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12.05.2026 Formação

Brasil forma doutores, mas não os absorve: dados revelam evasão de talentos e gargalos estruturais

Relatório da OCDE mapeia trajetórias científicas em 53 países e mostra que o Brasil emprega apenas 2,8 doutores por mil trabalhadores, quatro vezes menos que a média internacional

Ilustração horizontal em tons quentes mostra, ao centro, uma lupa focando o mapa do Brasil formado por peças de quebra‑cabeça, com algumas peças se desprendendo e saindo da cena, simbolizando pesquisadores que vão para o exterior. Ao redor, há ícones de ciência como tubos de ensaio, gráficos, lâmpadas e engrenagens. À esquerda, duas silhuetas conversam com ondas sonoras entre elas; à direita, uma fileira de figuras humanas, poucas com jaleco, sugerindo a baixa presença de doutores no mercado de trabalho. Dados da OCDE revelam que Brasil forma doutores, mas não consegue absorvê-los no mercado de trabalho | Imagem gerada por IA

O caminho que por décadas definiu a carreira científica — da pós-graduação ao pós-doutorado e, por fim, à universidade — já não corresponde à trajetória da maioria dos pesquisadores. Diante de cortes orçamentários, escassez de vagas permanentes e pressão crescente por resultados, um número cada vez maior de cientistas tem buscado carreiras fora da academia: por exemplo, em startups de base científica, organizações da sociedade civil ou setores antes considerados periféricos à produção do conhecimento.

Esse movimento, observado em diversos países, ganhou contornos mais precisos com as análises do Research and Innovation Careers Observatory (ReICO), iniciativa conjunta da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Comissão Europeia. 

Em relação ao Brasil, os dados revelam um diagnóstico preocupante: o país perde 1,36% de seus autores científicos para outros países, a terceira maior taxa negativa da América Latina.

O que é o ReICO e por que ele importa

O ReICO funciona como um hub dinâmico de informação sobre carreiras em pesquisa e inovação. Lançado em junho de 2025, após seis anos de desenvolvimento, o observatório reúne dashboards interativos, visualizações para download, bases de dados abertas e uma combinação de estatísticas oficiais e experimentais de 53 países. 

O objetivo é apoiar decisões baseadas em evidências por formuladores de políticas, instituições de pesquisa e pelos próprios pesquisadores.

A iniciativa responde a duas demandas convergentes: uma recomendação do Conselho da União Europeia para criar um marco europeu de atração e retenção de talentos em pesquisa e empreendedorismo, e a Declaração Ministerial da OCDE de 2024 sobre Políticas Transformadoras de CT&I, que pediu explicitamente ferramentas para monitorar inclusão, mobilidade e condições de carreira científica.

Em entrevista ao Science Arena, Fernando Galindo, economista principal na Diretoria de Ciência, Tecnologia e Inovação da OCDE e responsável pelo ReICO, explica que o ReICO busca abarcar diversas lacunas de conhecimento e evidências sobre as características das carreiras em pesquisa e inovação. “Tudo isso sob uma perspectiva internacional, aprendendo com iniciativas anteriores que não chegaram a atingir massa crítica.”

A plataforma está organizada em três eixos temáticos — desenvolvimento de talentos, mercado de trabalho em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e circulação de pesquisadores — e cobre aspectos que vão desde as aspirações profissionais de jovens de 15 anos até as condições de emprego de pesquisadores seniores. 

Dos 53 países participantes, 45 já indicaram pontos de contato nacionais para coordenar o envio de dados; o Brasil é um deles.

O que dizem os dados do ReICO sobre o Brasil

Progressão acadêmica

39% dos mestres brasileiros ingressam no doutorado, ante 9,6% na média da OCDE, mas o avanço não se traduz em maior densidade de doutores na economia.

Densidade de doutores

2,8 doutores por mil trabalhadores no Brasil, contra 12 na média da OCDE e 33,2 na Suíça, país líder no indicador.

Fluxo líquido de autores 

-1,36%; o Brasil é o terceiro país latino-americano com maior saída de pesquisadores, atrás de Colômbia e Peru.

Participação em STEM 

Apenas 10% dos doutores brasileiros atuam nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), contra 50% na média da OCDE.

Aspirações juvenis

9,7% dos jovens brasileiros de 15 a 16 anos declaram querer trabalhar em ciência ou engenharia, proporção próxima à média da OCDE (10,7%), mas sem dados de acompanhamento que permitam verificar se essa expectativa se concretiza.

