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Falta de financiamento contínuo compromete carreira de médicos-cientistas no Brasil
Dependência de editais curtos e incertos impede que profissionais com dupla atuação mantenham estabilidade e produção científica
“O médico-cientista é quem transforma dados em impacto real”, afirma Beatriz Barreto-Duarte, pesquisadora do Laboratório de Pesquisa Clínica e Translacional da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia | Imagem: Unsplash
Ao decidir desenvolver um projeto de pesquisa, muitos médicos-cientistas no Brasil encontram um obstáculo que antecede qualquer questão metodológica: de onde virá o dinheiro. E, pior, por quanto tempo.
A médica e pesquisadora Beatriz Barreto-Duarte, do Laboratório de Pesquisa Clínica e Translacional da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia, não descreve esse cenário apenas como entrevistada: ela o documenta como autora. Em artigo publicado na revista PLOS Global Public Health, em coautoria com outros pesquisadores, Barreto-Duarte mapeou as dificuldades enfrentadas por médicos-cientistas em países de baixa e média renda — categoria na qual o Brasil se enquadra.
Entre os obstáculos identificados estão a formação longa e árdua, sistemas que valorizam a medicina baseada em prestígio em vez de evidências, e os desincentivos financeiros para quem opta pela carreira dupla. Em entrevista ao Science Arena, ela detalhou o problema.
Editais curtos, carreiras instáveis
No Brasil, muitos médicos-cientistas ainda dependem de editais de duração limitada e renovação incerta. Isso impede a estabilidade necessária para que estudos sejam conduzidos com a profundidade que exigem.
Para ela, a equação é direta: sem tempo protegido — isto é, períodos garantidos para a pesquisa, livres de outras demandas clínicas — não há como produzir ciência de qualidade de forma sustentada.
“É preciso reconhecer o médico-cientista como figura estratégica, com bolsas de transição e integração real entre universidades, hospitais e o Sistema Único de Saúde (SUS)”, pontuou.
“Ciência de qualidade exige constância”, afirma.
Como outros países resolveram o problema
Em contraste com o cenário brasileiro, Beatriz cita exemplos onde médicos-cientistas contão com suporte institucional sólido. No Reino Unido, o Instituto Nacional para Pesquisa em Saúde (NIHR) financia profissionais em diferentes estágios de carreira dentro do próprio sistema de saúde, mantendo a produção científica próxima das necessidades do paciente.
Bons exemplos também existem em países de baixa e média renda. A Rede Latino-Americana de Educação em Pesquisa em Saúde (LANEHR) foca na formação de lideranças regionais nos âmbitos da pesquisa e da medicina. Já o Consórcio para Treinamento Avançado em Pesquisa na África (CARTA) oferece a cientistas africanos mentorias, treinamentos e suporte institucional.
Iniciativas internacionais de apoio ao médico-cientista
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1. NIHR (Reino Unido)
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O Instituto Nacional para Pesquisa em Saúde financia médicos em diferentes estágios de carreira dentro do próprio sistema público de saúde, mantendo a produção científica vinculada às necessidades do paciente.
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2. LANEHR
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A Latin American Network for Education in Health Research é voltada para a formação de lideranças regionais na intersecção entre pesquisa e medicina, com foco em países de baixa e média renda.
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3. CARTA
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O Consortium for Advanced Research Training in Africa oferece a cientistas africanos mentorias, treinamentos e suporte institucional, criando condições estruturais para a produção científica sustentável no continente.
“Quando o país cria estrutura, estabilidade e incentivo para que médicos permaneçam produzindo ciência dentro do sistema público, isso se torna custo-efetivo a médio e longo prazo”, defendeu Barreto-Duarte.
“O médico-cientista é quem transforma dados em impacto real, melhora diagnósticos, reduz custos e orienta políticas públicas. Precisamos mostrar esses resultados de forma clara e mensurável”, afirma a pesquisadora.
Para ler o conteúdo completo sobre as dificuldades na carreira de médicos-cientistas no Brasil, acesse a entrevista com Beatriz Barreto-Duarte no Science Arena.
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