SOBRE
#Carreiras
27.05.2026 Financiamento

Falta de financiamento contínuo compromete carreira de médicos-cientistas no Brasil

Dependência de editais curtos e incertos impede que profissionais com dupla atuação mantenham estabilidade e produção científica

A imagem mostra uma mulher de jaleco branco e gravata utilizando um microscópio em ambiente de laboratório. Ela segura uma caneta e se inclina sobre o equipamento em posição de trabalho. Ao fundo, desfocados, são visíveis frascos de cultura empilhados e iluminação azulada característica de laboratório científico. “O médico-cientista é quem transforma dados em impacto real”, afirma Beatriz Barreto-Duarte, pesquisadora do Laboratório de Pesquisa Clínica e Translacional da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia | Imagem: Unsplash

Ao decidir desenvolver um projeto de pesquisa, muitos médicos-cientistas no Brasil encontram um obstáculo que antecede qualquer questão metodológica: de onde virá o dinheiro. E, pior, por quanto tempo.

A médica e pesquisadora Beatriz Barreto-Duarte, do Laboratório de Pesquisa Clínica e Translacional da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia, não descreve esse cenário apenas como entrevistada: ela o documenta como autora. Em artigo publicado na revista PLOS Global Public Health, em coautoria com outros pesquisadores, Barreto-Duarte mapeou as dificuldades enfrentadas por médicos-cientistas em países de baixa e média renda — categoria na qual o Brasil se enquadra. 

Entre os obstáculos identificados estão a formação longa e árdua, sistemas que valorizam a medicina baseada em prestígio em vez de evidências, e os desincentivos financeiros para quem opta pela carreira dupla. Em entrevista ao Science Arena, ela detalhou o problema.

Editais curtos, carreiras instáveis

No Brasil, muitos médicos-cientistas ainda dependem de editais de duração limitada e renovação incerta. Isso impede a estabilidade necessária para que estudos sejam conduzidos com a profundidade que exigem.

Para ela, a equação é direta: sem tempo protegido — isto é, períodos garantidos para a pesquisa, livres de outras demandas clínicas — não há como produzir ciência de qualidade de forma sustentada.

“É preciso reconhecer o médico-cientista como figura estratégica, com bolsas de transição e integração real entre universidades, hospitais e o Sistema Único de Saúde (SUS)”, pontuou.

“Ciência de qualidade exige constância”, afirma.

Como outros países resolveram o problema

Em contraste com o cenário brasileiro, Beatriz cita exemplos onde médicos-cientistas contão com suporte institucional sólido. No Reino Unido, o Instituto Nacional para Pesquisa em Saúde (NIHR) financia profissionais em diferentes estágios de carreira dentro do próprio sistema de saúde, mantendo a produção científica próxima das necessidades do paciente.

Bons exemplos também existem em países de baixa e média renda. A Rede Latino-Americana de Educação em Pesquisa em Saúde (LANEHR) foca na formação de lideranças regionais nos âmbitos da pesquisa e da medicina. Já o Consórcio para Treinamento Avançado em Pesquisa na África (CARTA) oferece a cientistas africanos mentorias, treinamentos e suporte institucional.

Iniciativas internacionais de apoio ao médico-cientista

1. NIHR (Reino Unido)

O Instituto Nacional para Pesquisa em Saúde financia médicos em diferentes estágios de carreira dentro do próprio sistema público de saúde, mantendo a produção científica vinculada às necessidades do paciente.

2. LANEHR

A Latin American Network for Education in Health Research é voltada para a formação de lideranças regionais na intersecção entre pesquisa e medicina, com foco em países de baixa e média renda.

3. CARTA

O Consortium for Advanced Research Training in Africa oferece a cientistas africanos mentorias, treinamentos e suporte institucional, criando condições estruturais para a produção científica sustentável no continente.

“Quando o país cria estrutura, estabilidade e incentivo para que médicos permaneçam produzindo ciência dentro do sistema público, isso se torna custo-efetivo a médio e longo prazo”, defendeu Barreto-Duarte.

“O médico-cientista é quem transforma dados em impacto real, melhora diagnósticos, reduz custos e orienta políticas públicas. Precisamos mostrar esses resultados de forma clara e mensurável”, afirma a pesquisadora.

Para ler o conteúdo completo sobre as dificuldades na carreira de médicos-cientistas no Brasil, acesse a entrevista com Beatriz Barreto-Duarte no Science Arena.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Carreiras

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena