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Mezzo-soprano e cientista: como Renata Prôa internacionalizou sua carreira na pesquisa
Doutoranda em Columbia e cientista de dados no Einstein, ela defende que jovens pesquisadores aprendam a comunicar melhor suas trajetórias
“Você pode ser brilhante, mas se não souber comunicar sua trajetória, não chega lá”, afirma Renata Prôa, cientista de dados do Einstein Hospital Israelita | Imagem: Arquivo pessoal
“Você pode ser brilhante, mas se não souber comunicar sua trajetória, não chega lá.” A frase resume, em uma só linha, o princípio que Renata Prôa transformou em método. Aos 25 anos, ela é cientista de dados no Einstein Hospital Israelita e cursa um doutorado em neurociência teórica na Universidade Columbia, em Nova York — trajetória que incluiu, pelo caminho, um mestrado em saúde pública pela Universidade Harvard, também nos Estados Unidos, concluído após uma licença de um ano do doutorado.
Natural de São José dos Campos (SP) e formada em ciências moleculares pela Universidade de São Paulo (USP), Prôa também é mezzo-soprano pela Academia da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), onde ela começou a articular seus interesses por música e ciência.
No Einstein, Prôa tem se dedicado ao desenvolvimento de soluções para o Sistema Único de Saúde (SUS): mais especificamente, algoritmos de triagem de doenças e modelos que cruzam dados climáticos e de saúde para prever impactos das mudanças ambientais em populações mais vulneráveis.
Nesta entrevista ao Science Arena, Prôa fala sobre seu processo de internacionalização acadêmica, os vieses dos dados em inteligência artificial (IA) e o que a academia ainda precisa fazer para se aproximar mais da população.
Os primeiros acordes
Graduada em ciências moleculares pela USP, com passagem pelas áreas de matemática e neurociência, Prôa chegou ao Einstein Hospital Israelita ainda na graduação para estudar distonia, uma condição neurológica comum entre músicos.
O encaixe entre as diferentes áreas do conhecimento não foi acidental: a pesquisadora queria, desde o início, explicar o cérebro por meio de modelos matemáticos — um impulso quase filosófico de traduzir emoções e percepções em equações.
A música nunca foi apenas pano de fundo nessa trajetória. Ao mesmo tempo em que se formava em ciências moleculares, Prôa atuava como cantora profissional e como mezzo-soprano na OSESP.
Foi observando uma orquestra na Alemanha que ela teve insights que seriam centrais em seus modelos matemáticos.
“Muitas das ideias que tive vieram de referências da arte. O artista tem uma disposição para questionar o óbvio que é essencial para a ciência”, afirma Prôa.
Foi também no Einstein onde ela encontrou um novo eixo de atuação: compreender o impacto direto da pesquisa científica na saúde pública. Trabalhando com neuroimagem e, depois, com inteligência artificial aplicada a imagens médicas, a jovem percebeu que poderia encurtar a distância entre pesquisa e vida real.
“Eu me apaixonei por ver a ciência chegando nas pessoas”, conta.
Desde então, sua atuação se voltou ao desenvolvimento de soluções para o SUS, incluindo algoritmos para triagem de doenças e modelos que cruzam dados de clima e saúde para prever impactos das mudanças ambientais em populações vulneráveis.
Voos internacionais
A internacionalização de Prôa não foi planejada desde a infância. Foi, segundo ela, fruto de uma busca ativa para entender o sistema acadêmico global.
Em 2022, ingressou no doutorado em neurociência teórica na Universidade Columbia, em Nova York. Dois anos depois, ao completar o segundo ano — período em que o programa confere automaticamente um mestrado —, pediu uma licença de um ano para cursar um mestrado em saúde pública em Harvard. Concluiu a formação em maio de 2025 e retomou o doutorado em Columbia no semestre seguinte.
A decisão, à primeira vista pouco convencional, tem raiz em uma percepção que emergiu durante o próprio doutorado: ao trabalhar com projetos voltados ao Sistema Único de Saúde (SUS), Prôa percebeu que os resultados geravam impacto mais concreto e imediato do que a pesquisa em modelos matemáticos do cérebro — sua linha original.
