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Proteínas criadas do zero abrem nova fronteira na biotecnologia
Inteligência artificial e modelagem computacional aceleram a busca por moléculas capazes de se encaixar em alvos biológicos específicos
Softwares avançados testam bilhões de combinações de aminoácidos até encontrar a sequência capaz de se dobrar na estrutura tridimensional ideal, etapa central do design de proteínas do zero impulsionado por inteligência artificial | Imagem: Pexels
Por milênios, a relação da humanidade com a biologia foi passiva, feita de observação e adaptação. Se a medicina precisava de um composto contra uma doença, naturalistas e cientistas vasculhavam plantas, fungos ou bactérias na esperança de garimpar uma molécula útil moldada pela evolução.
Mas esse paradigma está mudando cada vez mais. Impulsionado por ferramentas computacionais e inteligência artificial (IA), o campo do design de proteínas de novo inaugurou uma verdadeira era industrial na biotecnologia: agora, cientistas buscam a solução exata para cada problema.
Essa mudança de lógica foi celebrada no cenário global em 2024, quando o Prêmio Nobel de Química reconheceu o design de proteínas, mérito do bioquímico David Baker, e os avanços na predição de estruturas tridimensionais, alcançados por Demis Hassabis e John Jumper.
No design de proteínas, em vez de pegar uma proteína da natureza e tentar modificá-la, fluxo que costuma ser impreciso e demorado, pesquisadores passam a definir primeiro qual função biológica a molécula precisa executar, para só então desenhar a estrutura ideal do zero.
A lógica da chave e da fechadura no design de proteínas
Para entender essa mudança, vale retomar a estrutura básica das proteínas. Simplificando ao máximo, elas funcionam no organismo como uma chave e uma fechadura: atuam por meio do encaixe preciso com outras moléculas.
Se essa “fechadura” for o receptor de um vírus ou de uma célula tumoral, o desafio da ciência é criar a “chave” exata para bloqueá-la ou ativá-la.
Com o design, os aminoácidos funcionam como blocos de montagem virtuais. Softwares avançados testam bilhões de combinações até encontrar a sequência química capaz de se dobrar no espaço tridimensional e formar a “chave” ideal.
“No design de proteínas, o limitante vai ser a sua imaginação, pois as possibilidades são muito amplas”, disse Helder Veras, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em entrevista ao Science Arena.
Redução do tempo de desenvolvimento com IA
No passado, encontrar essas respostas exigia décadas de testes manuais em laboratório. Hoje, o processo é acelerado por algoritmos como o RoseTTAFold e outros sistemas baseados em IA.
Essas ferramentas não substituem a etapa de bancada, mas funcionam como um filtro ultrarrápido, reduzindo um universo de bilhões de variantes para um grupo viável de 1.000 a 10.000 versões com real potencial funcional.
Essa automação resolveu um dos maiores gargalos da área (e da ciência em geral), que era o tempo.
Equipes de pesquisa que antes dedicavam um doutorado inteiro para gerar um único anticorpo inédito, hoje conseguem desenhar centenas de novas proteínas por ano.
O limite antes imposto pela biologia parece ter sido superado, e a era das moléculas sob medida está se impondo.
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