O retrato do Brasil: formação avançada, absorção precária

Três indicadores disponíveis no relatório do ReICO traçam um diagnóstico consistente sobre a ciência brasileira quando analisados em conjunto.

O primeiro diz respeito à progressão acadêmica: 39% dos mestres no Brasil ingressam no doutorado, proporção expressivamente superior à média da OCDE, em que apenas 9,6% dos mestres seguem para essa etapa. 

Entre 2017 e 2022, houve crescimento de 3,7% nessa transição, indicando melhora recente. O avanço, porém, não se traduz em maior presença de doutores na economia.

O segundo indicador revela essa limitação estrutural: o Brasil registra 2,8 doutores por mil trabalhadores, número muito inferior à média da OCDE (12 por mil) e da União Europeia (11,2 por mil). 

Em países com maior incorporação de alta qualificação, a distância é ainda mais expressiva: a Suíça contabiliza 33,2 doutores por mil trabalhadores; a Eslovênia, 27,5; e Luxemburgo, 26,6.  Embora relativamente muitos mestres avancem para o doutorado no Brasil, o mercado absorve muito poucos desses profissionais.

O terceiro indicador fecha o diagnóstico: o Brasil apresenta fluxo líquido negativo de autores de -1,36%, o que significa que o país perdeu cerca de 1,36% de sua força de trabalho científica para outros países no período analisado. 

Na comparação latino-americana, o Brasil ocupa a terceira posição em fluxo negativo, atrás de Colômbia e Peru. Globalmente, os maiores fluxos de atração de pesquisadores concentram-se em Luxemburgo, Arábia Saudita e Suíça; os maiores fluxos de saída, na África do Sul, Argentina e Brasil.

Galindo ressalta que esse movimento precisa ser interpretado com cautela, já que o indicador registra mudanças de vínculo institucional ao longo do tempo e não permite concluir automaticamente que há “fuga de cérebros”, já que a mobilidade científica pode incluir períodos temporários, retornos e reintegração. 

Ainda assim, os três indicadores em conjunto apontam para um ciclo de fragilidade: o Brasil forma poucos doutores em relação à sua força de trabalho; os que se formam encontram dificuldade de inserção qualificada; e uma parcela expressiva migra para o exterior.

“No Brasil, apenas 10% dos doutores atuam em setores STEM, o que corresponde a cerca de 4,6 mil profissionais, em comparação com a média de 50% nos países da OCDE”, diz Fernando Galindo, economista principal da OCDE.

Subaproveitamento crônico: o que os dados nacionais confirmam

Para Daniel Colombo, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o ReICO supre uma lacuna fundamental ao disponibilizar dados comparáveis internacionalmente. 

“Embora o país disponha de bases de dados sólidas — da Capes à RAIS [Relação Anual das Informações Sociais] —, faltava uma plataforma capaz de conectar essas informações a tendências globais”, afirma.

Estudos conduzidos por Colombo no Ipea aprofundam o diagnóstico: cerca de 85% dos doutores empregados no setor privado fora do setor educacional ocupam postos classificados como incompatíveis com o nível do doutorado — ou seja, cargos nos quais o título não é necessário para o desempenho das atividades. 

Trata-se de um descompasso entre o nível educacional e a exigência formal da ocupação, sinal claro de subaproveitamento de habilidades.

Em análise da evolução desse indicador entre 2010 e 2021, Colombo identificou que o percentual de doutores em ocupações incompatíveis cresceu ao longo do período entre aqueles empregados no setor privado fora da educação — sugerindo deterioração das condições de absorção. 

O chamado “prêmio salarial” do doutorado, calculado por modelo econométrico, chega a apenas 8,7% no setor privado não educacional e 1,1% no setor privado educacional. A comparação com países desenvolvidos é reveladora: na Alemanha, esse retorno estimado alcança 26,8% em relação a indivíduos com mestrado; na Finlândia, 31%.

Colombo aponta que enfrentar esse quadro exige mudanças estruturais e culturais: “Políticas públicas capazes de integrar universidade, empresas e governo, além da valorização de múltiplas trajetórias profissionais, são essenciais para evitar que o país continue formando cientistas que não encontram espaço para exercer plenamente suas habilidades. É crucial combater a cultura que associa sucesso exclusivamente à carreira docente.”