O deslocamento não foi de área, mas de escala: do laboratório para o sistema de saúde. Para atuar nessa frente com o mesmo rigor técnico, avaliou que precisava de formação em saúde pública e gestão estratégica. Harvard entregou exatamente isso.
A transição se reflete hoje no trabalho que desenvolve no Einstein, com projetos que cruzam inteligência artificial, clima e equidade no SUS.
Um ponto de virada foi, em 2021, ainda antes de ingressar no doutorado, a participação na Iniciativa Próxima, programa de mentoria da Universidade Yale (EUA) voltado a jovens cientistas na área de ciências biomédicas.
Durante um ano, Prôa teve como mentor um doutorando em neurociência de Yale, que a acompanhou no processo de candidatura: do mapeamento do sistema acadêmico internacional ao desafio emocional de redigir o personal statement.
Em Columbia, ela se viu como a única de sua turma vinda de fora do circuito de elite das universidades americanas, o que reforçou sua motivação para participar de programas de mentoria voltados a outros estudantes.
Um dos maiores obstáculos foi a redação do personal statement, texto em que o candidato deve defender seu valor. A pesquisadora relata que precisou superar o que identifica como “cultura de humildade brasileira” e a síndrome do impostor, barreiras que dificultavam a autodefesa adequada de suas conquistas.

Essa dificuldade com a autodefesa, que ela reconhece como traço cultural, não individual, acabou se tornando matéria-prima para um trabalho de comunicação à parte.
Com mais de 30 mil seguidores no Instagram, Prôa passou a orientar jovens pesquisadores interessados em estudar no exterior, compartilhando o que aprendeu sobre candidaturas internacionais, interdisciplinaridade e carreira acadêmica.
O movimento ganhou forma durante o mestrado em Harvard, quando atuou como comunicadora científica da instituição. O retorno tem sido especialmente positivo entre estudantes brasileiros sem acesso a redes de apoio estruturadas.
Ciência sem pedestal
Ao falar de inteligência artificial — tema central de sua atuação atual —, Prôa evita o entusiasmo acrítico. Para ela, a importância da tecnologia está menos na sofisticação técnica e mais nas perguntas que orientam seu uso.
Em um país marcado por desigualdades, isso significa garantir que algoritmos de diagnóstico funcionem para diferentes perfis de pacientes.
“A IA é uma superferramenta de automatização. O risco está nos vieses dos dados”, avalia Prôa.
“Se você treina um modelo só com dados de um grupo, ele não vai funcionar para os outros”, afirma. Além disso, ela reforça que a academia precisa aprender a dialogar com a ponta, acolher dúvidas e abdicar do pedestal que afasta o conhecimento da população.
Para quem está começando, os conselhos são diretos: “Não tenha medo das suas dúvidas. Nenhuma pergunta é estúpida. E, talvez mais importante, reconheça que a ciência não é um caminho solitário nem linear. Não basta ter resultado. Existe comunicação, relações humanas, política. Ter uma rede de apoio faz toda a diferença.”
Como se candidatar a universidades internacionais
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1. Domine o inglês, mas vá além
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O idioma é condição mínima. O verdadeiro desafio está em entender a cultura de candidatura de cada país, que varia significativamente em comparação ao processo brasileiro.
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2. Busque programas de mentoria
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Iniciativas como a Iniciativa Próxima oferecem orientação de pessoas que já passaram pelo processo. Redes de apoio estruturadas fazem diferença real, especialmente para quem vem de fora do circuito das universidades de elite.
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3. Invista no personal statement
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O texto de candidatura exige autodefesa clara das próprias conquistas. Estudantes brasileiros frequentemente precisam superar a chamada “cultura de humildade” e a síndrome do impostor para apresentar sua trajetória com confiança.
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4. Construa uma trajetória interdisciplinar
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Universidades americanas valorizam perfis que transitam entre áreas. Uma formação em matemática aplicada à neurociência, por exemplo, pode ser um diferencial mais potente do que um currículo linear.
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5. Comunique sua ciência
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Saber fazer pesquisa não basta. É preciso saber contar o que se faz — para bancas, para financiadores e para o público amplo. A comunicação científica é parte da carreira, não um acessório.
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