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“Uma espécie em extinção”: o que está empurrando médicos-pesquisadores para fora da ciência
Levantamento com 230 profissionais nos EUA mostra que 49% consideram deixar a pesquisa, e os motivos vão além da falta de dinheiro
Burnout, estresse e falta de financiamento estão entre os principais fatores que levam médicos-pesquisadores a considerar abandonar a carreira científica, aponta estudo publicado na BMC Medical Education | Imagem: Pexels
Os chamados médicos-pesquisadores (profissionais que dividem o tempo entre a pesquisa científica e a prática clínica) são considerados peça-chave na tradução de descobertas científicas em novos tratamentos.
Apesar disso, um estudo publicado na revista BMC Medical Education revelou que quase metade (49%) desses profissionais nos Estados Unidos cogitam abandonar a carreira de pesquisa, nos dois anos seguintes, para se dedicar exclusivamente ao atendimento de pacientes.
O levantamento foi conduzido com 230 médicos-pesquisadores de 110 instituições estadunidenses, recrutados por meio da plataforma SurveyMonkey. O grupo era composto majoritariamente por residentes, fellows e graduados de programas de treinamento nos últimos dez anos.
Entre os participantes, 56% eram homens e 67% tinham entre 35 e 44 anos.
As principais razões para considerar o abandono foram o sentimento de infelicidade e o estresse (35%), o burnout (35%) e a dificuldade de obter financiamento (30%). Apenas 10% declararam não ter qualquer intenção de deixar a pesquisa.
Barreiras para o início de carreira
Entre os desafios mais frequentes, 63% dos participantes citaram a dificuldade de equilibrar responsabilidades clínicas e acadêmicas. A conciliação entre trabalho e vida familiar foi apontada por 53%, e a insuficiência de financiamento para pesquisa, por 41%.
Os autores do estudo verificaram que a maioria dos médicos-pesquisadores passava mais tempo no laboratório do que no consultório. A divisão mais comum era na proporção de 80/20 (37% dos casos), seguida por 75/25 (18%). Uma parcela menor dedicava proporções iguais a ambas as atividades.
O estudo também identificou disparidades de representação: mulheres, minorias étnicas, pessoas com baixo nível socioeconômico e com deficiência estão sub-representadas nesse grupo, embora não tenham sido encontradas diferenças estatisticamente significativas nas respostas entre homens e mulheres.
“Os médicos pesquisadores têm uma combinação única de competências que ampliam as possibilidades das práticas correntes e motiva o desenvolvimento de soluções inovadoras”, diz Jennifer Kwan, da Universidade de Yale e coautora do estudo, em declaração ao site da instituição.
Trabalho e família
Mais da metade dos participantes relatou dificuldades para equilibrar trabalho e vida familiar. Os principais entraves citados foram o treinamento prolongado, a pressão por produtividade científica e a baixa remuneração.
Como consequência, médicos-pesquisadores que desejam constituir família podem adiar ou abandonar o projeto — decisão que tende a ser particularmente difícil para mulheres, em razão dos riscos associados à gravidez tardia.
Os autores ressaltam que políticas institucionais como creche e agenda flexível são condições essenciais para viabilizar a maternidade nesse contexto.
O declínio no número de médicos-pesquisadores não é recente.
Segundo artigo publicado em dezembro de 2023 na revista Nature Medicine, citado pelos autores, a prevalência desses profissionais na comunidade médica caiu de 4,5% para 1,6% entre 1985 e 2011, redução de 35%, mesmo período em que o orçamento dos National Institutes of Health (NIH) dobrou.
Outro indicador preocupante é o envelhecimento da categoria. Um estudo publicado em agosto de 2018 no Journal of Infectious Diseases observou declínio significativo no número de cientistas entre 31 e 50 anos.
“Os médicos-cientistas são considerados uma espécie em extinção”, afirma Jennifer Kwan.
Comprometimento com a ciência
Apesar da disposição de muitos em abandonar a área, a maior parte dos participantes afirmou que havia grande probabilidade de continuarem. Segundo os autores, esse dado pode refletir o forte comprometimento com a ciência e o impacto percebido do trabalho de pesquisa.
Outros fatores que contribuem para a permanência incluem a obtenção de financiamento, que, embora competitivo, oferece estabilidade temporária, a expectativa de melhoria no ambiente de pesquisa e a percepção de não estar preparado para atuar exclusivamente na atenção a pacientes ou na indústria farmacêutica.
Para conter o desgaste no médio e longo prazo, os autores recomendam ampliar programas de bolsas para médicos em início de carreira, oferecer incentivos financeiros e criar programas estruturados de mentoria e desenvolvimento de carreira.
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