O pesquisador destaca que as dificuldades já são reconhecidas pelos órgãos responsáveis pela pós-graduação. O Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) 2025–2029 admite que a expansão do sistema não foi acompanhada, na mesma proporção, pela ampliação da empregabilidade dos egressos, e que a absorção de mestres e doutores permanece concentrada principalmente em instituições de ciência e tecnologia (ICTs), órgãos governamentais e empresas de economia mista.

O que CAPES e CNPq fazem diante desse cenário

Fachada do edifício-sede da CAPES em Brasília, com logotipo azul da instituição em destaque sobre parede de concreto, ao fundo céu azul claro
Sede da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em Brasília, agência responsável pela avaliação da pós-graduação no Brasil e pelo monitoramento do destino de egressos dos programas científicos nacionais | Imagem: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

Para Antônio Gomes, diretor de Avaliação da Pós-Graduação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Brasil dispõe de um diferencial institucional relevante: a Plataforma Sucupira. “É uma das formas de avaliação e coleta de dados que muitos países não têm”, afirma. 

Segundo ele, o sistema já permite monitorar os egressos da pós-graduação e deverá ser sistematizado de forma mais robusta em breve. “Para a Capes, hoje, o mais importante são os egressos.”

Na avaliação do dirigente, transformar o cenário das carreiras científicas passa por ampliar parcerias com empresas e criar ecossistemas de engajamento que conectem a pós-graduação às demandas estratégicas do país, aproximando a formação de pesquisadores do mercado de trabalho não acadêmico.

No Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a perspectiva é complementar. Dalila Andrade, da Diretoria de Cooperação Institucional, Internacional e Inovação da agência, explica que os dados da Plataforma Lattes e da Plataforma Sucupira são cruzados com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, para rastrear o destino de egressos fora da academia. “Se ele não seguiu a carreira acadêmica, conseguimos identificar para onde foi”, explica.

Esse cruzamento de dados subsidia pesquisas como o estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) sobre doutores empregados no Brasil, que evidencia um padrão preocupante: a maioria de mestres e doutores está concentrada na área da educação, sobretudo no setor público, enquanto o emprego desses profissionais em indústrias e empresas permanece residual. 

Para Dalila Andrade, esse quadro exige que o setor empresarial seja sensibilizado sobre a importância de assimilar pesquisadores altamente qualificados.

“Reforçamos que quem deve manter os pesquisadores no Brasil não são apenas as agências de fomento, mas as instituições que os empregam. Esse não é um desafio exclusivo do CNPq, mas um desafio do Brasil como um todo”, explica Dalila Andrade, diretora de Cooperação Institucional do CNPq.

Entre as iniciativas recentes do CNPq para enfrentar o problema, estão o Programa Conhecimento Brasil, com bolsas de R$ 13 mil (o maior valor já pago pela agência), e o Programa de Fixação de Doutores (Profix), com o mesmo valor e foco na retenção de talentos no país. 

O Profix opera em parceria com as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) estaduais, que oferecem apoio adicional em recursos de pesquisa e bolsas de iniciação científica.

Iniciativas existentes e lacunas a preencher

O relatório da OCDE recomenda maior integração entre academia e empresas, valorização de carreiras diversas e estímulo à mobilidade intersetorial e internacional. 

Algumas iniciativas brasileiras já apontam nessa direção. O Programa de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE) incentiva a contratação de pesquisadores por empresas inovadoras; o Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), financia pesquisa em micro e pequenas empresas; e a Capes vem ajustando sua avaliação para considerar o destino dos egressos fora da academia.

Ainda assim, as assimetrias persistem. A distribuição desigual de infraestrutura e oportunidades de pesquisa aprofunda desigualdades regionais, especialmente no Norte do país, em áreas STEM e entre grupos historicamente sub-representados. 

A precarização por meio de bolsas de pós-doutorado e contratos temporários também segue tendências globais, mas no caso brasileiro ocorre sem as contrapartidas institucionais observadas em países que já diversificaram e estabilizaram suas carreiras científicas.

Galindo, da OCDE, ressalta que o ReICO não inclui projeções sobre o futuro: “Os dados sobre o desenvolvimento de talentos ajudam a fornecer uma indicação da oferta futura de talentos de pesquisa, mas não da demanda futura. Indicadores sobre a distribuição etária e a dependência de talentos móveis internacionais também dão uma ideia sobre possíveis desafios futuros para os países.”

O observatório, portanto, não oferece respostas prontas, mas fornece um mapa. O desafio do Brasil é usá-lo para transformar dados, talentos e políticas em um ecossistema real de inovação e oportunidades, antes que mais pesquisadores decidam construir esse futuro em outro lugar.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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