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12.06.2026 Saúde Mental

“Uma espécie em extinção”: o que está empurrando médicos-pesquisadores para fora da ciência

Levantamento com 230 profissionais nos EUA mostra que 49% consideram deixar a pesquisa, e os motivos vão além da falta de dinheiro

A imagem mostra uma mulher branca de meia-idade, com cabelos curtos castanhos, óculos de armação preta, jaleco verde e estetoscópio no pescoço. Ela está sentada à mesa, apoiando o rosto na mão esquerda, com expressão cansada ou preocupada, olhando para um notebook aberto. Sobre a mesa há canetas, marcadores, uma máscara cirúrgica e outros objetos. O fundo é branco. Burnout, estresse e falta de financiamento estão entre os principais fatores que levam médicos-pesquisadores a considerar abandonar a carreira científica, aponta estudo publicado na BMC Medical Education | Imagem: Pexels

Os chamados médicos-pesquisadores (profissionais que dividem o tempo entre a pesquisa científica e a prática clínica) são considerados peça-chave na tradução de descobertas científicas em novos tratamentos. 

Apesar disso, um estudo publicado na revista BMC Medical Education revelou que quase metade (49%) desses profissionais nos Estados Unidos cogitam abandonar a carreira de pesquisa, nos dois anos seguintes, para se dedicar exclusivamente ao atendimento de pacientes.

O levantamento foi conduzido com 230 médicos-pesquisadores de 110 instituições estadunidenses, recrutados por meio da plataforma SurveyMonkey. O grupo era composto majoritariamente por residentes, fellows e graduados de programas de treinamento nos últimos dez anos. 

Entre os participantes, 56% eram homens e 67% tinham entre 35 e 44 anos.

As principais razões para considerar o abandono foram o sentimento de infelicidade e o estresse (35%), o burnout (35%) e a dificuldade de obter financiamento (30%). Apenas 10% declararam não ter qualquer intenção de deixar a pesquisa.

Barreiras para o início de carreira

Entre os desafios mais frequentes, 63% dos participantes citaram a dificuldade de equilibrar responsabilidades clínicas e acadêmicas. A conciliação entre trabalho e vida familiar foi apontada por 53%, e a insuficiência de financiamento para pesquisa, por 41%.

Os autores do estudo verificaram que a maioria dos médicos-pesquisadores passava mais tempo no laboratório do que no consultório. A divisão mais comum era na proporção de 80/20 (37% dos casos), seguida por 75/25 (18%). Uma parcela menor dedicava proporções iguais a ambas as atividades.

O estudo também identificou disparidades de representação: mulheres, minorias étnicas, pessoas com baixo nível socioeconômico e com deficiência estão sub-representadas nesse grupo, embora não tenham sido encontradas diferenças estatisticamente significativas nas respostas entre homens e mulheres.

“Os médicos pesquisadores têm uma combinação única de competências que ampliam as possibilidades das práticas correntes e motiva o desenvolvimento de soluções inovadoras”, diz Jennifer Kwan, da Universidade de Yale e coautora do estudo, em declaração ao site da instituição.

Trabalho e família

Mais da metade dos participantes relatou dificuldades para equilibrar trabalho e vida familiar. Os principais entraves citados foram o treinamento prolongado, a pressão por produtividade científica e a baixa remuneração.

Como consequência, médicos-pesquisadores que desejam constituir família podem adiar ou abandonar o projeto — decisão que tende a ser particularmente difícil para mulheres, em razão dos riscos associados à gravidez tardia. 

Os autores ressaltam que políticas institucionais como creche e agenda flexível são condições essenciais para viabilizar a maternidade nesse contexto.

O declínio no número de médicos-pesquisadores não é recente. 

Segundo artigo publicado em dezembro de 2023 na revista Nature Medicine, citado pelos autores, a prevalência desses profissionais na comunidade médica caiu de 4,5% para 1,6% entre 1985 e 2011, redução de 35%, mesmo período em que o orçamento dos National Institutes of Health (NIH) dobrou.

Outro indicador preocupante é o envelhecimento da categoria. Um estudo publicado em agosto de 2018 no Journal of Infectious Diseases observou declínio significativo no número de cientistas entre 31 e 50 anos.

“Os médicos-cientistas são considerados uma espécie em extinção”, afirma Jennifer Kwan.

Comprometimento com a ciência

Apesar da disposição de muitos em abandonar a área, a maior parte dos participantes afirmou que havia grande probabilidade de continuarem. Segundo os autores, esse dado pode refletir o forte comprometimento com a ciência e o impacto percebido do trabalho de pesquisa.

Outros fatores que contribuem para a permanência incluem a obtenção de financiamento, que, embora competitivo, oferece estabilidade temporária, a expectativa de melhoria no ambiente de pesquisa e a percepção de não estar preparado para atuar exclusivamente na atenção a pacientes ou na indústria farmacêutica.

Para conter o desgaste no médio e longo prazo, os autores recomendam ampliar programas de bolsas para médicos em início de carreira, oferecer incentivos financeiros e criar programas estruturados de mentoria e desenvolvimento de carreira.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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