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Como integrar pesquisadores em início de carreira à gestão de projetos científicos
Estudo de caso europeu descreve estruturas e práticas que ampliam a participação ativa de jovens pesquisadores em consórcios de pesquisa
Estruturas de participação que garantem voz real a pesquisadores em início de carreira beneficiam não só as trajetórias individuais, mas a qualidade do projeto como um todo | Imagem: Unsplash
Pesquisadores em início de carreira representam uma parcela expressiva da força de trabalho em projetos científicos colaborativos, mas há poucas orientações sobre como engajá-los de forma significativa. Não apenas como executores de tarefas, mas como participantes ativos na gestão.
Um relato de caso recente do projeto MYRIAD-EU, consórcio europeu voltado ao gerenciamento sistêmico de riscos de desastres, oferece uma experiência concreta: com 30% da equipe formada por Early Career Researchers (ECRs) [pesquisadores em início de carreira], o projeto documentou quais estruturas e práticas tornaram possível a participação ativa desse grupo.
O Conselho de ECRs: estrutura integrada desde a proposta
O principal mecanismo adotado pelo MYRIAD-EU foi a criação de um Conselho de Pesquisadores em Início de Carreira, previsto já na fase de elaboração da proposta do projeto e não implementado como adaptação posterior.
O Conselho operava com rotatividade periódica de membros e incluía um representante eleito integrado à equipe de gerenciamento central do consórcio.
Na prática do dia a dia, ECRs em estágio mais avançado assumiram funções de liderança ou de liderança compartilhada em subgrupos de trabalho.
As reuniões do projeto reservavam tempo para que todos os pesquisadores em início de carreira apresentassem seu trabalho e recebessem retorno de pesquisadores seniores, o que, segundo os autores, gerou benefícios mútuos: os ECRs ganharam visibilidade e feedback, e o projeto se beneficiou de perspectivas novas, recursos adicionais e maior reconhecimento externo do consórcio.
A inserção de pesquisadores em início de carreira em estruturas de governança desde a proposta do projeto — e não como apêndice — é o que distingue participação simbólica de participação real.
O segundo eixo de empoderamento do MYRIAD-EU foi a organização de eventos. O exemplo central foi a DRR Academy, escola de verão coorganizada por uma equipe de cinco pesquisadores em início de carreira de quatro projetos europeus distintos, com apoio de um pesquisador sênior.
Em vez de aulas expositivas, o grupo desenhou um formato interativo: workshops, sessões de resolução de problemas e um dia inteiro dedicado à escrita de propostas de pesquisa, demanda levantada pelos próprios participantes durante o planejamento.
Algumas das propostas desenvolvidas na Academia resultaram em projetos colaborativos reais. A iniciativa foi bem-sucedida a ponto de ter uma segunda edição em 2025, organizada por um novo grupo de ECRs.
Os organizadores ganharam experiência em gestão de eventos e tomada de decisão; os participantes ampliaram redes e desenvolveram habilidades que, em condições normais, podem ser alcançadas apenas em etapas mais avançadas da carreira.
O terceiro eixo foi a construção ativa de redes profissionais que extrapolaram o consórcio. Ao longo dos quatro anos, os ECRs passaram de contatos de projeto a colaboradores de pesquisa: coautores de artigos, entre eles um publicado na revista iScience, co-convocaram sessões na Assembleia Geral da União Europeia de Geociências (EGU) e realizaram estadas de pesquisa em instituições parceiras.
O ponto de partida, segundo os autores, foram os jantares informais organizados pelos ECRs antes de cada assembleia geral do projeto — sem pauta formal, mas com função clara: construir confiança suficiente para que, depois, pedir conexões e oportunidades aos pesquisadores mais experientes deixasse de parecer uma imposição.
Fatores que sustentam o empoderamento
A partir da experiência no MYRIAD-EU, os autores identificaram três fatores interdependentes que sustentam o que chamam de empoderamento, uma cultura de pesquisa em que ECRs sentem ter “a autoridade e a oportunidade de contribuir de forma significativa”.
O primeiro é o suporte consultivo de orientadores e supervisores, que vai além do acompanhamento técnico. Trata-se de reuniões regulares, disponibilidade para conversas individuais e reconhecimento explícito das contribuições dos ECRs fora da pesquisa direta.
O estudo recupera a expressão “pay trust forward” para descrever a responsabilidade do orientador que foi apoiado no início de sua própria carreira a repassar esse apoio à geração seguinte, uma cadeia de suporte que se sustenta pela reciprocidade, não pela hierarquia.
O segundo fator é a agência do próprio pesquisador: disposição para sair da zona de conforto, iniciar conversas com pesquisadores seniores, defender posições e comunicar ativamente o que quer aprender. Os autores reconhecem que essas situações podem gerar fricções, mas as descrevem como parte esperada e produtiva do processo — não como obstáculos a evitar.
O terceiro fator é externo ao indivíduo: a estrutura do próprio projeto. A distribuição de ECRs em diferentes estágios de carreira ao longo do consórcio — o MYRIAD-EU contava com 30 pesquisadores em estágio inicial e 11 em estágio avançado, num total de 133 participantes de 19 instituições —, a disponibilidade de financiamento flexível e o reconhecimento explícito, pela coordenação, de que tempo dedicado a atividades de desenvolvimento não compete com entregas científicas foram determinantes para que o empoderamento saísse do discurso.
Os autores fazem um alerta: no clima atual de publish-or-perish, ECRs são especialmente vulneráveis à sobrecarga e à exploração.
Estruturas de empoderamento que não venham acompanhadas de proteções concretas contra isso correm o risco de adicionar obrigações sem adicionar direitos.
Por onde começar: das ações simples às estruturas permanentes
Os autores propõem uma progressão de medidas organizadas por grau de investimento necessário. O ponto de entrada mais acessível é também o mais imediato: reservar espaço nas reuniões de projeto para que os ECRs apresentem seu trabalho e se conectem com pares, ação de baixo custo e alto impacto simbólico.
A partir daí, o caminho avança para a estruturação de programas de mentoria formais e, com maior investimento institucional, para a construção de uma comunidade que conecte ECRs de diferentes projetos, ampliando redes e referências além do consórcio de origem.
Os autores dirigem uma recomendação específica às agências de fomento: incorporar o tema da participação de ECRs nos critérios de avaliação de propostas e nos relatórios periódicos de projetos.
A mensagem é que a responsabilidade pelo empoderamento não recai apenas sobre os projetos individualmente, mas sobre o sistema de financiamento que os molda.
O debate no Brasil
O tema ainda ocupa espaço restrito na agenda da política científica brasileira. Enquanto no contexto europeu o termo Early Career Researchers (ECRs) funciona como categoria institucionalizada, orientando financiamento, diretrizes e avaliações, o equivalente mais próximo em português, “jovem pesquisador“, remete à idade e não ao estágio da carreira, o que limita seu alcance analítico e político.
A literatura brasileira sobre esse grupo tende a se concentrar nas condições de formação na pós-graduação e nas precárias condições de trabalho.
A questão da inserção desses pesquisadores em projetos colaborativos como participantes ativos na gestão — não apenas como bolsistas ou executores — ainda aguarda agenda própria.
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