saúde e mobilização das Forças Armadas para eliminação de criadouros. 

A maioria dos casos e das microcefalias associadas ao zika ocorreu nas regiões Sudeste e Nordeste, sendo esta última a mais afetada pela malformação.

Fatores associados à redução de casos

A análise identifica ao menos quatro hipóteses para explicar a queda. A primeira envolve a coinfecção do mosquito: quando o Aedes aegypti carrega simultaneamente o zika e o chikungunya, ou o zika e a dengue, sua competência vetorial para transmitir o vírus zika pode se reduzir em 10%, de acordo com um estudo publicado no Journal of Infectious Diseases em 2021

Embora modesta isoladamente, essa redução pode ter papel relevante em um contexto multifatorial.

A segunda hipótese aponta para a imunidade de rebanho

O zika possui apenas um sorotipo descrito, o que significa que a infecção por qualquer variante provavelmente confere imunidade duradoura. Com parte significativa da população já exposta durante o pico epidêmico, a circulação viral perderia força naturalmente.

Um terceiro fator e a subnotificação estrutural: a maioria dos casos de zika é assintomático ou oligossintomático, o que reduz a procura por atendimento e, por consequência, os registros oficiais. Por fim, a tecnologia Wolbachia avançou significativamente. 

O Brasil investiu na produção e liberação de Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, que reduz drasticamente a competência vetorial para zika, dengue e chikungunya. Em 2025, o Ministério da Saúde inaugurou a maior biofábrica de Wolbachia do mundo.

Questões em aberto: imunidade, ciclo silvestre e vigilância

Apesar da queda, o zika não desapareceu. Entre 2021 e 2023 (os últimos anos com dados disponíveis), o Brasil registrou entre 4 e 8 novos casos de microcefalia associada ao vírus por ano

O estudo aponta questões científicas sem resposta, entre elas a duração exata da imunidade adquirida após a infecção: alguns estudos sugerem que dura cerca de dois anos; outros registram reinfecções em até seis meses.

Um ponto de atenção destacado pelos autores é o papel dos anticorpos contra a dengue na dinâmica do zika. Esses anticorpos podem tanto neutralizar o vírus quanto facilitar sua entrada nas células. 

O mecanismo é conhecido como ADE (do inglês antibody-dependent enhancement). A recente campanha nacional de vacinação contra a dengue pode alterar o perfil imunológico da população e interferir na transmissão do zika. Os pesquisadores recomendam monitorar esse efeito cuidadosamente.

O artigo também alerta para a possibilidade de um ciclo silvestre do zika: um estudo detectou RNA viral em populações de Ae. albopictus e Haemagogus leucocelaenus coletados em áreas com baixa interferência humana no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2019, período em que os casos urbanos já haviam caído. 

Isso sugere que o vírus pode continuar circulando fora do radar da vigilância convencional, possivelmente envolvendo primatas não humanos como reservatórios.

Não há vacina licenciada para o zika, embora candidatos estejam em ensaios clínicos de fases 1 e 2. Tampouco há antiviral aprovado; candidatos a antivirais precisam demonstrar ausência de risco teratogênico, o que torna o desenvolvimento ainda mais complexo. 

Os autores recomendam ampliar a vigilância vetorial, aprimorar o diagnóstico e garantir suporte de longo prazo às famílias afetadas pela SCZ.

Avanços sociais e diagnósticos

Além do controle vetorial, o Brasil avançou em outras frentes. O governo federal instituiu compensação financeira às famílias com SCZ por meio da Lei nº 15.156, de 1º de julho de 2025, e sancionou em 2020 uma pensão vitalícia para as crianças afetadas

O sistema público de saúde também oferece acompanhamento médico a gestantes com suspeita de infecção por zika.

No campo do diagnóstico, avançou-se consideravelmente desde 2015. Kits multiplexados para detecção simultânea de zika, dengue e chikungunya foram desenvolvidos no Brasil e distribuídos aos 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN), o que aumentou a capacidade de confirmação laboratorial em todas as regiões do país. 

O principal desafio atual é a reatividade cruzada entre o zika e outros flavivírus circulantes no Brasil, especialmente a dengue, que compromete a especificidade dos testes sorológicos.

Fatores associados à queda de casos de Zika no Brasil

1. Coinfecção vetorial

a presença simultânea de zika com dengue ou chikungunya no mesmo mosquito pode reduzir em até 10% a competência do Aedes aegypti para transmitir o vírus zika.

2. Imunidade de rebanho:

O zika possui um único sorotipo descrito. Após o pico epidêmico de 2015-2016, parte significativa da população já desenvolveu anticorpos, o que tende a reduzir a circulação viral ao longo do tempo.

3. Subnotificação estrutural

A maioria das infecções é assintomática ou apresenta sintomas leves, o que diminui a busca por atendimento e, consequentemente, os registros oficiais. Isso significa que os números reportados subestimam a circulação real do vírus.

4. Controle vetorial e Wolbachia

A campanha nacional de 2016 mobilizou as Forças Armadas e profissionais de saúde para eliminar criadouros. Em paralelo, o Brasil expandiu o uso de Aedes aegypti infectados com Wolbachia, bactéria que reduz a competência vetorial para zika, dengue e chikungunya. Em 2025, o Ministério da Saúde inaugurou a maior biofábrica de Wolbachia do mundo.

5. Efeito dos anticorpos da dengue (ADE)

anticorpos gerados por infecção ou vacinação contra dengue podem interferir na dinâmica do Zika pelo mecanismo de antibody-dependent enhancement (ADE), potencializando ou neutralizando a infecção conforme fatores do hospedeiro e do vírus. A campanha nacional de vacinação contra dengue, lançada recentemente, torna esse monitoramento ainda mais urgente.6. Ciclo silvestre: estudos detectaram RNA de zika em mosquitos de vacinação silvestres no Rio de Janeiro, mesmo após a queda dos casos urbanos. Isso sugere que o vírus pode persistir em áreas de baixa interferência humana, possivelmente em primatas não humanos, sem ser captado pela vigilância convencional.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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